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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O FIM DA IDADE MÉDIA E O RENASCIMENTO (EDUCAÇÃO RENASCENTISTA)




O FIM DA IDADE MÉDIA E O RENASCIMENTO (EDUCAÇÃO RENASCENTISTA)

PILETTI, C. E PILLETTI, N. Filosofia e História da Educação. Cap. 11. Editora ática, São Paulo, 2008.

1. Tendências gerais do Renascimento
Renascimento significa, etimologicamente, a ação de renascer, isto é, nascer de novo. Tradicionalmente, no entanto, a palavra renascimento designa o movimento cultural e artístico que se desenvolveu nos séculos XVI e XVII. Esse movimento, que teve início na Itália e daí se estendeu para o resto da Europa, propunha-se restaurar as formas e ideais da Antiguidade clássica.
Segundo Paul Monroe, as atividades do Renascimento podem ser resumidas em três tendências gerais, que representam três grandes interesses quase desconhecidos durante a Idade Média:

1º) Interesse pela vida real do passado. Os gregos e romanos tinham um conhecimento mais amplo da vida e das suas possibilidades do que a humanidade da Idade Média. As idades clássicas expressaram esse conhecimento através de uma literatura e uma arte incomparavelmente superiores às da Idade Média, que no entanto as ignorava.

2º) Interesse pelo mundo subjetivo das emoções - da alegria de viver, dos prazeres e satisfações contemplativas desta vida e da apreciação do belo. O pensamento medieval ignorava completamente este mundo.

3º) Interesse pelo mundo da natureza física. Este não só era desconhecido dos povos medievais, como, seu estudo era considerado baixo e humilhante.

2. Conseqüências dos novos interessesAs principais conseqüências dos novos interesses foram:
· estudo mais amplo e intensivo das línguas grega e latina;
· caça aos manuscritos remanescentes desta literatura;
· restauração das obras clássicas;
· criação, na literatura, de um novo interesse por tudo o que apelasse para a imaginação e para o coração;
· o esforço artístico, sob todas as suas formas, passa a predominar como em nenhum outro período da História;
· a análise introspectiva da vida emocional provoca imensa produção literária (poesia, drama e romance);
· desenvolvimento das ciências históricas e sociais;
· deslocamento do centro de gravitação, até então situado nas coisas divinas, para o próprio homem.

3. Conseqüências educacionais
Uma das principais conseqüências educacionais do Renascimento, ao lado da exaltação do estudo dos clássicos, é a bus promova o ideal da nova vida.
E qual é esse ideal?
Quem responde é Paulo Vergério (1349-1420), professor da Universidade de Pádua, que em 1374 escreveu um tratado sobre educação: "Para um temperamento vulgar, o lucro e o prazer são os alvos da vida; para uma natureza elevada, a dignidade moral e a glória são tudo".
O conteúdo da nova educação, que consiste principalmente nas línguas e nas literaturas clássicas dos gregos e romanos, passa a ser designado, durante este período, pelo termo humanidades.Batista Guarino, em seu tratado sobre a educação (1459), escreve o seguinte: "O conhecimento e a prática da virtude são peculiares_ ao homem; eis por que os nossos antepassados chamavam Humanitas aos propósitos, às atividades específicas da humanidade. Nenhum ramo do conhecimento abrange uma extensão tão ampla de assuntos quanto esta ciência que tento descrever".
O interesse da educação no Renascimento está centrado, portanto, "nos propósitos, nas atividades específicas da humanidade", e a literatura dos gregos e romanos era apenas um meio para a compreensão de tais atividades. Por isso, o aprendizado da língua e da literatura dos gregos e romanos torna-se o problema pedagógico mais importante.

4. Alguns representantes do Renascimento
A Itália foi o berço do Renascimento. Mais do que qualquer outro povo, a língua e a literatura a uniam com a época clássica. Dante Alighieri foi o mais antigo dos precursores do Renascimento. Com a Divina comédia ele deu a seu país uma língua nacional. Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375) ressuscitaram o interesse pelo estudo dos clássicos latinos e gregos.
No campo educacional, porém, o maior inovador foi Victorino da Feltre (1378-1446). Sua maior criação foi uma escola à qual deu o nome de Casa Giocosa (casa alegre), para diferenciá-la das escolas de tipo medieval, de disciplina rígida e austera.
A Casa Giocosa preocupava-se, acima de tudo, com a formação integral do homem. Procurava educar harmonicamente os jovens através da educação física, equitação, salto, corrida, esgrima e guerra simulada; no plano de ensino, colocava no centro as "artes liberais"; e ensinava aos jovens literatura e história de Roma, em vez de meras fórmulas lingüísticas.
Victorino da Feltre costumava dizer: "Quero ensinar os jovens a pensar, não a delirar". Afirmava, também, que o ensino deveria ser gradual e de acordo com o desenvolvimento psíquico do aluno, e transcorrer num ambiente de alegria e satisfação.
Com relação ao nome Casa Giocosa, convém lembrar que a palavra italiana giocosa deriva do vocábulo latino iocus, sinônimo de ludus, que, como vimos, foi o nome dado à escola elementar romana. "Vinde, ó meninos, aqui se instrui, não se atormenta", dizia uma legenda da Casa Giocosa.
A experiência pedagógica de Victorino da Feltre foi a primeira tentativa, na Itália, de criar uma escola à margem das organizações religiosas. E os seus resultados, certamente, foram muito bons, pois dela saíram humanistas, chefes de Estado, eclesiásticos, filósofos, educadores, juristas, homens de ciência, poetas.
Na França, dois representantes do Renascimento se ocuparam com problemas da educação: François Rabelais (1483-1555) e Michel de Montaigne (1533-1592). Rabelais voltou-se contra a educação formalista e livresca, e apresenta suas idéias sobre educação através de uma novela pedagógica cheia de ironia, chamada Gargântua e Pantagruel. "Gargântua, filho do gigante Grangollete e da giganta Gargabela, mostrava desde menino felizes disposições para o estudo. Seu pai, monarca poderoso, confia-o a dois mestres, nos quais Rabelais personifica a educação oca e sofística da época.
Gargântua trabalha durante vinte anos com todas as suas forças, aprende muitos livros e até os pode recitar de memória; mas não progride, e o rei gigante nota que seu filho está se tornando tolo e idiota. O rei se queixa de tão triste resultado a um amigo seu, e este lhe diz que há outro meio de educar a juventude, e apresenta ao rei um pequeno pajem, chamado Exudermo, muito esperto, e que forma lastimável contraste com Gargântua. Então o gigante faz chamar o preceptor Exudermo, a fim de que se encarregue da educação de seu filho.
O novo preceptor de Gargântua começa por levá-lo a viajar para ilustrá-lo, e lhe distribui as horas do dia a fim de que o discípulo não desperdice nenhuma. Ensina-lhe por meio do jogo, ensina-lhe no momento de tomar refeição, ensina-lhe Botânica nas flores do campo e nas ervas. Astronomia, nos astros. Higiene, nos alimentos e assim por diante; sempre sob a forma sensível, intuitiva. Ao mesmo tempo enrijece seu corpo, obriga-o a saltar, a subir em árvores, a
nadar, a disparar a funda e a flecha, esgrima, equitação, ginástica completa. Ensina-lhe a moral fugindo do fanatismo e da despreocupação, afeição à leitura e ao desenho, e até os jogos de cartas e fichas lhe servem para o ensino de Geometria e Aritmética." Rabelais condensa seu pensamento no seguinte princípio: "Ciência sem consciência não é senão ruína da alma".
O outro representante francês do Renascimento que se ocupou com os problemas da educação foi Montaigne. Para Montaigne, a educação de seu tempo era livresca, cheia de pedantismo, desligada da vida e propensa a punir as crianças com castigos corporais. Diz ele: "Os eruditos exclamam com freqüência: Cícero falava assim, estas foram as palavras de Platão, estas são as próprias palavras de Aristóteles. Um papagaio podia dizer o mesmo! Mas, o que é que dizemos e que seja nosso? Que é que podemos fazer? Que juízo temos? Tal instrução é como moeda falsa, que não tem outro valor senão o de uma ficha para cortar ou sustentar naipes. Porque o conhecimento que vem dos livros merece o maior desprezo se nada tem a ver com a vida real do indivíduo.
O que abusa de enriquecer-se com o acúmulo de tantos conhecimentos, nunca será esperto nem brilhante. O ideal educativo de Montaigne é o homem para o mundo. Por isso a educação deve formar o homem completo, de corpo e alma. É preciso educar o juízo do aluno, em vez de encher-lhe a cabeça com palavras. Para tanto, o professor, ao invés de dizer tudo ao aluno, deve mostrar-lhe as coisas, torná-las agradáveis para que ele aprenda a discernir e a escolher por si mesmo. Algumas vezes o professor deverá abrir-lhe o caminho; outras vezes procurará que a criança se esforce por abri-lo. O professor não deve ser o único a falar. Deve, também, ouvir seus alunos.
Montaigne dá outros conselhos ao professor. Diz, por exemplo, que o professor não deve limitar-se a indagar o aluno apenas sobre as palavras da lição; deve indagá-lo, principalmente, sobre o sentido e a substância, "julgando o proveito que tirou, não pelo testemunho da vida".
Logo a seguir, aconselha: "Procure também que o seu discípulo aprenda, se possível, aplique a cem usos, para ver se o aplica bem e se o compreendeu. É indício certo de que o estômago não desempenhou bem as funções quando devolve os alimentos no mesmo estado em que os recebe. As abelhas voam de flor em flor roubando-lhes parte dos delicados sucos que contêm, que não são o próprio mel; este as abelhas formam depois e é inteiramente seu. Da mesma forma devem os discípulos recolher idéias e conhecimentos dos demais, não para reproduzi-los como os recebem, mas para transformá-los e fundi-los em obra própria. Guarde em boa hora o que recebeu emprestado, mas revele ao mesmo tempo o que fez por sua parte".
Com relação ao programa de estudos, Montaigne recomenda o conhecimento da natureza, da língua materna, da História que "é um espelho onde é preciso olhar para conhecer-nos bem". Com relação aos métodos de ensino ele reprova os educadores que consideram seus alunos como sujeitos passivos aos quais se tenha que transmitir os conhecimentos como "idéias já feitas".
Recomenda que se procure estimular a atividade espontânea dos meninos e jovens (métodos ativos), mediante a observação direta da natureza e do juízo autônomo da razão: "Faça-se a criança adquirir curiosidade por todas as coisas, que veja quanto haja de singular a seu redor: um edifício, uma fonte, um homem, o lugar de uma antiga batalha, uma passagem de César ou de Carlos Magno".
As idéias de Montaigne tiveram repercussões benéficas sobre a educação.
Sua preocupação com um tipo de educação destinada a formar o juízo prático dos jovens para as coisas da vida coincide com as preocupações educativas de nosso tempo.

PILETTI, C. E PILLETTI, N. Filosofia e História da Educação. Cap. 11. Editora ática, São Paulo, 2008.

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