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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ideologia e Alienação

Ideologia e Alienação

Fábio Souza C. Lima
Historiador e Filósofo, Especialista em Educação.
Professor do Instituto de Educação Carmela Dutra e do C. E. Olegário mariano

Todos conhecem a famosa fórmula de Karl Marx, que diz: “religião é o ópio do povo”, isto é, um mecanismo que vicia para fazer com que o povo aceite a miséria e o sofrimento sem se revoltar, acreditando que será recompensado na vida futura ou acreditando que tais dores são uma punição por erros cometidos numa vida anterior. Marx é um crítico ferrenho do uso histórico das religiões como ideologias formadas para a dominação do povo e, em sua obra Ideologia Alemã, esclarece as formas com as quais as ideologias são usadas para o controle social.
Passeatas, protestos, abaixo-assinados... nem pensar! Devemos ter esperança, como nas mensagens de televisão de todo fim de ano, de que tudo vai melhorar.
Profº Fábio SouzaA ideologia é produzida em três momentos fundamentais: a) ela se inicia como um conjunto sistemático de idéias que os pensadores de uma classe em ascensão colocam no mundo. Nesse momento a ideologia se encarrega de produzir uma universalidade com base real para legitimar a luta da nova classe pelo Poder; b) ela prossegue tornando-se o que pensador italiano Antônio Gramsci denomina de senso comum, isto é, ela se populariza, tornando-se um conjunto de idéias e de valores concatenados e aparentemente coerentes; c) e mesmo após a vitória da classe que ascende ao Poder, a ideologia continua interiorizada como senso comum e continua a nortear a nova Ordenação Social.
Podemos utilizar como exemplo de introdução de uma ideologia, a Revolução Francesa, quando o Antigo Regime (Sociedade de Estamentos – Nobreza, Clero e Plebe + Burguesia), ruiu diante de uma nova ideologia que pregava liberdade de comércio e igualdade jurídica para todos os homens, sendo incorporadas gradualmente pela população. A burguesia, através de comícios, dos meios de comunicação e das escolas que controlavam, passaram a introduzir essas idéias, bem como passaram a usar exemplos que denegriam o antigo regime, fazendo com que a população identificasse o Antigo Regime como algo ruim, de violência (simbólica e física) contra a população. Desde então, a classe burguesa chegou ao Poder e pôde fazer com que seus novos valores e idéias continuassem a vigorar, tal como ainda é nos dias de hoje.
Embora a ideologia tenha a aparência de algo racional e coerente como a ciência, como a tecnologia, como a filosofia, como a pedagogia, como uma explicação e como uma ação, isso ocorre apenas porque não diz tudo. E não diz tudo porque não pode dizer tudo. Se assim o fizesse, se quebraria por dentro. Ou seja, se nós conseguíssemos perceber a ideologia, sabendo até que ponto ela entra em nossas vidas e o que ela quer de nós, ela não mais faria efeito em nós. O que queremos dizer é que a ideologia tem por característica se esconder, aparentando ser um conjunto de idéias que sempre existiram, que não favorecem a ninguém, não ajudam a alguns a permanecer no Poder. As pessoas dominadas pelas ideologias não conseguem perceber que são dominadas e, frequentemente, não apenas servem a elas, mas também a defendem. Desta forma, as classes sociais dominadas continuam a crer que as coisas são como são, sem ter a menor possibilidade de mudança. Se, por outro lado, a dominação e a exploração de uma classe por outra classe for perceptível como violência (simbólica), isto é, como poder injusto e ilegítimo, os explorados e dominados se sentem no justo direito de recusá-la, revoltando-se contra os dominadores. Por este motivo, o papel específico da ideologia como instrumento da luta de classes é impedir que a dominação e a exploração sofridas pelos dominados sejam percebidas em sua realidade concreta. Trata-se também de um disfarce.
Profº Fábio SouzaAssim, no caso das religiões segundo Marx, para que a população, continue crédula de que não controla sua vida e que tudo depende de um Ente superior, cujas vontades são insondáveis, elas devem permanecer alienadas. No caso da Revolução francesa, a alienação se deu pela crença em que a vida das pessoas melhoraria. Crença em que não existem desigualdades jurídicas e que todos seriam tratados da mesma forma segundo a nova Ordem Social. Como alienadas, as pessoas devem acreditar que não constroem ou participam da história, que não são responsáveis pela realidade que aí está ou ainda, devem participar da história só até onde é determinado de forma “natural” por aqueles que são mais capacitados dentro da sociedade. Essas pessoas, de modo geral, devem acreditar que são apenas agentes passivos na vida que levam. A esperança de que as coisas vão algum dia mudar, bem como creditar a um Ente místico todas as conquistas terrenas, exemplificam bem essa situação.
A ideologia é, pois, um instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisão da sociedade em classes contrárias em luta.
A ideologia é uma ilusão, necessária a dominação de classe. Por ilusão não devemos entender ficção, fantasia, invenção gratuita e arbitrária, erro, falsidade, pois com isto suporíamos que há ideologias falsas ou erradas e outras que seriam verdadeiras e corretas. Por ilusão devemos entender: abstração e inversão. Inversão ou abstração do real para uma ilusão diferente, tal como deseja a classe dominante; tal como podemos perceber de forma bem didática em filmes como Matrix, A Ilha e o Show de Truman.
A ideologia consiste precisamente na transformação das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo, de modo que a classe que domina no plano material (econômico, social e político) também domine no plano espiritual (das idéias).
Isto significa que:
1.            Embora a sociedade esteja dividida em classes, a dominação de uma classe sobre a outra, faz com que só as idéias da primeira sejam consideradas válidas, verdadeiras e racionais;
2.            Para que isto ocorra, é preciso que os membros da sociedade não se percebam divididos em classes economicamente e politicamente diferentes;
3.            Para que todos os membros se identifiquem com essas características supostamente comuns a todos, é preciso que a classe dominante faça com que todas as classes acreditem que podem viver com os mesmos ideais. A difusão desses ideais, dá-se através do domínio do Estado e dos meios de comunicação de massa, que por suas vez, influencia as pessoas através das escolas, dos costumes, das religiões e dos meios de comunicação disponíveis.
Quando a ideologia é descoberta pelos dominados, como uma violência (simbólica), não mais parecendo como o único meio de vida em sociedade, temos uma crise de hegemonia da ideologia dominante. Daí então, a população começa a criticar os atuais valores e idéias, podendo aderir a uma nova ideologia, tal como foi o caso da Revolução Francesa, como citamos.
Podemos caracterizar as ideologias da seguinte forma:
Profº Fábio Souza1. A população, em momento algum pode perceber que está dividida em classes. No caso da sociedade brasileira, por mais que sejam publicadas pesquisas divulgando as classes A, B, C... as propagandas de TV exaltam a igualdade de acesso e chances de ascensão profissional, política e financeira para todos. Nunca Desista!!! Trabalhe duro para crescer!!!
2. O homem alienado, é alijado de sua capacidade de construir história, de se ver como agente que reflete sobre o passado e capaz de mudar o futuro. A ideologia então pode se impor. Para que a classe dominante possa inculcar suas idéias e valores, a ideologia não pode ser identificada como privilegiadora de uma classe, pois, desta forma, os dominados acreditarão que todos são afetados de maneira igual por ela.
3. A disseminação das idéias e valores da classe dominante, dá-se através escolas,  dos costumes, das religiões, campanhas “educativas” e dos meios de comunicação disponíveis.
4. Vez por outra, acontece uma Crise de hegemonia, onde a população consegue perceber que está sendo violentada e explorada pela ideologia vigente, daí então, a história nos mostra que os dominados se rebelam contra o sistema, alterando a sua estrutura social. Dois bons exemplos disso, são a revolução Francesa, que introduziu idéias e valores até hoje vigentes em quase todos os países ocidentais e a Revolução Russa, que mudou a estrutura social daquele país, tirando a burguesia do poder e entronando a classe proletária.

2 comentários:

  1. Muito bom texto, Fábio! Peço permissão para usar o presente texto em minhas futuras aulas sobre a concepção marxista de ideologia. hehehe!

    Abração!

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  2. Gostei bastante deste texto!

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