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quarta-feira, 27 de junho de 2012


Até mesmo a Grécia antiga sofre com a austeridade

Cortes de orçamento fecham museus e aumentam roubos a relíquias gregas, mas prejuízo com demissões de arqueólogos e historiadores será maior no longo prazo

The New York Times -  Randy Kennedy, de Kythira, Grécia Galerias do Museu Arqueológico Nacional em Atenas: fechadas ao público pelo corte de orçamento
Uma chocante propaganda veiculada recentemente na televisão grega
com o objetivo de sensibilizar o público mostra uma menininha passeando com sua mãe pelo Museu Nacional Arqueológico, em Atenas, uma das joias da cultura do país. A menina sai de perto de sua mãe e fica olhando para uma estátua de mármore de 2.500 anos de idade, quando uma mão aparece e cobre sua boca, tirando-a de lá.
Alguns segundos mais tarde, ela reaparece sem ferimentos, olhando com tristeza para um pedestal vazio: os sequestradores não queriam a menina – eles queriam a estátua.
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A propaganda, produzida pela Associação de Arqueólogos da Grécia, serve como um lembrete do roubo à mão armada de dezenas de artefatos de um museu em Olympia, no mês de fevereiro, em meio ao contínuo corte de seguranças nos museus de todo o país. Mas a principal mensagem da campanha – "Monumentos não têm voz. Eles precisam da sua" – foi um ataque muito mais amplo aos profundos cortes orçamentários na área de cultura, realizados como parte das medidas de austeridade impostas à Grécia pelos órgãos econômicos europeus.
Eirini Vourloumis/The New York Times
Museu Arqueológico Nacional, que fecha às tardes devido aos cortes de pessoal
Os efeitos dos cortes na cultura já podem ser sentidos pelo público em todo o país, à medida que galerias e museus inteiros sofrem com fechamentos esporádicos.
Entretanto, arqueólogos e curadores gregos e de outros países alertam que as verdadeiras consequências dos cortes não serão aparentes nos próximos anos e serão muito piores para as antiguidades e para a pesquisa histórica.
Ao longo dos últimos seis meses, dezenas dos arqueólogos mais experientes que trabalhavam para o Estado – aqueles com mais anos de serviços prestados e com os salários mais altos, 1550 euros por mês – foram forçados a se aposentar, como parte da redução de 10% no número de funcionários do Ministério da Cultura e do Turismo. Além disso, em função de aposentadorias normais e demissões voluntárias, ao longo dos últimos dois anos, a equipe de arqueólogos passou de 1100 para 900 pessoas, de acordo com a associação, que é também o sindicato que representa os arqueólogos.
Em um momento no qual os impostos estão sendo aumentados, as aposentadorias cortadas e a taxa de desemprego passa de 21%, esse êxodo passou despercebido em meio à triste paisagem econômica do país. Mas os especialistas afirmam que os cortes estão começando a causar exatamente aquilo que a propaganda previu: o desaparecimento de antiguidades. Os principais culpados não são os ladrões de museus, nem os saqueadores de sítios arqueológicos, mas duas forças mais ameaçadoras e que agora são ainda menos controláveis: o meio ambiente e os tratores das construtoras.
Eirini Vourloumis/The New York Times
Aris Tsaravopoulos, arqueólogo forçado a se aposentar em Novembro, separa pedaços de cerâmica minoica do segundo milênio antes de Cristo que não receberão atenção
No leito seco de um rio da ilha de Kythira, durante uma manhã no fim de abril, Aris Tsaravopoulos, um arqueólogo que perdeu seu cargo público em novembro, apontou um sítio onde uma parte da margem desmoronou durante uma tempestade, alguns meses antes.
Ao longo de toda a margem próxima ao Mediterrâneo, havia centenas de fragmentos de cerâmica minoica, provavelmente do segundo milênio antes de Cristo, alguns dos quais com padrões florais pintados em vermelho vivo e ainda aparentes.
Tsaravopoulos, que coordenou os projetos arqueológicos e supervisionou escavações de equipes estrangeiras na ilha durante mais de 15 anos, afirmou que acreditava que o sítio poderia ser parte de uma tumba ou de um antigo despejo.
Eirini Vourloumis/The New York Times
Tsaravopoulos, arqueólogo forçado a se aposentar, na entrada da caverna sagrada Chousti, na ilha de Kythira: o que ele faz, agora, é avisar ex-colegas sobre preciosidades
Há alguns anos Tsaravopoulos teria organizado uma escavação de emergência em um local como aquele. Agora, ele não pode fazer nada além de alertar seus colegas do serviço arqueológico nacional, que já estão sobrecarregados, e ele tem poucas esperanças de que qualquer trabalho de resgate seja feito a tempo: desde sua aposentadoria forçada, no último outono, Kythira, uma ilha um pouco maior do que Malta e com uma população pequena, a cerca de seis horas de barco de Atenas, não havia sido visitada por qualquer arqueólogo do governo.
Naturalmente, desde muito antes da crise econômica, sítios eram perdidos ou mantidos de forma precária, em parte como consequência da enormidade que representa a preservação do passado do país. Em Kythira, ainda podem existir dezenas de sítios inexplorados; o lugar comum grego, de que não se pode virar uma esquina sem tropeçar em uma antiguidade, às vezes parece ser literal. (O país tem 19mil sítios arqueológicos e monumentos oficiais e 210 museus de antiguidades.)
"Eu acredito que o ministério poderia dobrar ou triplicar o número de arqueólogos que contrata – e também o número de seguranças – e ainda assim não haveria gente suficiente", afirmou Pavlos Geroulanos, que era ministro da cultura e do turismo até o dia 6 de maio, quando o governo interino foi nomeado. Geroulanos supervisionou as demissões e as aposentadorias forçadas quando seu orçamento operacional anual foi diminuído em 30% ao longo dos três últimos anos. "Há tantas coisas lá fora, tanto trabalho que precisa ser feito", afirmou.
Eirini Vourloumis/The New York Times
A arqueóloga Gely Fragou trabalhou por vários anos sob contratos para o governo grego. O último terminou em 2010 e não foi renovado
Mas agora, a burocracia arqueológica atrasada e ineficiente da Grécia, que durante anos esteve entre as maiores da Europa (onde, em muitos países, o Estado desempenha uma função central nessa área), está enfrentando uma queda tão brusca em seus recursos que começa a delegar sua responsabilidade pelo patrimônio cultural, que esteve sob seu controle por mais de 150 anos.
Para muitos arqueólogos gregos e pesquisadores de outros países que escavam com a permissão do governo, uma repercussão ainda mais preocupante da austeridade orçamentária é o fato de que as licenças de pesquisa dos arqueólogos do governo estão sendo canceladas, e o dinheiro destinado para suas escavações já não está sendo fornecido, a menos que eles encontrem fontes para compartilhar os custos.
Um dos efeitos é o de que os arqueólogos gregos estão sendo forçados a se concentrar quase exclusivamente no lado mais burocrático de sua profissão: inspecionar áreas de construção para averiguar a presença de antiguidades enterradas. Essa é uma tarefa fundamental, mas que agora, mesmo com a desaceleração do desenvolvimento durante a crise, ocupa a maior parte de seu tempo. Isso significa que a pesquisa universitária está sendo deixada de lado indefinidamente e, em alguns casos, para sempre.
Eirini Vourloumis/The New York Times
Tsaravopoulous, numa igreja bizantina na ilha de Kythira: máquinas pesadas destroem peças, em sítios arqueológicos
Um arqueólogo americano com décadas de experiência na Grécia, que pediu que seu nome fosse mantido em segredo, com medo de sofrer retaliações das autoridades do governo nesta época de incertezas, afirmou: "Ninguém na Grécia escava tanto quanto o serviço arqueológico do governo. E se eles não puderem publicar seus achados, talvez deixem de procurá-los; talvez voltem, simplesmente, a enterrá-los".
Geroulanos, que foi ministro da cultura por dois anos e meio, um período extremamente longo em meio às trocas de alianças políticas na Grécia, afirmou que os profundos cortes de pessoal eram inevitáveis se ele quisesse provar que o ministério era capaz de viver com sua própria renda, assim como o resto da Grécia está sendo obrigado a fazer.
"Nós estamos em um momento", afirmou durante uma entrevista em seu escritório em Atenas, "no qual eu posso dizer com segurança que cada centavo dado ao ministério será bem gasto".
Mesmo que o orçamento do ministério tenha caído ano apos ano, durante seu mandato, ele afirmou que foi capaz de completar projetos importantes, como a modernização das instalações em mais de 100 sítios arqueológicos de acesso público do país. Ao longo dos últimos três anos a Grécia também foi capaz de competir com sucesso por dezenas de milhões de euros que a União Europeia disponibilizou para projetos arqueológicos. Mas os críticos afirmam que esses poucos pontos positivos são insignificantes em vista dos danos irreversíveis que já estão acontecendo.
Na ilha de Kythira, Tsaravopoulos visitou recentemente um terreno com algumas árvores, após uma informação de um amigo, segundo o qual uma escavadeira estaria trabalhando no local sem autorização, nem uma inspeção das autoridades. Ele chegou ao local e encontrou uma estrada de terra improvisada, esculpida em meio à montanha, salpicada com dezenas de pedaços quebrados de cerâmica do período helênico e do início do período romano.
Quando estava indo embora, o proprietário chegou com sua família e teve uma conversa cortês no meio da estrada com Tsaravopoulos, que o conhecia, antes de irem embora.
"Ele me disse que não percebeu que havia danificado quaisquer artefatos e que sentia muito", afirmou Tsaravopoulos. "E então, ele me disse muito amigavelmente: 'Aris, eu soube que você teve de se aposentar. Eu sinto muito por isso'. Ele sabe que eu não tenho mais poder para evitar que as pessoas façam buracos onde elas bem entenderem."

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