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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cordeiros ganham R$ 35 por dia e se dizem humilhados

SEXTA, 17 DE FEVEREIRO DE 2012, 14H44  ATUALIZADA ÀS 15H01

Cordeiros ganham R$ 35 por dia e se dizem humilhados

Claudio Leal/Terra Magazine
Cordeiros se aglomeram no Farol da Barra, no primeiro dia de carnaval, para conseguir um trabalho temporário.  É humilhante. Não temos emprego, diz ...
Cordeiros se aglomeram no Farol da Barra, no primeiro dia de carnaval, para conseguir um trabalho temporário. "É humilhante. Não temos emprego", diz uma cordeira.
Claudio Leal
De Salvador (BA)
A concentração de cordeiros, no gramado do Farol da Barra, escorre pelas laterais da fortaleza colonial, cravada numa das pontas da cidade do Salvador. Cordeiro, no dicionário baiano, é o encarregado das cordas dos blocos carnavalescos, sempre oscilando no conflito entre os pagantes e os "pipocas" (os foliões que brincam nas margens da avenida, sem gastar com proteção privada).
Predominam os negros nessa quinta-feira, o dia da abertura do carnaval. O mercado de cordeiros se inicia nos bairros. Aline, 22 anos, desempregada, se inscreveu com uma fiscal do bloco Cocobambu no Nordeste de Amaralina. Sentada no gramado, ela chegou ao Farol às 12h, foi atendida às 15h e estima que o trio não sairá antes das 19h, comandado pela banda Asa de Águia. Ganhará R$ 220 por seis dias de puxa-e-estica. A cada jornada recebe uma pequena sacola com dois pacotes de biscoito recheado, três águas e dois sucos quentes. "É humilhante. Não temos emprego, por isso que a gente vem".
Aline calcula que outras duzentas pessoas vieram do Nordeste de Amaralina. "Escreva que a gente ganha muito pouco. Olha o biscoito que eles nos dão!", mostra Maria Paula. Ainda assim, riem e se embolam - "E avise: não tentem beijar as cordeiras, porque dá sapinho", orienta Edneia. Elas garantem retribuir a porrada, se os valentes tentarem barbarizar com alguma companheira.
A engrenagem do carnaval criou subcategorias de controladores de bloco. Como num navio, há o comandante e os grumetes. Encarregado de corda do Nana Banana, Geovandro cuida de um grupo de 22 cordeiros e ganha a diária de R$ 50. Cabelo tingido de loiro, ele se orgulha da missão: "Pior é ficar seis dias em casa ou vir pra avenida tomar pau dos outros, apanhar de pipoqueiro malhado". Ganha miséria, admite. Detalha a vestimenta essencial do cordeiro: um short e uma camisa leve. Homem, de preferência, para cair na baixaria e retribuir os murros dos pipocas, ainda mais inamistosos no desfile do Chiclete com Banana. "Mulher, só se for lésbica, só se for sapatona, com jeito de homem".
Fabiano é patrulheiro, categoria distinta, mais aprumada. "Dentro do bloco, auxilio os cordeiros, dou sustentação, ajudo na hora do abre e fecha da corda", conta, a poucas horas de sair com a Timbalada. Envergonha-se do kit oferecido pelos donos do bloco Nana Banana: biscoito recheado, água mineral Ourofino, goiabinha e suco. "Só falam em dinheiro no final. O acertado é 50 reais por dia, sem transporte. Pagam pouquíssimo, mas, que jeito? Precisamos. Poderiam dar 80 reais pra mim e 50 para os cordeiros, além de um misto quente ou um hamburger."
O patrulheiro Eduardo observa a azáfama de centenas de cordeiros, a maioria jogada ao chão, e diz que a cena é deprimente. "No início, é organizado. Mas depois é bagaceira". "Um dia eles não vão achar quem faça isso", retorna Fabiano à conversa. "As pessoas vão tomar consciência e não aceitarão mais". Eles trouxeram a proteção auricular de casa, para evitar perdas auditivas. Moram no bairro da Fazenda Grande, no subúrbio de Salvador, por onde andaram recrutas atrás de braços negros. Por dia, os cordeiros do bloco dos dois amigos ganham R$ 35, com o transporte incluído, segundo narram os mambembes. "Tem que ter aumento. Estou há sete anos nesta vida. Tem briga, facada...", lembra Jéssica, 28 anos, em breve uma das centenas de protetoras dos fãs de Durval Lélys. Ela se garante. Ela "se planta". Angelical.

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