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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO MEDIEVAL

EDUCAÇÃO MEDIEVAL
PILETTI, C. E PILLETTI, N. Filosofia e História da Educação. Cap. 10. Editora ática, São Paulo, 2008.

Por ocasião da invasão dos bárbaros, a cultura greco-romana esteve a ponto de ser destruída, o que só não aconteceu graças, em grande parte, à atuação da Igreja Cristã, pois somente através da religião foi possível educar os novos povos.
A educação dos povos europeus na Idade Média, portanto, teve como ponto de partida a doutrina da Igreja. Assim, a instrução nessa doutrina e a prática do culto substituíram o elemento intelectual. Todos os tipos de educação que se desenvolveram durante o longo período da Idade Média não passaram de modalidades diferentes de preparação para um estado futuro.
Sob o domínio da Igreja, este estado futuro tornou-se a “outra vida”. Durante todo este período predominou uma concepção de educação que se opunha ao conceito liberal e individualista dos gregos e ao conceito de educação prática e social dos romanos.

1. O cristianismo e o novo ideal educacional
Enquanto os filósofos gregos davam mais importância ao aspecto intelectual do homem, o cristianismo, pelo contrário, passou a dar maior importância ao aspecto moral. O cristianismo não se baseia no ideal de imediata felicidade nem no de vida da razão; baseia-se, primordialmente, na idéia de caridade cristã ou amor, que é a expressão mais individual e completa da personalidade humana.
O novo ideal educacional, portanto, concentra-se no aspecto moral da pessoa humana. Esse novo ideal educativo do cristianismo é um renascer para um mundo novo do espírito.
Com o cristianismo surge um novo tipo histórico de educação com normas inéditas de vida e comportamento. No Sermão da Montanha, Jesus Cristo instaura uma nova visão do mundo e da vida, que contrasta ostensivamente com as culturas precedentes, fundadas num ideal heróico, aristotélico e terreno da existência. “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”. “Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus.”

2. Os primeiros padres da Igreja, o cristianismo e a filosofia pagã
Os primeiros padres da Igreja, diante das diferenças entre o cristianismo e o saber grego e romano, ocupam posições diferentes.
Clemente de Alexandria (150 – 215), por exemplo, sustentava que os evangelhos eram o platonismo aperfeiçoado e que “Platão era o Moisés helenizado”. Ensinou que a filosofia pagã era um “pedagogo para conduzir o mundo a Cristo”. São Justino (100 – 165) e Orígenes (185 – 254) pensavam da mesma forma.
Mais tarde, porém, surgem alguns padres que passam a se opor ao saber pagão e especialmente à filosofia grega. São João Crisóstonomo (340 – 407), referindo-se a tal saber, escreve “Abandonei há muito tempo tais tolices, pois não podemos despender toda a vida em brinquedos de crianças”. E São Basílio (329 – 379), escrevendo sobre a educação de crianças, resume assim sua posição: “Temos então de abandonar a literatura? Direis. Não digo isso: mas que não devemos matar as almas... Na verdade, a escolha jaz entre duas alternativas: a educação liberal que podeis conseguir enviando vossas crianças às escolas públicas ou a salvação das suas almas que podeis assegurar enviando-as aos monges. Quem deverá vencer, a ciência ou a alma? Se puderdes unir ambas as vantagens, fazei-o por todos os meios; mas se não o puderdes, escolhei a mais preciosa.”
São Jerônimo (347 – 420), autor da versão da Bíblia para o latim, combateu, no campo educacional, a disciplina excessiva no ensino de sua época. Enfatizou também a importância de se respeitar a personalidade do aluno e de ser criar, na escola, um ambiente de amizade.
Santo Agostinho (354 – 430), o mais ativo e mais brilhante dos padres da Igreja, consagrou sua extensa cultura ao combate às heresias. Embora inicialmente admirasse o saber clássico, com o passar do tempo essa admiração foi diminuindo.
Santo Agostinho escreveu uma importante obra pedagógica, De magistro, na qual fala do processo de ensino dentro de uma visão platônica. Diz que o órgão de todo aprendizado é o logos ou mestre interior (auto-educação), que atua por iluminação divina, servindo-se das palavras e sinais como meios de comunicação. A teoria da iluminação, porém, não se ajusta com a idéia platônica de reminiscência, pois, para o cristianismo, a alma não preexiste ao corpo.

3. As escolas cristãs primitivas
A Igreja Cristã primitiva, em sua tarefa de reforma moral do mundo, volta sua atenção para a educação moral de seus próprios membros.
Os que se convertiam á religião cristã passavam por um período inicial de preparação, durante o qual recebiam instrução na doutrina cristã. Os recém-convertidos, antes de serem admitidos como membros efetivos da Igreja, eram chamados de catecúmenos, e as escolas onde recebiam instrução, de catecumenatos.
Com o tempo, tais escolas passaram a ser organizadas pelos bispos com o intuito de preparar o clero para as igrejas que estavam sob sua direção. Passaram, então, a ser denominadas escolas das catedrais, por estarem localizadas no edifício da catedral.

4. O monaquismo
Monaquismo significa a organização de homens que fizeram votos especiais de vida religiosa e vivem de acordo com regras que determinam a conduta nos seus menores detalhes.
O estudo nos mosteiros ocupava um papel preponderante. São Bento (480 – 547), fundador da ordem dos beneditinos, determinou que cada religioso deveria ter sete horas por dia de trabalho, que poderia ser manual ou literário. Determinou, também, que cada religioso deveria dedicar de duas a cinco horas de leitura por dia.
São Basílio estipulou regras semelhantes. Desse regime de trabalho imposto aos monges surgiram diversos benefícios para a educação. Os principais foram:
- surgimento das escolas para preparação dos jovens aceitos para a vida monástica.
- cópia e conservação dos livros.
- o estudo da literatura.
- formação de um ambiente favorável ao estudo e à reflexão.
Os mosteiros eram praticamente as únicas instituições de ensino da época. Eram os únicos centros de pesquisa, as únicas casas editoras para a multiplicação dos livros, as únicas bibliotecas para a conservação do saber, enfim, os mosteiros preparavam os únicos sábios e estudiosos da época.
Um dos trabalhos mais significativos dos monges no campo educacional foi, sem dúvida, a cópia dos manuscritos. Sem esse trabalho a maior parte das obras do passado não teriam chegado até nós.
Deve-se aos monges, também, a condensação do saber da época nas Sete Artes Liberais, que incluíam o trivium (Gramática, Dialética, Retórica) e o quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). O trivium e o quadrivium unidos constituíam o septivium.

5. A escolástica
O termo escolástica significou inicialmente o conjunto do saber, tal como era transmitido nas escolas do tipo clerical. O escolástico era o mestre das Sete Artes Liberais ou o chefe das escolas monásticas ou catedrais. Mais tarde se deu o mesmo nome aos que escolarmente se dedicavam à Filosofia e à teologia.
Num sentido amplo, porém, podemos dizer que a escolástica é um movimento intelectual oriundo da Idade Média, preocupado em demonstrar e ensinar as concordâncias da razão com a fé pelo método da análise lógica.
A escolástica, portanto, não se caracteriza por nenhum conjunto de princípios ou crenças, mas por um método ou tipo peculiar de atividade intelectual. Seu objetivo era apoiar a fé na razão, procurando acabar com todas as dúvidas e controvérsias através da argumentação.
Dessa maneira, a educação escolástica visava desenvolver o poder de formular as crenças num sistema lógico. A forma científica valorizada era a lógica dedutiva. Por isso, a escolástica é definida, freqüentemente, como a união das crenças cristãs com a lógica aristotélica.
A escolástica compreende três períodos:
· o de formação (desde o século IX até fins do século XII);
· o de apogeu (1220 a 1347), época de fundação dos grandes sistemas escolásticos;
· o de decadência 9até últimos anos do século XV), caracterizado pela reprodução das doutrinas da fase precedente.

Os principais representantes da escolástica são:
· Santo Anselmo (1033 – 1109) o primeiro a fazer distinção entre saber e crença.
· Santo Alberto Magno (1200 – 1280) denominado o Doutro Universal, foi o primeiro a reproduzir a filosofia de Aristóteles em forma sistemática.
· Santo Tomás de Aquino[1] (1225 – 1274) o Doutor Angélico foi o mais influente de todos. Sua monumental obra, a Suma Teológica, representa a culminância da escolástica. Com relação ao ensino, ele insiste na participação que o educando deve ter em sua formação física e espiritual. Santo Tomás admite, como Santo Agostinho, que Deus é o verdadeiro mestre que ensina dentro de nossa alma, porém sublima a necessidade de uma ajuda exterior. Deus nos infunde no entendimento os princípios fundamentais; contudo, as aplicações desses princípios, as deduções que deles se originam, são obra humana e da experiência. No educando o saber está contido só potencialmente; o mestre o ajuda, leva-o a atualizá-lo, não no sentido de que se opere sobre sua alma como causa final, isto é, como modelo que o discípulo tende a realizar.
· Duns Scotus[2] (1266 – 1308) o Doutor Sutil, celebrizou-se como fundador de uma escola de teologia rival da de Santo Tomás de Aquino.
· Guilherme de Occam[3] (1300 – 1350) o Doutor Invencível, negava que as doutrinas teológicas pudessem ser demonstradas pela razão e sustentava que era totalmente matéria de fé.

6. As universidades
São as seguintes as principais circunstâncias que determinam o surgimento e desenvolvimento das universidades européias no século XIII;
- o desenvolvimento interno das escolas monásticas e escolas catedrais.
- o vigoroso influxo da ciência e da Teologia.
- o desenvolvimento do comércio e o crescimento das cidades, que estimularam o interesse pelo ensino.
- o movimento das Cruzadas, que tirou a sociedade européia do seu isolamento.
O primeiro nome dado às novas instituições de ensino foi o de studium generale. Isto, no entanto, não significa que tais instituições em seu início, incluíssem todos os ramos do saber; significa apenas que era um instituto geral (não local) para todos os estudantes preparados, sem distinção de raça e nacionalidade. Em sua origem, um studium generale podia cultivar e ensinar apenas um ramo do saber; podia, por exemplo, ensinar só Direito.
Só mais tarde, pelos fins do século XIV, o nome studium generale foi substituído pelo de universitas. Isto ocorre quando um studium generale chega a organizar-se em forma de cooperação de mestres e alunos, pouco importando que, a princípio, seus membros se consagrassem a uma só disciplina. À semelhança da expressão studium generale, a palavra universidade adquiriu o sentido de instituição docente e de investigação, dedicada, com liberdade de mestres e alunos, a todos os ramos do saber (universitas litterarum).
Talvez a primeira universidade que congregou professores e alunos organizados por seções nas quatro grandes divisões do conhecimento daquela época (Teologia, Direito, Medicina e Filosofia) tenha sido a de Nápoles, fundada em 1224.
Podemos citar, entre as universidades mais importantes, as de Paris, Bolonha, Salermo, Oxford, Viena e Salamanca.
Durante a Idade Média foi muito grande a influência da universidade. Ela forneceu o primeiro exemplo de organização puramente democrático. Foi uma das grandes forças da Idade Média, a única que à época representava a cultura superior do espírito, quando não havia outros corpos científicos, nem imprensa, nem jornais, nem revistas. Representava também a opinião pública, não somente nos assuntos científicos, mas também nos grandes problemas políticos e eclesiásticos, ou por não existirem corporações políticas regulares, ou por estas se reunirem de quando em quando.


PILETTI, C. E PILLETTI, N. Filosofia e História da Educação. Cap. 10. Editora ática, São Paulo, 2008.

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