Rio -  Nos bancos das universidades do País senta um contingente de 38% de estudantes que não conseguem interpretar textos, comparar informações e fazer cálculos que exigem mais de uma operação matemática.
Essa legião aumentou 58% em uma década. Mais do que isso: cerca de 4% dos futuros diplomados em curso superior são analfabetos funcionais, que não têm mínimas condições de leitura e escrita. A constatação está em pesquisa do Instituto Paulo Montenegro (IPM), feita entre dezembro e abril deste ano, com duas mil pessoas de 15 a 64 anos.
Foto: Arte: O Dia
Arte: O Dia
“É uma situação grave, porque se espera que um estudante de nível superior seja plenamente alfabetizado. Isso mostra que a qualidade do ensino oferecido no
Brasil está muito abaixo do que é esperado”, analisou a consultora do IPM, Fernanda Cury.
Os entrevistados responderam a 38 perguntas relacionadas ao dia a dia, como dizer o que está num cartaz, falar o itinerário de um ônibus e o cálculo de desconto de um produto.
O percentual não surpreendeu quem trabalha com recrutamento de universitários. No Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE-RJ), pelo menos 70% das redações feitas por quem está na faculdade tem pelo menos um erro de português em cada frase.
“Esses 38% para mim eram previstos. Se você abrir um mapa e pedir para esse universitário localizar a China, a maioria não vai saber nem por onde começar, não tem noção em qual continente fica o país”, aponta o professor Paulo Pimenta, ex-superintendente do CIEE-RJ, que tem 138 mil alunos de faculdades no banco decadastro.
Cansados de ver universitários escrevendo ‘pobrema’, ‘esteje’ e ‘táboa’ , a entidade resolveu colocar um cartaz na portaria proibindo o uso dessas palavras no local.
“Quando chega um texto com este tipo de agressão, oferecemos um curso de três horas de Língua Portuguesa. Mas as dificuldades são maiores. Já teve estudante de Direito que não sabia o que era uma petição”, revela Paulo Pimenta.
Psicóloga testa até 30 jovens para uma vaga de estágio
Um defeito? “Não gostar de queijo”. Uma figura pública com a qual você se identifica? “Não conheço celebridades”. Um curso? “Fotoshope”.
As respostas parecem absurdas, mas são de universitários e foram dadas ou escritas à psicóloga da Fundação Mudes Ana Paula Furlan, em processos de seleção para vagas de estágio.
Para ela, falta muito comprometimento dos estudantes e interesse em investir na carreira. Atualmente, a fundação tem 400 oportunidades para universitários, mas faltam alunos qualificados para preenchê-las.
“Evito encaminhar redações para os clientes, por causa dos erros. Já refiz currículo de candidato também por questões de ortografia. Nas entrevistas, é um constrangimento quando eu peço para eles falarem sobre o último livro que leram. Às vezes, preciso chamar quase 30 universitários para conseguir ter um com o perfil para a vaga”, disse Ana Paula.