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Fichamento do capítulo décimo quinto de Fatos do espírito humano, de MAGALHÃES, D. J. G., 2004



‘O FACTO É QUE EXISTIMOS’

A)    DA CORPOREIDADE. Magalhães Inicia sua argumentação dizendo que parte do princípio dos fatos reconhecidos por todos os filósofos das mais contrárias escolas, e por todos aqueles que possuem qualquer conhecimento geral das coisas da natureza. Desta forma, inicia da discussão sobre a verdade dizendo que se deixamos de reconhecê-la, é por falta de atenção.O Universo sensível, onde habitamos, é uma reverberação do universo intelectual, que existe no pensamento de Deus, e que se corporiza para nós pelo reflexo das nossas intuições e sensações. Nossas sensações são, desta forma, sinais do pensamento de Deus. Nossa corporeidade, sinal de sua vontade.

B)    CAUSA DA PERMANÊNCIA NA ORDEM DAS PERCEPÇÕES. Permanecemos, enquanto homens, na ordem das percepções devido a nossa inteligência limitada. Por conta disso também criamos, segundo o autor, universos que ocupam espaços, mas que, porém, duram o tempo de nossos sonhos. Ao contrário disso Deus é puro pensamento, nos mantendo vivos.

C)    RESPOSTA A UMA OBSERVAÇÃO DE LEIBNIZ. Ao citar Locke, também aposta que não é impossível, metafisicamente falando, que haja um sonho seguido e durável, como a vida de um homem; mas é uma coisa tão contrária à razão, como seria a ficção de um livro de se formasse por acaso, atirando-se confusamente os caracteres de uma tipografia. De resto, é verdade também que, contanto se liguem os fenômenos, pouco importa lhes chamemos de sonhos ou não; pois a experiência mostra que não nos iludimos nas medidas que tomamos em relação a esses fenômenos.

D)    PORQUE CRIOU DEUS OS ESPÍRITOS. A inteligência divina seria a única e solitária espectadora dos seus belos pensamentos, se não houvesse outras inteligências que os percebessem, e onde eles se refletissem. Incompleta fora de sua obra, se tendo Deus pensado a ordem social, e a virtude no meio de todos os contrastes, e seres livres que a executassem, não desse a esses seres da sua inteligência uma existência real, uma consciência própria, e uma verdadeira liberdade.

E)     O QUE LIMITA O PODER DO HOMEM. O que limita nosso poder é o corpo animal, essa imagem, esse complexo de fenômenos sensíveis, sujeito a leis necessárias, independentes da nossa vontade, que demanda imperiosamente a atenção, e involuntariamente se opõe às nossas determinações. O corpo não nos foi dado como uma condição de saber e de querer, mas como uma sujeição que coarctasse esse poder livre, de que abusaríamos, chamando-nos à vida prática.

F)     DA ORDEM SOCIAL EXISTENTE. Se Deus tivesse criado seres que vivessem apenas na bem-aventurança, apenas contemplando as maravilhas de seu criador, de que serviria então o prêmio final? Se fossemos tão bons e belos, se vivêssemos sempre felizes e sem aflições, qual seria o nosso mérito na consciência de nós mesmos? Haveria assim liberdade?

G)    POSSIBILIDADE DE QUALQUER OUTRA ORDEM SOCIAL. Desaparecendo todos os vícios e todos os males humanos, os homens quereriam agir e pensar cada um ao seu jeito. Seria a guerra de todos contra todos. Não haveria sociedade, uma guerra em estado permanente, uma sociedade sem liberdade.

H)    CONVENIÊNCIA DE UMA SOCIEDADE LIVRE. Ser um homem livre implica na possibilidade de sermos virtuosos e sábios pelos nossos próprios esforços, e não um rebanho de máquinas, obedecendo cegamente a uma vontade soberana.

I)       TUDO SE COMPREENDE COM A LIBERDADE HUMANA. Com a inteligência, a liberdade, e a vida futura compreendemos o homem, a ordem social, a virtude e o vício, o bem e o mal; sem a inteligência, sem a liberdade, sem vida futura tudo é obscuro, tudo incompreensível, tudo absurdo no homem, e na ordem social.

J)       CONCILIAÇÃO DA LIBERDADE COM A PRECIÊNCIA DIVINA. Uns reconhecendo o livre arbítrio, negam como incompatível a presciência divina. Outros, julgando impossível que Deus ignore o que os homens têm de fazer, sacrificam a liberdade à omniscência do Eterno. Outros enfim, admitindo ambas as coisas como certas, procuram ajustar as duas verdades, sem, contudo, satisfazerem completamente.

K)    DEUS ESTÁ PRESENTE À ORDEM SOCIAL. Ele não deixou entregue à mercê da vontade caprichosa de alguns homens; ele previu tudo, e deixando toda a liberdade ao espírito humano para pensar e determinar-se como quisesse, obrigou-o pela razão e pelo corpo a conformar-se à ordem providencial dos seus infalíveis planos, para o maior bem das suas criaturas, filhos da sua predileção, em quem reflete os seus pensamentos. Ele saberá premiar a todos, segundo as suas obras, com uma justiça igual à sabedoria sem fim que se patenteia em todas as coisas.

L)     MORALIDADE DOS NOSSOS ATOS. A ignorância do que vai acontecer, após qualquer ato, é o que nos dá inteira liberdade em nossos juízos. Não importa se já está devidamente ‘escrito’ por Deus o futuro. O sentimento de que o que acontece é efeito das decisões que tomamos, nos dá a sensação de liberdade.

M)   MOTIVO DAS NOSSAS AÇÕES. Nada deixa de ter uma causa final. Se um ser não pode obrar livremente sem ter consciência de si, sem o conhecimento do que pode e deve fazer, essa liberdade, essa consciência, essa inteligência, inseparáveis, quer altere, quer não altere a ordem das coisas, deve infalivelmente te um fim previsto e certo. Se essa liberdade dá moralidade ao ato, essa moralidade não pode ser inútil, sem mérito algum, sem servir para alguma coisa. Com efeito, a consciência de todos os homens liga o prêmio ao mérito e à moralidade da ação livre, e não condena o que obra sem inteligência e liberdade. Se assim julgam naturalmente todos os homens em relação uns aos outros, e a todas as coisas, assim devemos julgar de nós mesmos em relação a Deus; porque ele é a justiça infalível, a verdade mesma, que nos faz pensar deste modo.

N)    REFUTAÇÃO DA TEORIA DO INTERRESSE INDIVIDUAL. FIM MORAL DO HOMEM. O Homem é muito superior à pintura que dele fazem, á mais fácil a virtude do que parece. Essa moral repugnante dos Helvetius, essa pérfida política dos Maquiáveis, esse abjeto despotismo dos Hobbes, são sátiras e sarcasmos à humanidade, e não coisas que lhe convenham. Elas só servem para ridicularizar e embrutecer o homem, deslustrar a virtude, entronizar o vício, e corromper os governos. Não é nos hospitais, e nos pútrios cadáveres que se estuda a natureza humana; ela aí se mostra em parte, mas enferma, corrupta, ou morta. O homem é antes um ente social, do que individual. Desde o momento em que aparecemos neste mundo até aquele em que o deixamos, a cada instante dependemos e necessitamos da sociedade; nela vivemos, por ela e par ela nos instruímos; todos nela pensam, e trabalham por nós e para nós; como nós por ela e para ela: a mesma razão nos ilumina a todos; a nossa consciência é por assim dizer a consciência da sociedade; e mais vezes a consultamos do que a nós mesmos. A vontade, o amor, a inteligência, a paternidade, a amizade, a caridade, o heroísmo, as instituições puras do bem, do belo, e do justo, todas as ciências, todas as artes belas, todas as indústrias, a saúde e a enfermidade, tudo nos conduz à sociedade, ou dela nos vem, como um fluxo e refluxo contínuo de um só elemento. O homem é um ente moral, porque é social, e social, porque é moral.

O)    A VIRTUDE É MAIS FÁCIL DO QUE PARECE. O autor de tudo nos indicou todos os nossos deveres com cuidado incessante, e facilitou-nos com grande profusão todos os meios de satisfazê-los. Deixando os apetites e desejos puramente animais, todos os sentimentos morais, que já dependem de um conhecimento do espírito, e que sem essa intuição não seriam sentimentos, nos levam aprazivelmente a sociedade à prática da virtude, e nos abrem um vasto campo ao mérito, moderando-os pelo conhecimento do bem, e combatendo os sentimentos do espírito, como sejam o ódio, a cólera, e o desejo da vingança.

P)     SENTIMENTOS MORAIS. Todos os belos sentimentos morais nos tiram de nós e nos conduzem à sociedade, particularizando-a pela família, os conhecidos, os cidadãos ilustres e beneméritos, e a pátria; e com o bem de todos nos regozijamos! Se saímos destes sentimentos que particularizam as nossas afeições morais, e as nossas simpatias; se entramos no domínio da inteligência pura; encontramos o amor da verdade, o amor do justo, e o amor do belo, que nos fazem cidadãos do mundo; e ainda mais nos esquecemos de nós mesmos e dos nossos interesses individuais, procurando a verdade, o justo e o belo, na pátria e longe dela, em todos os tempos, em todos os povos admirando sem interesse algum Homero, Virgílio, Sócrates, Platão, Aristides, Epaminondas, Marco Aurélio, Rafael, Miguel Ângelo e Washington.

Q)    O DEVER. Se a vida do homem sobre a terra é um contínuo merecer; se é um contínuo cumprimento de mil deveres morais, que não têm os animais. Se ele constantemente aperfeiçoa-se na sociedade pelo conhecimento da verdade, e pela prática do bem, do belo e do justo; esses deveres morais, e a sua própria natureza espiritual, lhe afiançaram uma existência além da campa. É incompatível com a sabedoria, e a infinita bondade divina, que um ente espiritual que tem deveres morais a cumprir neste mundo, para complemento dos altos desígnios do seu criador, seja inutilmente condena-o a tantos tormentos morais, a tantos sofrimentos físicos pelos outros, e pelo seu corpo; e depois de alguns anos de dores, de meditações, de trabalhos, de sacrifícios, de edificação e até do martírio, os que cumpram, os bons e os maus, os justos e os injustos, os tiranos e as vítimas, voltem todos a um mesmo nada.

R)    IMORTALIDADE DA ALMA. A imortalidade da alma é garantida na consciência infinita de Deus. Comédia horrível seria este mundo; uma ilusão sem causa este universo; a existência humana uma zombaria do nada, e tudo mentira, se não houvesse um Deus justo e bom! Os malvados teriam razão por um mero acaso; não haveria verdade e justiça nem na terra, nem no céu! Tranqüilizemo-nos! O que pe absurdo não pode ser verdade. Deus existe; e o espírito humano é imortal com a sua consciência.



MAGALHÃESD. J. G. de. Fatos do espírito humano. Petrópolis; Rio de Janeiro: Vozes: ABL, 2004. 

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