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Bem-vindo ao deserto do real: notas sobre o o ensino de história


Bem-vindo ao deserto do real: notas sobre o o ensino de história

A frase proferida por uma personagem de um filme de ficção científica com entranhas filosóficas[1], pode servir-nos para iniciar um trabalho que girará em torno da discussão de uma História para a libertação[2], ou uma História sem finalidade nela mesma, voltada para breve ilusão de cultura, sem retórica e sem graça.
A personagem Morfeu, caracterizada como um professor, ao demonstrar que a vida de seu aluno, Neo, até então tinha sido apenas de visão de um mundo imposto diante de seus olhos, e que a realidade, triste e de manipulação das massas, convida-o à reflexão: Eu mostro as portas. Mas você terá que atravessá-las.
Uma reflexão, como essa personagem propõe a outra, salta aos meus olhos como principal cerne da querela entre os educadores, que lutavam pelo fim dos Estudos Sociais e a recriação de disciplinas como História, Geografia, e a mídia paulista, representada pelo O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, durante o processo de volta à democracia.

Alguns Anos Antes
Nos anos que antecederam o fim do Regime civil-militar, os educadores já discutiam sobre a qualidade do ensino crítico realizado nas escolas. O principal alvo, a disciplina Estudos Sociais, era finalmente vista de um ângulo crítico, onde pesava contra ela a formação de seu profissional (curso rápido, com duração que poderia chegar até a apenas 3 meses), voltado para o ensino uniformizador, acrítico e passivo.

lembro-me de aprender a andar de um lado da calçada que estivesse em sentido oposto ao dos carros. Isso poderia salvar minha vida se um automóvel se desgovernasse em minha direção.

Hoje eu creio que essa minha memória poderia realmente ter algum sentido. Principalmente durante o regime de exceção, quando a perseguição à fuscas terroristas ideologicamente desgovernados, poderiam matar pobres brasileiros não educados pelos revolucionários.

Educadores: A proposta de São Paulo
Congruente com o que já foi apontado, torna-se interessante citar um dos pontos de maior celeuma entre os interessados: a História como prática Social. Um estudante versado em atravessar as portas, a refletir e chegar a simples conclusão de que é ele o responsável pelo que será o futuro, torna-se um verdadeiro acinte as elites sociais que pensavam um outro fim às massas populacionais. A Proposta de São Paulo mostra-se com um caráter de construção do conhecimento, onde o professor deixa o pedestal do técnico intocável e passa a dividir experiências e a preocupar-se em produzir o conhecimento em diversos níveis diferentes, seja no ensino médio ou na universidade. O professor de história não é mais especificamente só professor, ou por sua vez o pesquisador, só um pesquisador, essa divisão técnica acaba na formação de um novo profissional que não se detém a breves retenções na memória de um conteúdo produzido por outro profissional e que deve ser imposto em sala de aula, mas um professor-pesquisador que adquire parâmetros e conhecimentos instrumentais nas universidades, para trabalhar em sala de aula construindo o conhecimento.

(...) em nome de um conhecimento científico da História e de todos os outros campos do saber – nós, professores de 1º e 2º graus, somos levados a transmitir conteúdos já elaborados a alunos esvaziados de suas experiências[3].

Finalmente o professor sai da garrafa e desce do palco para aproveitar as experiências das relações sociais de seus alunos na construção do conhecimento. Esses alunos que desde então não podem mais ser vistos como páginas em branco, onde todo seu conhecimento é emanado de um ente superior perfeito e sempre certo. O novo ente, apesar de falível, torna-se Ativo, liberto de apenas uma visão histórica contida em seu livro didático fornecido pela escola, reconhecendo-se como principal condutor dos seus alunos-agentes da construção da história de sua sociedade.

(...) foi a história tradicional que construiu o tempo (...). Acontecimentos, reinos, eras: é uma construção ideológica, mas não “homogênea”. Além do que, quando a preocupação cronológica se fez crítica, quantos mitos demoliu, quantos textos dessacralizou?[4]

A história morta e imutável de rigorosa linha cronológica, que primava por acontecimentos pós-nomeados e heróis involuntariamente escolhidos para criação de uma moral manipulada, dá lugar a uma análise social que pensa um tema como a instituição escravidão, ressaltado que ela é, principalmente, uma relação social, baseada naquele que pode e naquele que não pode, e que destarte, nos dias atuais, as relações entre aqueles que podem e aqueles que não podem, também implicam em relações de dominação tal como no passado. Os tais heróis compulsórios, atendem bem a definição que Maria Helena Chauí nos fornece de ideologia, pois torna-se quase impossível que uma criança não se apaixone pela história de um tirador de dentes defensor da liberdade de comércio e da igualdade jurídica, diante de uma realeza que não suja as mãos para nenhum trabalho ou pensava em dividir suas regalias.
Refletir o passado utilizando-se do presente, é contudo a grande vedete da Proposta de São Paulo, como é colocado por Jean Chesneaux:

É preciso (...) tomar conta do fato de que a reflexão histórica é regressiva, que ela normalmente funciona a partir do presente, na contracorrente do fluxo do tempo, e que essa é sua razão de ser fundamental[5].

Como já foi dito, um aluno capaz de se ver agente da história, pode tornar-se uma ameaça às elites sociais.

Lembro-me de uma das aulas deste semestre em que a professora Laura Maciel comentou que educar os alunos para pensar, implica em criar alunos rebeldes! Pensei em um dos trabalhos que passei aos alunos durante o último bimestre. Ao trabalhar o Estado, as Relações Sociais entre o Estado e o Indivíduo e falar exaustivamente de repressão e manipulação (tendo inclusiva exibido o filme Matrix)... em uma disciplina que mescla sociologia e filosofia, informei-os sobre o funcionamento dos impostos e de seu recolhimento junto ao comércio. Em seguida, pedi em um trabalho simples, que os alunos comprassem qualquer coisa, de qualquer valor, exigindo no ato da compra, um de seus direitos que é a Nota Fiscal de qualquer mercadoria ou serviço. Os alunos foram direto nas cantinas dos colégios. Imagine o desdobramento que o colégio teve de fazer em explicar aos alunos que a cantina do lugar onde deveriam aprender a ser cidadãos, não tinha sequer um talonário para lanças os produtos vendidos...


O Império contra-ataca
O ensino de História na escola fundamental nos estados brasileiros dos anos 70, baseava-se nas diretrizes da Reforma Educacional de 1971, implementada a partir da Lei 5692/71, que através de pareceres e resoluções, o governo civil-militar tratou de normatizar. Nasce neste bojo, o Frankenstein que abarca História, Geografia, Sociologia e Filosofia, na inexpressiva nomenclatura Estudos Sociais. Sem dúvida o melhor instrumento (juntamente com o 4º poder ao seu lado), de criação de uma massa passiva e submissa, partia do Aparelho Político-repressivo do Estado civil-militar, refletindo-se culturalmente através do Aparelho Ideológico (escolas, universidades, campanhas “educativas”..).
Ao acinte da Proposta de São Paulo para educação em todo o Brasil, as elites sociais conservadoras responderam através dos jornais, como O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, com críticas que avançavam pelo reflexo anti-comunista que ainda norteia a sociedade brasileira profundamente marcada pelo cristianismo:

“uma ideologia de esquerda”, em molde tipicamente ‘marxista-leninista’, com o objetivo mais do que evidente de fazer a cabeça das crianças; acusada de “achincalhar os grandes vultos da nossa história”, e seus formuladores e/ou assessores chamados de ‘marxóides de quinta categoria’. “Num lance extremo e ridículo de ‘criticismo’, a proposta para o ensino de Ciências condena a ‘supervalorização do conhecimento cientifico em detrimento de outras formas de conhecimento’. Estampa-se, com toda clareza, a conjunção de antiintelectualismo, sentimento de culpa, politização e voluntarismo que orienta toda essa ideologia” Folha de São Paulo, 1987.

A discussão do ensino no Brasil jamais ganhara tanta audiência. Tal como no Governo Lula, uma CPI que acuse o governo ganha cobertura de jogo de Copa do Mundo de Futebol, a educação finalmente virava notícia no senso comum do povo.
A Proposta de São Paulo também era objeto de discussão para professores da rede pública fundamental e média de ensino. Informados de que deveriam realizar relatórios que seriam encaminhados a Equipe Técnica da CENP, alguns professores mostraram-se preocupados com a própria formação, provavelmente perturbados com a perspectiva de não conseguir dar conta em sua própria organização, do que seria o ensino a partir da proposta. Outros educadores, cientes de que os alunos pouco se interessava, por suas aulas, decidiram por acompanhar as mudanças.

O professor precisará fazer lavagem cerebral e reorganizar-se mentalmente. De Mogi das Cruzes

Os professores do ensino público, também manifestaram-se preocupados com os possíveis resultados de uma educação tão libertina em meio a um período ainda tão marcado por desconfianças e medo da volta de uma repressão ainda mais obscurantista.

Com essa nova proposta a CENP propõe algo radical. Entendemos que é muito difícil mudar e gostaríamos que houvesse mudanças. Mas como? É preciso que se comece das bases, não pode ser uma mudança como um todo. [...] Desse modo a mudança seria gradativa. Achamos muito difícil um professor que dá suas aulas há muito tempo, mudar. Quando muito, ele vai misturar o novo e o antigo. De Piracicaba

Existiu também, no próprio seio dos profissionais de história, aqueles reticentes diante de tanta mudança. Em nenhum momento tais mudanças propostas mostrou levantar consenso mesmo entre os educadores de São Paulo. Alguns continuaram a defender a manutenção da divisão entre os especialistas historiadores e professores de história outros receavam o aumento do trabalho, porém, a maioria temia o que poderia estar por vir.

Assim, como o Leopardo de Lampedusa dizia: É preciso que tudo mude para que tudo permaneça como está. E o ensino seguiu então uma característica dos anos de fim da própria ditadura civil-militar, Uma abertura lenta e gradual, que redunda na mesmice social e educacional de hoje e de ontem.












Fontes Bibliográficas:

CARVALHO, Anelise Maria Muller de,  MATE, Cecília Hanna,  ANTONACCI, Maria Antonieta Martines,  AQUINO, Maria Aparecida,  REIS, Maria Cândida Delgado,  NICOLAU, Salma. Proposta Curricular para o Ensino de História 1º Grau. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Estado de Educação. Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas. São Paulo, 1989.
CHAUÍ, Maria Helena. O que é ideologia? Editora Brasiliense. São Paulo, 1993.
FENELON, Déa R.; SILVA, Marcos Antonio da e FUNARI, Pedro Paulo. “Ensino de História: opções em confronto”. Revista Brasileira de História. São Paulo, Anpuh/Marco Zero, vol. 7, nº 14, mar/ago, 1987, pp. 231-260.
FOUCAULT, Michael. Microfísica do Poder. IN: MACHADO. Roberto (org. e trad.). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro. Edições Graal, 1979.
SÃO PAULO. Secretaria de Estado da Educação. Proposta Curricular para o ensino de História – 1º grau. São Paulo, Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, 1989.




[1] Filme: Matrix. Direção:Joel Silver.
[2] Referência a expressão: Educar para libertar, de Paulo Freire.
[3] CARVALHO, Anelise Maria Muller de,  MATE, Cecília Hanna,  ANTONACCI, Maria Antonieta Martines,  AQUINO, Maria Aparecida,  REIS, Maria Cândida Delgado,  NICOLAU, Salma. Proposta Curricular para o Ensino de História 1º Grau. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Estado de Educação. Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas. São Paulo, 1989. p. 9.
[4] Piere Villar. História marxista. História em construção. In História: Novos problemas. p. 159. (trecho fornecido em proposta para avaliação individual da disciplina História e Ensino de 1º e 2º Graus – Professora Laura Maciel – 1º semestre de 2005)
[5] Jean Chesneaux. Devemos fazer tabula rasa do passado? pp. 56-64. (trecho fornecido em proposta para avaliação individual da disciplina História e Ensino de 1º e 2º Graus – Professora Laura Maciel – 1º semestre de 2005)

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