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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ioschpe: aumentar salário de professor não melhora o ensino

Ioschpe: aumentar salário de professor não melhora o ensino
27 de abril de 2012  08h46  atualizado às 08h47

Enquanto professores saem às ruas de diversas partes do País para cobrar o cumprimento da lei que definiu o piso nacional do magistério, o especialista em educação Gustavo Ioschpe defende que reajustar os salários não significa que a educação no País vá melhorar. "Há centenas de estudos empíricos, publicados em revistas acadêmicas, estimando a relação entre salário de professores e aprendizado de alunos. A esmagadora maioria desses estudos não demonstra existir essa relação. Aumentar salário de professores não é um caminho para a melhoria da qualidade da educação", afirma.
O economista classifica a discussão em torno do piso salarial como algo sem fundamento. "É surpreendente e decepcionante que o País perca tanto tempo com uma discussão que toda a experiência internacional e brasileira já demonstrou ser infrutífera", completa.
Mas o panorama do ensino brasileiro tem despertado opiniões adversas. "Entre os componentes da qualidade de ensino no mundo todo, é indispensável a ideia de garantir uma boa remuneração para os professores, capaz de dar segurança para trabalhar", diz o professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Barbosa de Camargo, que acredita na lei do piso do magistério como uma garantia para os profissionais.
Acompanhadas de mobilizações da categoria, as discussões em torno do salário dos professores têm lançado luz à relação entre qualidade do ensino e condições de trabalho. De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), até 2 de abril, 17 Estados não pagavam o piso anunciado pelo Ministério da Educção (CNTE), de R$ 1.451,00. Entre as maiores reivindicações dos professores, o piso foi reajustado em 22,2%, de acordo com lei de 2008 e corresponde a pouco mais de dois salários mínimos, mas não deve entrar em vigor em todos os Estados. O valor é valido para profissionais com carga horária de 40 horas semanais.
Na opinião de Camargo, que é especialista em gestão de sistemas e escolas, análise de políticas educacionais e financiamento público da educação, o aumento dos salários é um dos primeiros passos para melhorar a qualidade do ensino brasileiro. Entre as medidas que buscam garantir vencimentos mais altos, está o Plano Nacional da Educação, atualmente em discussão no Congresso Nacional, que visa a garantir salários equivalentes a outros trabalhadores com mesmo nível de formação. "O próprio governo reconhece essa defasagem. Professores da rede pública ganham cerca de 60% do que ganham outros profissionais com mesmo nível de informação", afirma.
Educação no Brasil melhorou
Para Ioschpe, a educação no Brasil tem melhorado. No entanto, ele faz ressalvas. "No primeiro Pisa, o mais respeitado teste internacional de qualidade da educação, o Brasil ficou em último lugar. Saindo de uma base tão baixa, era de se esperar uma melhora. Mas a comparação do Brasil consigo mesmo é pouco relevante. O que importa é como o Brasil está em relação ao resto do mundo, porque o fundamental para a competitividade do País não é o esforço que ele está fazendo, e sim o resultado que está alcançando", diz. O especialista garante que debates a respeito de salário dos professores e porcentagem de investimento do PIB são infrutíferos. "Dado o erro estratégico da maioria da discussão sobre educação no Brasil, não há nada que sugira que teremos luz no fim do túnel. Devemos continuar patinando", enfatiza.
No lado oposto, o professor da USP aponta o aumento no investimento em educação como a saída para a melhora na qualidade de ensino. Para Camargo, é equivocada a visão de que o único problema são os recursos mal administrados. Na opinião do professor, as lacunas existem em todos os níveis - desde a creche até a pós-graduação. A solução estaria em dobrar os investimentos de 5% para 10% do PIB, garantindo menor número de alunos por classe, processos de formação permanente aos professores e valorização social da profissão por meio de condições de trabalhos mais adequadas.
"Ainda que de maneira muito incipiente, a situação vem melhorando. A implantação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e da lei do piso dão uma espécie de garantia para que Estados e municípios tenham melhores condições para o pagamento de professores. Além de começar a implantar o piso, algumas redes públicas também já pensam em melhorar a infraestrutura das escolas com reformas e compra de equipamentos" explica. Para o professor, as mudanças são reflexo de programas criados ao longo de diversos governos e que, mesmo que ainda timidamente, começam a surtir efeito sobre a educação básica no Brasil.
Professores vêm buscando se qualificar, dizem especialistas
A formação dos professores brasileiros também estaria se expandindo. É o que acredita Camargo, professor da USP, que indica os cursos de especialização como uma das alternativas para a melhora na qualidade de ensino. "Tem crescido o número dos professores das redes públicas que se titularam. Em várias redes, esse é um pré-requisito para evolução na carreira. A geração mais nova também quer se qualificar cada vez mais", diz.
O número de matriculados em faculdades para docência, de acordo com Ioschpe, também tem crescido. "Segundo a sinopse estatística do ensino superior brasileiro 2010, do Inep, há 923 mil alunos em cursos de graduação na área de educação nas universidades brasileiras, quase um quinto do total de alunos no nosso ensino superior. É o curso com mais matriculados no País", afirma. "Isso é quase oito vezes o total de matriculados em todas as disciplinas de humanidades, mais do que direito, mais do que administração, cinco vezes mais do que todas as engenharias, mais do que todas as áreas de saúde juntas", calcula.
A situação faria coro ao contentamento dos docentes com a profissão. "Essa imagem que se criou do professor brasileiro como o cara que trabalha no setor por falta de opção, que ganha salário de fome, que precisa trabalhar em muitas escolas e que é vítima da violência representa a minoria da minoria. As pesquisas mostram que os professores estão satisfeitos com suas carreiras, optaram por ela, não gostariam de trocar de profissão, trabalham em uma escola cumprindo carga horária inferior à maioria das profissões e com férias mais longas, e ganha aquilo que é de se esperar para o seu nível de formação e carga horária. Enquanto não superarmos esses estereótipos e mistificações, a discussão nacional não vai pra frente. Estamos discutindo falsos problemas", enfatiza.
Na contramão de Ioschpe, Camargo acredita que o interesse pelos cursos de licenciatura e pedagogia vem diminuindo. "Acho que o grande fator é a questão das carreiras e dos salários depois que saem da faculdade. Isso torna a carreira e a profissão pouco atrativas e faz com que os jovens procurem outras profissões, com atrativos mais interessantes. Conforme essas políticas de valorização docente se consolidem no País por meio do Fundeb, do piso e de outras a serem implementadas, quem sabe essa tendência seja revertida", diz.

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