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A PRIVADA LEOPARDIANA - Crônica

A PRIVADA LEOPARDIANA A construção de minha casa remete os estudiosos ao antiquado passado. Tijolos deitados, maciços, cimento e terra de verdade, além do apreço por um alicerce que sustentasse o centro do meu Poder, denotavam a razão dos moradores de permanecer na casa. As telhas de tipo colonial e as paredes mal pintadas de um branco originalmente desbotado ressaltavam ainda a maior preocupação da época: manter a construção seca e de pé. Os quartos de dormir –chamávamos de cômodos– são espaçosos, capazes de acomodar enormes e pesados armários de madeira maciça. Arcas, criados-mudos e a cama, ainda são vivamente iluminados por meia dúzia de altivas janelas frontais. Outro quarto, que dizíamos ser de banho, era realmente de banho. A privada ou ‘quartinho das necessidades’ ficava um pouco distante de nós, fora da casa, pois não havia necessidade de lidarmos diretamente com aquilo. Íamos até lá e desfazíamos o imbróglio, simplesmente. Era pouca merda, bobagem, e caía direto no limbo, ninguém se preocupava, ninguém discutia sobre o assunto. Daí, com o passar dos anos, as coisas foram mudando, e mesmo com a diminuição da quantidade de traseiros a sentar na casinha, aconteceu o inteligível (que não me cabe explicar aqui); a merda começou a voltar. Parece que a situação no fundo do fosso estava cada vez pior, uma sobre a outra, as porcarias que deliberadamente externávamos empilhavam-se e amontoavam-se ao ponto do solo não mais absorve-las. Da necessidade de melhoria dos métodos de vigília, coleta e armazenagem da merda, surgiu até um tipo de subutilização do coco. Começamos a exporta-lo e despacha-lo a qualquer um que quisesse tirar energia daquela merda. Não obstante, pressões alheias forçaram-nos a parar com o comércio, e tivemos que continuar com o coco, que seguia aumentando. Sempre havia mais merda... se não fosse aquilo, só merda, acharia até que era uma questão de resistência. Mas não só de avareza e sedição vive nosso universo fálico. Toda essa urgência é mesmo uma merda pretérita, pois o presente mesmo é a casa de meu amigo André Maciel, que recentemente foi promovido de Sr. à Dr., ou seja, de bancário à banqueiro, e assim, desenvolveu bem um aparelho de extinção de urgências. Meu cotidiano, através das revoluções copernicanas deste mundo, tornou-se uma merda. Aliás, não é tão ruim, pois já me acostumei e tive a oportunidade de conhecer coisas fascinantes. Eu achava que aqui todos eram vadios, ficando só boiando sem nada para fazer, mas percebi que todos estamos juntos, e hoje, o que queremos mesmo é sair daqui... mas voltemos ao aparelho adaptado aos novos tempos do Sr. Doutor André. Lá não há só uma privada, mas duas, tão importantes que se mudaram para dentro de sua casa, ocupando posição privilegiada. A primeira, revela a preocupação do dono com aqueles que ali estavam de passagem, inclusive ele próprio. O acadêmico Dr. André sabia que a merda poderia ser feita em qualquer lugar e tratou de facilitar a vida dos amigos deixando um ladrão a disposição dos que fizessem muita merda. Aquele verdadeiro investigador de bundas que ora trava a descarga, para que nada suba, ora funciona com liquidez, tamanho prazer e preocupação que causou ao proprietário, fez valer a alcunha de Investigador de Retaguarda, ou vulgarmente como é chamado, Leopardo, tamanha sua voracidade e barulho quando engole a merda... A Segunda, em função da primeira (em função de seu dono), era sim a de guerra, funciona sob uma espécie de hierarquia militar ...antiguidade é posto! ...eu sou mais forte... é a preferida daquele homem branco de barriga cheia... Normalmente essa privada é que suja mais, porém é efetivamente a mais eficaz... forte e truculenta, manda para o fundo tudo aquilo que ameace sujar a casa de seu proprietário. E mais, uma terceira privadinha, em miniatura e de plástico, ensinava as crianças a desde cedo seguir os mesmos passos dos mais velhos. Ainda assim, os três aparelhos podem assumir as respectivas características dos outros, podendo até acumula-las. ...uma coisa de dar orgulho aquele que aperta o botão de descarga. Outro dia, num encontro casual com o generoso Dr. André, o próprio falava-me de uma conversinha com o empregado nordestino negro que sua irmã indicou para os cuidados de seu jardim. Tinha quase dois metros de altura, mãos enormes e grosseiras, um olhar servilmente desconfiado e uma voz que docilmente remediava o medo branco de seu patrão. Era forte, muito forte, mas não tinha graça. Morava na favela ali perto, o que era ótimo; não precisava nem de vale transporte e no almoço, podia ir até sua própria casa. Depois de três meses de trabalho no jardim do ecológico Dr. André, o rapaz pensou poder pedir alguma coisa parecida com uma efetivação ou assinatura de carteira. Doze horas de trabalho por dia, o baixo salário e a proximidade que achava ter com seus patrões, valeram ao jardineiro, eletricista, carpinteiro, cozinheiro e, principalmente, bombeiro, a coragem necessária. O homem sem-graça, entrou pé-ante-pé no pequenino hall decidido a reclamar ao chefe o que seria o direito de um empregado. Pensava no porquê de seu patrão ser tão desleixado com a casa, obrigando-o quase que perder todo o tempo trabalhando com esgoto. O alicerce mal feito e a contínua acomodação do terreno multiplicara seu trabalho no cuidado com as tubulações da casa. Ao parar diante da porta do quarto do empresarial Dr. André, o homem sem-graça continua a pensar nessa relação. “...por que a casa tem tantos problemas? ...e por que só a água e o esgoto são importantes?” Aos poucos, seus olhos começam a focar o vazio, suas mãos, outrora decididas, tremulam abaladas pelo suor, agora frio, que cobre seu corpo. O nada se torna turvo, escuro. Sinais pequeninos despencam da opaca porta, transformando-se em luminosos caracteres ver... –Pode falar! Interrompe subitamente o inevitável Sr. Dr. Maciel, destravando e abrindo bruscamente a porta. O homem sem-graça, num instante de paralisação, sequer consegue gaguejar. Rapidamente a grande barriga cheia encosta-se. A mão quase amiga abraça o homem sem-graça: –Calma rapaz, você está bem!!? O doutorado Dr. André Maciel fitou bem o rosto negro do mancebo e disse: –Vem comigo rapaz, vou te mostrar uma coisa... O curto corredor, de paredes rachadas e úmidas, pinturas mofadas e rodapés soltos, leva ao centro da casa do magnânimo Dr. André, lugar que por excelência sustentava seu modus vivendi. A privada da casa era linda, no meio do banheiro, seu branquinho reluzia e seduziria mesmo a um incauto transeunte de rua a usa-lo. É certo que já vazava por baixo, pois por horas a fio, até o homem sem-graça, sem saber o porquê, deixava de trabalhar em seu conserto. Porém o design do aparelho era realmente lindo e brilhava aos olhos do dono. Seu formato parecia encaixar perfeitamente no traseiro do redondo Dr. Maciel, jamais de outro, principalmente negro. O já pós-doutorado Dr. André entrou no banheiro e logo abaixou suas calças. –Que isso dotô... respondeu o homem sem-graça de voz marcadamente preocupada. O orgulhoso dono daquele belo aparelho processador de merda o tranquilizava: –Negão, não é por aí, já vou te mostrar uma coisa, mas não é o que você está pensando. Calmamente o phd Dr. André sentou no que literalmente é o seu trono, tendo sua grande barriga acomodado-se em sincronia com as finas pernas atesouradas e os seios a apontar para o chão. Paulatinamente o rosto branco do branco homem se empalideceu ainda mais, expondo uma prisão de ventre de pelo menos três meses. O inexpugnável Dr. André assustava-me ao afirmar que o produto de seu ventre poderia ser gorfado se necessário fosse, mas teria que sair. Porém, em poucos segundos de contorcionismo, seu rosto voltava ao prumo de um alívio floral, embora o banheiro enfrentasse a agrura de uma realidade fétida. Para a felicidade daqueles que fazem o mesmo, a merda saiu pela via não natural, mas via construída para leva-la ao destino que seu feitor lhe comprazia. –Olha bem negão, tá vendo aquilo lá no fundo? –Dotô... –Então, rolou uma empatia? –Mas do... –Fique quieto rapaz, ouça... está vendo como é belo o Leopardo, como ele se acomoda bem a mim? –É dotô, ele é mesmo interessante... –Pode parar por aí, ele não foi feito para mudarmos de posição. Tá vendo aquela merda lá no fundo, está boiando numa água limpinha, né? Pois é, é caro manter aquela água e aquela privada, sabe? Eu gasto muito para que ela fique limpa e a merda daquele jeitinho, confortável, quase toda imersa, mas confortável. Não vale a pena? Olhemos para o fundo, ela é limpa como minha imagem... e para a merda ela deve ser ao mesmo tempo envolvente e poderosamente infalível. Deve utilizar-se dos próprios movimentos e peso da merda, para ludibria-la e fazer com que vá para o fundo, para ir embora... Veja só. O olhar do belo Dr. André brilhava ao lembrar de mais uma história sua. Seu sorriso de francos dentes separados dobrava-se ao regozijo cada vez maior. O homem ao seu lado olhava aquela límpida água, rodando, rodando, rodando em sentido dextrógiro na ação do apertar de um simples botão. Enquanto isso, o erudito Dr. André dividia sua atenção entre o seu lindo aparelho que funcionava mas vazava água por baixo e o hipnotizado negro ao seu lado. O homem sem-graça esqueceu completamente o odor horroroso que empestiava o banheiro, já desprendia-se totalmente das suas intenções iniciais eu o levaram aquele mal fadado hall... mas novamente suas vistas se turvaram... Enquanto sorria pensando novamente em se aproximar de casa e se sentar na sua privada, o inigualável Dr. André foi tomado por um único momento de preocupação em toda sua ilustração. Só existe igualdade no fundo do fosso. E eu me sentia lá, só de estar diante de tanta sapiência, porém a aflição do inseparável Dr. André não me deixara ir embora. Era o derradeiro ápice de mais um dia antes de puxar-me sua descarga. E precisávamos da brevidade de suas preocupações para ir logo embora. Não era a primeira vez, que seu vaso, sua límpida água e seu botão mágico de extinção de urgências, refugavam diante toda aquela merda. –Mas dotô, eu só vim aqui para pedir para assinar a minha carteira. Mas a preocupação foi mesmo só por um único momento. –Rapaz, veja bem, se não funcionar de primeira, é preciso ser ainda mais tenaz; deixa-se a caixa encher novamente, respira-se fundo e... negão, você não entendeu, está demitido! Pronto, tudo fica leopardianamente como sempre esteve, limpo, branquinho e com a merda longe. Adeus colega! –Adeus Maciel. Fábio Souza C. Lima.

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