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Antropologia estrutural em Claude Lévi-Strauss

Lévi-Strauss, Claude              
Antropologia estrutural  
Rio de Janeiro: Tempo brasileiro - GB -1970, 2ª Edição  
Capítulo XVII, pp.368-407            
Lévi-Strauss, Claude " A antropologia como disciplina e três grandes modalidades de ensino antropológico"
pp. 368-371 - Lugar da antropologia nas ciências sociais e problemas colocados por seu ensino - Objeto deste estudo Objetivo dêste estudo - O ensino da antropologia social, posto que o título desta disciplina a coloca entre as ciências sociais e que ela parece ter um conteúdo distinto. Na Grã-Bretanha, se encontra um ensino de antropologia social sob forma distinta, orgânica e dada num departamento autônomo? Todos os outros países (e, na própria Grã-Bretanha, diversos estabelecimentos) falam de antropologia, simplesmente, ou de antropologia cultural, ou ainda de etnologia, de etnografia, de tradições populares.A antropologia não se distingue das outras ciências humanas e sociais por um objetivo de estudos que lhe seria próprio. A história quis que ela começasse por se interessar pelas sociedades ditas "selvagens" ou "primitivas", e teremos mais adiante que pesquisar as razões disto. O que é então antropologia? Limitemo-nos, por enquanto, a dizer que ela procede de uma certa concepção do mundo ou de uma maneira original de colocar os problemas, uma e outra descobertas por ocasião do estudo de fenômenos sociais não necessariamente mais simples (como se está muitas vezes inclinado a acreditar) do que aqueles de que é palco a sociedade do observador, mas que - em razão das grandes 
diferenças que oferecem com relação a estes últimos - tornam manifestas certas propriedades gerais da vida social, que a antropologia toma por objeto. A antropologia é uma ciência demasiado jovem para que seu ensino não reflita as circunstância locais e históricas que estão na origem de cada desenvolvimento particular. A antropologia social encontrada associada a outras disciplinas, e que, entre as ciências sociais, e em campanha da sociologia que a encontramos o mais das vezes, resignamo-nos a agrupar ambas no mesmo relatório geral. Não basta pois definir o conjunto, nomeio do qual o ensino da antropologia  está em vias de emergir; deve-se, também, procurar apreender sua orientação presente e as grandes linhas de uma evolução que se esboça aqui e ali. O relatório geral sobre o ensino da sociologia e da antropologia responde à primeira preocupação, e o presente trabalho à segunda.
Lévi-Strauss, Claude " Divisão atual da modalidades de ensino antropológico"
pp. 371-375 - Exame da situação atual - As cadeiras dispersas - Os departamentos - As escolas ou institutos Podem -se distinguir três modalidades de ensino antropológico. Este é oferecido ora em cadeiras dispersas (seja que já exista uma única na universidade considerada, seja que haja várias, mas ligadas a faculdades ou estabelecimentos diferentes), ora em departamentos (que podem ser puramente antropológicos ou associar a antropologia as outras disciplinas), ora enfim, em institutos ou escolas de caráter intra ou extra facultativo.
As cadeiras dispersas - Esta modalidade é muito difundida. Mas a criação de um departamento completo permanece sempre a finalidade a atingir.                                        Os departamentos - O departamento de antropologia responde duas necessidades e estudos: de um lado, cursos bem articulados da pesquisa; de outro, a preparação gradual para os diplomas, desde as provas elementares até o doutorado. A fórmula do departamento tem Por conseqüência, muitas vezes uma especialização demasiado apressada tendo, por corolário, uma cultura geral insuficiente.                                       As escolas ou institutos - Notemos aqui, apenas, que ela também suscita problemas: a autonomia do instituto deve ser, com muita freqüência, paga por um rebaixamento de status, em comparação com ensinos concebido dentro de um tipo mais tradicional.
Lévi-Strauss, Claude "O que é antropologia física"
pp. 375-377 - O caso da antropologia física Uma questão de competência coloca-se de início. A antropologia, cuja constituição agitou tão profundamente as ciências sociais, é. Ela própria, uma ciência social? Consideremos antes de tudo a antropologia física: ela se ocupa de problemas como o da evolução do homem a partir das formas animais; de sua distribuição atual em grupos raciais. Em grande parte, ela se reduz ao estudo das transformações anatômicas e fisiológicas resultantes, para uma certa espécie viva, da aparição da vida social, da linguagem, de um sistema de valores ou, para falar mais genericamente, cultura.
Lévi-Strauss, Claude "Que relações e que diferenças há entre etnografia, etnologia e antropologia"
pp. 377-379 -Etnografia, Etnologia, Antropologia Que relações e que diferenças há entre a etnografia, a etnologia e a antropologia? A etnografia corresponde aos primeiros estágios de pesquisa: observação e descrição, trabalho de campo (field-work).Com relação à etnografia, etnologia representa um primeiro passo em direção à síntese. Sem excluir a observação direta, ela tende para conclusões suficientemente extensas para que seja difícil funda-las exclusivamente num conhecimento de primeira mão. A etnologia compreende a etnografia como seu passo preliminar, e constituiu seu prolongamento. Durante muito tempo e em vários países ao menos, considerou-se que esta dualidade se bastava a si mesma. Em vários países europeus, o termo antropologia foi deixado disponível e ficou assim limitado a antropologia física. Existe entre a antropologia e a etnologia a mesma relação relação que se definiu acima entre a última e a etnografia. Etnografia, etnologia e antropologia não constituem três disciplinas, ou três concepções diferentes dos mesmos estudos. São, de fato, três etapas ou três momentos de uma mesma pesquisa, e a preferência por este ou aquele destes termos exprime somente uma atenção predominante voltada para um
   tipo de pesquisa, que não poderia nunca ser exclusivo dos dois outros.
Lévi-Strauss, Claude "As definições e diferenças entre antropologia social e antropologia cultural"
pp. 379-383 -Antropologia social e antropologia cultural Se termos antropologia social ou cultural vissem somente certos campos de estudo dos da antropologia física, não suscitariam problemas. Mas a predileção respectiva da Grã-Bretanha pelo primeiro termo e dos Estados Unidos pelo segundo, e o esclarecimento desta divergência no curso de uma recente polêmica entre o americano G.P. Murdock e o inglês R. Firth mostram que a adoção de cada termo corresponde a preocupações teóricas bem definidas. Se quisermos nos ater ao próprio sentido das palavras "cultural" e "social", a diferença não seria tampouco grande. A noção de cultura e de origem inglesa, posto que se deve a Tylor tê-la definido pela primeira vez como: Este conjunto complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume, e várias outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade. A antropologia social se reduz ao estudo da organização social, capitulo essencial, mas capitulo somente, entre todos os que formam a antropologia cultural. Poder-se-ia, pois, dizer que a antropologia cultural e a antropologia social cobrem exatamente o mesmo programa, um partindo das técnicas e dos objetivos para terminar nesta "supertécnica".
 Ambas compreendem os mesmo capítulos, talvez dispostos numa ordem diferente, e com um número variável de páginas consagradas a cada um. A antropologia  social nasceu da descoberta de que todos os aspectos da vida social - econômico, técnico, político, jurídico, estético, religioso - constituem um conjunto significativo, e de que é impossível compreender qualquer um destes aspectos sem coloca-lo no meio dos outros. A antropologia cultural: é uma preocupação dinâmica - como a cultura se transmite através das gerações? - que iria leva-la a uma conclusão idêntica: a saber, que o sistema das relações, unindo entre si todos os aspectos da vida social, desempenha um papel mais importante, na transmissão da cultura do que cada um dos aspectos tomados isoladamente. Quer a antropologia se proclame "social" ou "cultural", aspira sempre a conhecer o homem total, encarado, num caso, a partir de suas produções, no outro a partir de sua representações. Mas, além de que, entre os pesquisadores modernos, estas perspectivas tendem a se confundir , não se deve esquecer de que, mesmo aos casos
extremos, trata-se somente de uma diferença de ponto de vista, não de objeto. Parece haver hoje em dia no mundo um acordo quase unânime em utilizar o termo "antropologia"  em lugar de etnografia e etnologia, como o mais apto a caracterizar o conjunto destes três momentos da pesquisa.
Lévi-Strauss, Claude " A dependência dos estudos folclóricos, pelo objeto e método antropológico"
pp. 383-384 -Antropologia e folclore Designa as pesquisas que, tendo seu campo na sociedade do observador, apelam para métodos de investigação e técnicas de observação do tipo daquelas a que se recorre para sociedades muito afastadas. As razões deste estado de coisas não precisam ser consideradas aqui. Mas quer o expliquem pala natureza arcaica dos fatos estudados ( logo, muito afastados, no tempo se não no espaço), quer pelo caráter coletivo e inconsciente de certas formas da atividade social e mental em toda sociedade inclusive a nossa, os estudos folclóricos dependem certamente, seja por seu objeto, seja por seu método (e sem dúvida por ambos  ao mesmo tempo), da antropologia.
Lévi-Strauss, Claude "A antropologia como disciplina das ciências sociais"
pp. 384-387 -Antropologia e ciências sociais Se ela devesse, obrigatoriamente, escolher uma subordinação, proclamar-se-ia ciência social, um domínio separado, antes, ao contrário, porque ele sublima um caráter que tende a ser comum a todas as disciplinas: pois o mesmo biólogo e físico mostram-se hoje cada vez mais conscientes das implicações sociais de suas descobertas ou para dizer melhor, de sua significação antropológica. Além disso, quando as ciências sociais reivindicam a disposição de estruturas universitária que lhe sejam próprias, a antropologia associa-se de bom grado a sua exigência, mas não sem segundas intenções: ela sabe que esta independência seria útil para o progresso da psicologia social, da ciência política e da sociologia, e para uma modificação de pontos de vista, muitas vezes julgadas demasiado tradicionais, da parte do direito e da ciência econômica. O equívoco que domina as relações entre antropologia e sociologia: Seu  nome de sociologia designa-a  como a ciência da sociedade por excelência, a que coroa - ou na qual se resumem - todas as outras ciências sociais. Mas desde o fracasso das grandes ambições da escola durkheimiana, de fato, ela não é mais isto em parte alguma. Em certos países, sobretudo
na Europa continental a às vezes também na América latina, a sociologia inscreve-se na tradição de uma filosofia social em que o conhecimento (que permanece de segunda ou terceira mão) de pesquisas concretas executadas por outros vem somente alicerçar a especulação. Em compensação, nos países anglo-saxôncos (cujo ponto de vista ganha progressivamente a América Latina e os países asiáticos) A sociologia uma disciplina especial, que se inscreve no mesmo plano que as outras ciências sociais: ela estuda as relações sociais nos grupos contemporâneos  numa base amplamente experimental e não se distingue, aparentemente, da antropologia, nem por seus métodos, nem por seu objeto,  senão talvez em que esse último (aglomerações urbanas, organizações agrícolas, Estados nacionais, comunidades que os constituem, a própria comunidade internacional) e de outra ordem de grandeza e de uma complexidade maior que as sociedades primitivas. Mas, como a antropologia tende cada vez mais a se interessar por estas formas complexas. percebe-se mal qual é a diferença verdadeira entre as duas. Compreende-se assim porque a sociologia pode ser considerada (e sempre com justiça), 
ora como um caso particular da antropologia (como se tende a fazer nos Estado Unidos) e ora como a disciplina colocada no ápice da hierarquia das ciências sociais.
Lévi-Strauss, Claude " A mensagem própria da antropologia"
pp. 387-390 -Missões próprias da antropologia - Objetividade - Totalidade - Significação A mensagem própria da antropologia, aquela que a organização de seu ensino deve-lhe permitir transmitir melhores condições: Objetividade;  a noção de objetividade deve, ser precisada; não se trata somente de uma objetividade que permite àquele que a pratica fazer abstração de suas crenças, sua preferências e seus conceitos; o tipo de objetividade que pretende a antropologia vai mais além: não se trata somente de se elevar acima dos valores propostos da sociedade ou do grupo do observador, mas justamente acima de seus métodos de pensamento, de atingir uma formulação válida, não somente para um observador honesto e objetivo, mas para todos os observadores possíveis. Totalidade; A segunda ambição da antropologia é a totalidade. Ela vê, na vida social, um sistema cujos os aspectos estão organicamente ligados. Quando o antropólogo procura construir modelos, tem sempre em vista, e como segunda intenção, descobrir uma forma comum às diversas manifestações da vida social. Esta tendência se encontra tanto atras da noção, introduzida por Marcel Mauss, de fato social total, como também na de pattern, da qual se sabe a importância que adquiriu na antropologia
 anglo-saxônica no curso destes últimos anos. Significação: O domínio da antropologia, diz-se de bom grado, consiste nas sociedades mecânicas. Mas todos estes qualificativos dissimulam um realidade positiva: estas sociedades estão fundadas em relações pessoais,  em ligações concretas entre indivíduos, num grau muito mais importante que as outras. As sociedades denominadas "primitivas" permitem geralmente tais relações, e que, mesmo no caso em que as sociedades são demasiado extensas ou dispersas, as relações entre os indivíduos  mais afastados uns dos outros são construídas sobre o tipo das relações mais diretas.
Lévi-Strauss, Claude "A antropologia e a busca de canais de estudo ideais"
pp. 390-393 - O critério da autenticidade Nossas relações com outrem não são mais, senão de modo ocasional e fragmentado, fundadas sobre esta experiência global, esta apreensão concreta de um sujeito por outro. Elas resultam, em grande parte, de reconstruções indiretas, através de documentos escritos. E, no plano do presente, comunicamo-nos com a imensa maioria de nossos contemporâneos por todas as espécies de intermediários. Certamente, as sociedades modernas não são integralmente inautênticas. O futuro julgará, sem dúvida, que a mais importante contribuição da antropologia às ciências sociais é introduzido (aliás inconscientemente) esta distinção capital entre duas modalidades de existência social: um gênero de vida percebido originalmente com tradicional e arcaico, que é antes de tudo o das sociedades autênticas, e formas de aparição mais recente, das quais não esta certamente ausente o primeiro tipo, mas grupos imperfeita e incompletamente autênticos encontram-se organizados no seio de um sistema mais vasto, atingido ele próprio pela inautenticidade.
Lévi-Strauss, Claude " Organização e formação ideal de um estudante de antropologia " 
pp. 393-397 -A organização dos estudos antropológicos Entrevemos assim a bizarra  encruzilhada de disciplinas em que se acha hoje situada a antropologia. Para  resolver o problema da objetividade que lhe é imposto  pela necessidade de uma  linguagem comum para traduzir experiências sociais heterogêneas, a antropologia começa a se voltar para as matemáticas e para a lógica simbólica. Ciência "semiológica" em segundo lugar, é em direção à lingüística que ela se volta, por duas razões: antes de tudo. Porque e somente o conhecimento da língua permite penetrar num sistema de categorias lógicas e de valores morais diferentes do sistema do conservador; em seguida, porque a lingüística, melhor que nenhuma outra ciência, é capaz de ensinar o meio de passar da consideração de elementos em si mesmos privados de significação, à de um sistema semântico. Em terceiro lugar, sensível as inter-relações dos diversos tipos de fenômenos sociais, a antropologia empenha-se em encarar simultaneamente  seus aspectos econômicos, jurídicos, político, moral, estético, religioso. Um certo número de conseqüências práticas resultam da consciência desta complexidade.
1) A antropologia tornou-se uma disciplina por demais diversificada e técnica para que se possam recomendar ensinos limitados, a um ano, geralmente intitulados "introdução à antropologia" (ou outra forma do mesmo gênero) que consistem habitualmente em vários comentários sobre a organização clânica, a poligamia e totemismo. Uma introdução à antropologia não faz um antropólogo, mesmo amador, como um introdução à física não faria um físico, ou mesmo um auxiliar de físico.
2) Qualquer que seja o número de cursos considerados não se poderiam formar antropólogos em um ano. Diplomas de antropologia devem sanciona, até nos mais altos graus universitária, estudos que sejam exclusiva e integralmente antropológicos.
3) Mesmo assim estendido, o conjunto das matérias compreendidas sob o domínio da antropologia é demasiado complexo para não exigir uma especialização.                        4) O estudo da antropologia, geral ou regional, implica sempre em leituras extensas. Nós hesitamos, com efeito, em recomendar neste domínio um política de traduções sistemáticas: o vocabulário técnico da antropologia se encontra atualmente num estado de anarquia completa. Cada autor tende a empregar uma terminologia que  lhe é própria, e o sentido dos principais termos não esta fixado.
5) Seria útil que estes três anos de formação teórica fossem seguidos de um e mesmo de dois anos de estágio.
Lévi-Strauss, Claude " A formação de mestres e pesquisadores "
pp. 397-399 - Ensino e pesquisa - Formação dos mestres - Formação dos pesquisador Formação de mestres - Ninguém deveria poder ter a pretensão de ensinar antropologia sem ter realizado ao menos um pesquisa de campo importante. Convém acabar, de uma vez por todas, com a ilusão de que se pode ensinar antropologia entre quatro paredes, com a ajuda de um edição completa e outras complicações, quaisquer que possam ser seus méritos intrínsecos.
Formação de pesquisadores - É hoje um princípio universalmente admitido que a prática da profissão analítica requer um experiência específica e insubstituível, que é a da própria análise; é por isto que todos os regulamentos impõe que o futuro analista tenha ele mesmo analisado. Para o antropólogo, a prática do campo constitui o equivalente desta experiência única; como no caso da psicanálise, a experiência pode ter sucesso ou malograr, e nenhum exame ou concurso fornece o meio de resolver num outro sentido.
Lévi-Strauss, Claude " A importância do museu como estado e aprimoramento profissional "
pp. 399-404 - O papel dos museus de antropologia - Os trabalhos práticos - Os estágios exteriores - Os museus de antropologia O contato estreito com uma pessoa que já sofreu, por sua conta, uma transmutação psicologia, é ao mesmo tempo um meio, para o aluno, de atingi-la mais rapidamente, e, para o professor, de verificar se, e em que momento, seu discípulo igualmente a conseguiu. Perguntemo-nos agora quais são os meios práticos de assegurar ao futuro pesquisador um experiência de campo "sob controle". Existem, parece três:
Os trabalhadores práticos: Pensadores nos trabalhos práticos, sob a direção dos professores, que garante os últimos anos de ensino, ou sob a de assistentes. Era solução só tem um valor aproximado.
Os estágios exteriores: Esta solução apresentaria, com relação à precedente, a imensa vantagem de não apelar para experiências simuladas. Oferece, em compensação, o inconveniente de colocar os estudantes sob o controle e a responsabilidade de chefes de serviço privados de formação antropológica, isto é, incapazes de extrair o alcance teórico das experiências cotidianas. 
Os museus da antropologia - Durante muito tempo, os museus de antropologia foram concebidos à imagem de outros estabelecidos à imagem de outros estabelecimentos do mesmo tipo, isto é, como um conjunto de galerias em que se conservam objetos: coisas, documentos inerentes e de algum modo fossilizados atrás de suas vitrinas, completamente destacados das sociedades que os produziam o único laço entre estas e aqueles sendo constituindo por missões intermitentes enviadas ao campo para reunir coleções, testemunhas mudas e gêneros de vida, ao mesmo tempo estranhas ao visitante e para ele inacessíveis. Os museus de antropologia enviavam outrora homens - que viajavam num sentido - para procurar objetivos que viajavam em sentido inverso. Pode-se dizer que, sob certos aspectos, os homens tendem a substituir os objetivos. Os museus de antropologia devem prestar atenção a esta imensa transformação. Sua missão de conservatório de objetos, é suscetível de prolongar-se, não de se desenvolver, menos ainda de se renovar.
Lévi-Strauss, Claude " A utilização da antropologia no cotidiano social "
pp. 404-406 - Antropologia teórica e antropologia aplicada. Se o lugar da antropologia nas ciências sociais fosse assim mais justamente reconhecido, e se sua função prática conseguisse se manifestar de maneira mais completa do que faz atualmente, vê-se quantos problemas essenciais encontrar-se-iam em vias de solução:
1) De um ponto de vista prático, funções sociais que não são hoje, senão muito imperfeitamente preenchida encontrar-se-ia garantida.
2) Carreiras se abriram para a profissão antropológica. A antropologia é única disciplina do "distanciamento" social: que ela dispõe de um imenso aparelho teórico e prático que lhe permite formar práticos: e sobretudo que ela está disponível, inteiramente pronta para intervir em tarefas que, além disto, se impõem à atenção dos homens.
3) Enfim, e no plano mais limitado que é deste estudo, vê-se como o desabrochar dos museus de antropologia em laboratórios consagrados ao estudo dos fenômenos sociais mais dificilmente redutíveis. Os novos laboratórios permitiriam que os últimos anos de estudo se cumprissem sob forma de um verdadeiro externato e internato, sob a direção de professores que seriam, ao mesmo tempo, chefes de clínica, tal como se faz nos estudos de medicina.

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