****************** Um blog dedicado ao meus alunos da Rede Pública e Privada de Ensino. ******************

10 questões básicas no Marxismo

1ª) Explique o processo que Marx denominou revolução agrícola, destacando a sua importância para a revolução inglesa.
         A ‘liberação’ dos camponeses do campo não representa apenas a expropriação desses homens de suas terras, mas também da forma que tinham de subsistência, produzindo seu próprio alimento, bem como da utilização de suas próprias ferramentas.
         Os alimentos, assim como a terra, a partir de agora viram produtos de comercialização e especulação. Os ‘landlords’ alugavam as terras para os arrendatários que passaram a empregar cada vez menos pessoas e introduzir cada vez mais tecnologias no cultivo da terra. Esses arrendatários obtinham lucro certo com o recente mercado interno recém criado nas cidades pelos camponeses expropriados. Os ex-camponeses, para comprar o alimento que outrora produziam, devem obrigatoriamente entrar no mercado de trabalho, contando apenas com seus parcos salários para tal.
         Portanto, para a revolução industrial inglesa, a expropriação dos trabalhadores de sua terras foi de suma importância, pois liberou mão de obra suficiente para que as fábricas tivessem muita mão-de-obra a valores ínfimos de salários a serem pagos em troca. Além disso, com o inchaço das cidades e das multidões de ex-camponeses dependentes dos mercados, criou forçosamente um mercado interno forte, capaz de manter e nova economia inglesa e posteriormente expandi-la.

2ª) O que é acumulação primitiva de capital?
         A palavra ‘primitiva’ aparece porque esse processo está localizado na era pré-capitalista. As expropriações das terras camponesas, deixando os trabalhadores apenas com a mão de obra para venda nas cidades, seguiu-se a criação do mercado interno inglês, imprescindível ao avanço do capitalismo na ilha. A polaridade necessária para produção capitalista é formada pelos possuidores de dinheiro, possuidores do meio de produção e subsistência e os trabalhadores, que expropriados de suas terras, possuem apenas a sua força de trabalho. Marx dizia que a dita separação entre os camponeses e a terra é o manancial de onde provém os trabalhadores assalariados, tanto para o capital agrícola como para a indústria.
         Para muitos contemporâneos de Marx, o capital era criado pela abstinência como fonte original da acumulação. Marx não concorda com tal afirmativa, diz que a abstinência só pode levar à acumulação do capital se já existirem relações capitalistas de produção.

3ª) O que é moinho satânico?
         O moinho satânico começa com o processo de cercamento dos campos, que termina com o cultivo comunal existente na Idade Média e leva os trabalhadores às multidões para as cidades. Lá, os ex-camponeses despreocupados em trabalhar mais do que o suficiente para a subsistência, tomaram parte dentro de um incipiente mercado que preocupava-se apenas como a sobrevivência daquele que passasse todo dia dentro das fábricas. Essa prática, a de pagamento de salário de subsistência, que conferia ao trabalhador apenas o suficiente para comprar o alimento do dia ou da semana, conotava a exploração exercida sobre essa mão-de-obra. Leis que inibissem a ‘vagabundagem’ eram promulgadas no sentido de forçar aos trabalhadores relutantes a entrar no mercado de trabalho. Aquele que não trabalhasse poderia ser morto ou até virar escravo.
         O moinho satânico é sem dúvida o movimento responsável pela destruição do antigo sistema social em que diferenciavam-se apenas a nobreza (nação) e o povo. Os graus de nobreza passaram a ser secundários perto da capacidade econômica dos arrendatários, dos trabalhadores com melhor situação econômica e os comerciantes em ascensão.
         Em síntese, a expropriação de terras conduziu forçosamente o homem, sem ferramentas, sem meio produtivo e apenas com sua força de trabalho a vender, para a cidade. Na cidade, esse homem foi obrigado a trabalhar para ganhar apenas o suficiente para se alimentar sob a ordenação de um mercado auto-regulado. O trabalho consumia todo o seu dia, a força física e portanto, a vida do homem.

4ª) Compare as perspectivas de Marx e Polanyi sobre as transformações que desencadearam a revolução inglesa?
         Marx analisa as transformações a partir de seus aspectos produtivos, iniciando pelo papel do processo de cercamento dos campos na revolução inglesa. Todos os males sofridos por essa população expulsa de suas  terras onde produziam seu próprio alimento. A terra como produto de especulação e comércio, o mercado auto-regulado (tendo o capitalismo como mercado que engloba a sociedade), ao método de salário de subsistência e as transformações acontecidas no sistema de trabalho, o aparecimento do jornaleiro em detrimento do trabalho por tarefa.
         Polanyi em sua obra, apesar do caráter social, enfatiza as mudanças acontecidas no Estado e através do Estado. Ele começa com uma analise dos sistemas produtivos anteriores à revolução industrial, onde os interesses econômicos eram mínimos e sobre saia as relações familiares. As conjunturas político econômicas da Inglaterra moderna, como por exemplo, a sua disponibilidade de capital para investimento.
         Polanyi ainda destaca também a mudança da sociedade como inerente ao processo de consolidação da sociedade moderna capitalista. Ele mostra como o Estado, através dos capitalistas, criou condições para que a sociedade fosse submetida ao mercado.

5ª) O que é a dupla revolução e qual é a sua importância na formação do mundo contemporâneo ?
         A dupla revolução são os dois acontecimentos do era moderna que moldaram as formas econômicas e políticas do mundo contemporâneo. A revolução inglesa, precede a francesa e caracteriza-se pelas transformações econômicas impostas ao mundo. Os ‘inclousers’ ou cercamento dos campos, puseram as terras nas mão de arrendatários, futuros capitalistas. Estes, transformaram as terras, em produtos de comércio, aumentaram a produção agrícola e vendiam-na ao mercado de consumo criado nas cidades graças aos camponeses expulsos do campo.
         A revolução francesa inseriu definitivamente no cenário mundial a figura do burguês como classe dominante. O absolutismo unido as práticas mercantilistas protecionistas impediam o livre comércio de produtos entre os países, o que diminuía as oportunidades de negócio dos capitalistas. Ambas as revoluções foram imprescindíveis para a consolidação do capitalismo no mundo, a inglesa com a exploração trabalho e acumulação do capital e a francesa com liberalismo e o fim do absolutismo monopolista.

6ª) Resuma a análise de Hobsbawm sobre a revolução francesa.
         Hobsbawm começa sua análise, abordando a influência política da revolução francesa em todo o mundo, a adoção de uma nova organização técnica e de um sistema de medidas em comum.
         Resume suas especificidades, ressaltando a grande massa populacional da França; as suas origens, a crise econômica, a carestia e o contraste entre as novas forças sociais e a tradição feudal; bem como a busca por soluções, que inicialmente foi a convocação dos Estados gerais, mas que resolvida apenas com a supressão do voto por corpo em prol do voto por pessoas nas decisões entre os estamentos.
         Além de dissertar sobre os acontecimentos, datando-os, o autor analisa a revolução francesa colocando sempre as massas populares como centro da pesquisa. Os ‘sanculottes’, pequenos comerciantes e artesãos entre outros, são os principais organizadores das passeatas e manifestações. Preocupa-se portanto, as pressões exercidas pela organização popular, e as movimentações políticas, que ajudaram a acabar com os resquícios dos direitos de origem feudal, dos quais usufruíam a nobreza.

7ª) Discuta o tema da formação da classe operária inglesa.
         Através de uma análise de ‘O capital’, descobrimos que o processo de cercamento dos campos ‘liberou’ a mão-de-obra necessária para fomentar o crescimento da produção das fábricas. Criou também com isso, um mercado interno e tornou a terra um produto de comercialização. Os ‘inclosers’ foram imprescindíveis para o surgimento da polaridade necessária para o surgimento do sistema capitalista, de um lado trabalhadores com apenas a mão de obra à vender, de outro, os capitalistas, detentores do capital e meios de produção. Para Marx e Engels, a classe operária engajada em sua luta contra a burguesia, era a força política que realizaria a destruição do capitalismo em uma transição para o socialismo.
         Aos poucos, aqueles que reunidos nas cidades industriais de rápidos crescimento populacional, tiveram a sua mão de obra substituída por máquinas. Os movimentos reivindicatórios dos trabalhadores geraram por exemplo o cartismo e o ludismo, e os burgueses, cientes de que era mais fácil tratar com maquinas do que com homens, aprenderam a lidar rapidamente com isso. A chamada ‘preguiça’ dos operários em trabalhar foi prontamente respondida pela técnica de ‘salário de subsistência’. A máquina é introduzida como disciplinadora no meio de trabalho, pois se uma máquina começasse a funcionar todas as segundas-feiras (feriado para grande segmento dos trabalhadores) às seis horas da manhã, os trabalhadores pegariam o hábito de trabalhar regular e continuamente. “A máquina libertou o capital da opressão do trabalho” Michelle Perrot. Os excluídos da história. p.23. 
         A religiosidade foi muito bem utilizada nesse aspecto, em alguns exemplos a preguiça era associada a prisão da mente e o sono visto como perverso. A concepção que a passagem pela terra seria apenas para expiação dos pecados, nas religiões protestantes passou a ser encarada como uma boa chance de glorificar a Deus através do trabalho. Trabalhar e não gastar dinheiro em futilidades, faz acumular o capital e gozar a vida ainda na Terra.
         A educação, também serviu como elemento disciplinador, pois incutia nas crianças o bom valor de acordar cedo e realizar as tarefas com diligência e presteza. Era preciso a criação de uma nova sociedade familiarizada com as máquinas. Por mais que fossem exortados os problemas sociais criados pela mecanização, os donos das máquinas citavam toda a potencialidade de sua utilização social e moral, ou seja, diminuição dos custos de produção e atendimento a todos. Desenvolvem-se cursos e escolas para formação de trabalhadores em variados setores técnicos da sociedade. Com tudo isso, a escola valorizava a pontualidade e a regularidade, formando operários aos seus moldes e reprovando exemplos de atrasos e faltas com multas aos alunos ou professores que incorressem nesses ‘erros’.
         “...pela divisão do trabalho, supervisão do trabalho, multas, sinos e relógios, incentivos em dinheiro, pregações e ensino, supressão das feiras e dos esportes – formaram-se novos hábitos de trabalho e impôs-se uma nova disciplina de tempo.” THOMPSON, E.P. Costumes em comum. p.297.
         Não obstante, os ex-alunos também aprenderam a lidar com os novos hábitos e admitiram em suas vidas a importância do tempo organizando-se posteriormente em comitês e depois realizando greves pela cobrança de adicional pelas horas trabalhadas além do expediente.
         Michelle Perrot destaca três ciclos de dominação capitalista através da tecnologia: O Panóptico, o um ciclo de disciplinação extensiva e um ciclo baseado na objetivação e interiorização da disciplina num processo de trabalho remodelado pela máquina. A inovação definitiva para a mudança da concepção de tempo para os homens, é o relógio, que transforma o tempo em dinheiro.

8ª) Discuta o tema trabalho e relações de gênero.
         As manifestações e querelas dos trabalhadores levam aos burgueses a introduzir cada vez mais máquinas em suas indústrias. São movimentos por aumentos de salário e melhores condições de trabalho que os burgueses respondem com cada vez mais introdução de máquinas na produção industrial, ou com a propaganda de que as novas máquinas podem até ser utilizadas por crianças e mulheres. Essa propaganda é uma forma  de resistência as reivindicações dos operários.
         O papel das mulheres nessa sociedade era de reguladoras do padrão de vida da família. Às vezes também se inseriam no mercado para o trabalho, quando viúvas, mães solteiras, no caso de guerras ou quando seus maridos estavam desempregados. O ideal de mulheres da época era mesmo o de casamento e de ocupação com os serviços domésticos. Os preços dos alimentos, principalmente do pão, era regulador da intensidade dos motins organizados e levados a cabo pelas mulheres. Elas invadiam os comércios de trigo e pão, e, se esses comerciantes não tabelassem os preços ao que elas considerassem justo, tomavam a mercadoria e vendiam elas próprias. Por vezes esses motins misturavam-se aos movimentos ludistas. As mulheres incitavam e participavam da quebra das máquinas, das greves e de qualquer movimento contra as máquinas que fossem identificadas como desempregadoras e alteradoras do cotidiano de suas famílias.
         Os homens, primeiros a serem alfabetizados, bebiam o vinho conversavam sobre política e liam seus jornais nos ‘pubs’. Esses jornais continham em suas matérias idéias burguesas de manipulação das massas em que aos poucos os homens foram se moldando. Já as mulheres, analfabetas, mantinham seus redutos de conversa não só nos ‘pubs’ (onde aos poucos foram sendo expulsas), mas também nos lavadouros naturais (também aos poucos desarticulados pelo Poder), onde conversavam sobre os mesmos assuntos, isentas das influências burguesas. Continuavam a organizar motins e movimentações que passavam alheias ao poder dos burgueses. Eram as guardiões da Tradição, resistindo com a chamada astúcia feminina às transformações da modernidade.
         É no século XIX, mesmo ano em que em que a divisão sexual do trabalho atinge seu ponto mais alto e que as mulheres passam ser o centro das discussões e tentativa de definições, que elas passam a administrar o salário dos maridos em prol da manutenção da casa. Em comparação com a mulher burguesa, que apenas recebe uma quantia suficiente para as despesas, ficando todo o excedente para o controle do marido, a mulher do operário mostra-se a frente do processo de compra e divisão dos alimentos da casa. Não só isso, mostra-se no século XIX como uma mulher subnutrida, que reserva ao marido, trabalhador braçal, o melhor pedaço de carne, aos filhos o leite e o açúcar e a si própria as sobras.

9ª) Resuma as idéias de Hobsbawm sobre nacionalismo.
         São resumidas em cinco pontos:
         O autor utiliza-se do termo nacionalismo pela definição de Gellner, que diz que fundamentalmente um princípio que sustenta que a unidade política e nacional deve ser congruente.
         O segundo ponto, diz que ele não considera a ‘nação’ como uma entidade social originária ou imutável. É considerada social apenas quando relacionada a uma certa forma de Estado territorial moderno, o ‘Estado-nação’. Terceiro, trata da questão nacional, situada na intercessão da política, da tecnologia e da transformação social. A maioria dos estudos, hoje, concordaria que línguas padronizadas nacionais, faladas ou escritas não podem emergir nessa forma antes da imprensa e da alfabetização em massa e, portanto, da escolarização em massa. Quarto, as nações são fenômenos duais, construídos essencialmente pelo alto, mas que, no entanto, não podem ser compreendidas sem ser analisadas de baixo, ou seja, em termos das suposições, esperanças, necessidades, aspirações e interesses das pessoas comuns, as quais não são necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas. Essa visão de baixo, isto é, a nação vista não por governos, porta-vozes ou ativistas de movimentos nacionalistas (ou não nacionalistas), mas sim pelas pessoas comuns que são o objeto de sua ação e propaganda, é extremamente difícil de ser descoberta. E quinto, Hobsbawm utiliza-se de Hroch para incorporar em sua análise dois pontos, a “consciência nacional” se desenvolve desigualmente entre os grupos e regiões sociais de um país; essa diversidade regional e suas razões forma notavelmente esquecidas no passado. E o segundo, usando a divisão feita por Hroch, divide a história dos movimentos nacionais em três fases. A fase A, se desenvolveu na Europa do século XIX, foi puramente cultural, literária e folclórica, sem implicações políticas particulares e mesmo nacionais. A fase B, onde encontramos um conjunto de pioneiros e militantes da “idéia nacional” e o começo das campanhas políticas em prol dessa idéia. E a fase três, quando os programas nacionalistas adquirem sustentação de massa.

10ª) Discuta socialismo, liberalismo e revoluções.
         Quanto ao socialismo, dias correntes a integram, a corrente utópica e a científica. A primeira acredita no esclarecimento social como transformador da consciência das classes, não precisando portanto, de revoluções violentas para sua realização. A Segunda, o socialismo científico, proposto por Marx e Engels, aponta o proletário como agente destruidor do capitalismo e portanto, responsável pelas transformações sociais.
         O socialismo nasceu como uma alternativa política ao liberalismo. Ganha força e regulamentação após a publicação do Manifesto Comunista, de 1948. No entanto, suas idéias remontam a década de 1830. O socialismo realiza-se na aplicação de propriedades coletivas para maior produção e a igualdade social entre os indivíduos, ao contrário do liberalismo que prega apenas a igualdade jurídica.
         Já o liberalismo, é característico como doutrina dentro da classe burguesa. É baseado no movimento intelectual chamado de ilustração. Prega a não intervenção na economia pelo Estado e o individualismo. A revolução francesa é o palco da implantação dos interesses burgueses iluministas, que conseguiram a aplicação de leis que asseguravam o direito a propriedade, direito a vida e liberdade.
          Essas duas doutrinas povoam as mentes revolucionárias do século XVIII e XIX. As revoluções, antes da publicação do manifesto comunista, tinham como finalidade acabar com as instituições do antigo regime. No caso da revolução americana, também focalizava-se a nacionalidade e independência. Apartir de 1848, muitas revoluções mudaram suas perspectivas, focavam atenuar o descontentamento das massas levando ao povo melhores condições de existência



Bibliografia:

HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções. Europa 1789-1848. São Paulo, Editora Paz e terra. Traduzido por Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel, 1977.

MARX, Karl. “A assim chamada acumulação primitiva.” In: Os economistas. São Paulo, Abril cultura, 1978.

PERROT, Michelle. Os excluídos da história. Operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.

POLANYI, Karl. La Gran Transformación. Los Origines Políticos y Econômicos de Nuestro Tiempo. México, Fondo de Cultura Econômica, 1994.

THOMPSON, E.P. Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

WEBER, Max. A reforma protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo, Editora Martin Claret. Traduzido por Pietro Nassetti, 2002.

A DICIONAY OF MARXIST THOUGT, Edited by Tom Bottomore, Jorge Zahar editor, 1983.

DICIONÁRIO DO PENSAMENTO SOCIAL DO SÉCULO XX, Editado por William Outhwaite, Jorge Zahar editor, 1983.


Nenhum comentário:

Postar um comentário