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Fichamento do texto O mediterrâneo e o mundo, de Fernand Braudel

Fichamento do texto O mediterrâneo e o mundo.
Braudel, Fernand              
O mediterrâneo e o mundo  
São Paulo: Escritos sobre a história - Editora Perspectiva, 1980,   
Mediterrâneo à época de Felipe II pp. 13-16      
Braudel,  Fernand "A história quase imóvel do homem"
pp. 13-14  Este livro divide-se em três partes, sendo cada uma, por si mesma, uma tentativa de explicação. A primeira põe em questão uma história quase imóvel, a do homem em suas relações com o meio que o cerca; uma história lenta no transcorrer e transformar-se, feita com freqüência de retornos insistente, de ciclos incessantemente recomeçados. Não quis negligenciar essa história, quase fora do tempo, ao contrário das coisas inanimadas, nem me contentar, relativamente a ela, com essa tradicionais introduções geográficas à história, inutilmente colocadas no limiar de tantos livros, com sua paisagens minerais, sua lavras e suas flores que as pessoas mostram rapidamente e das quais em seguida não mais tomam conhecimento, como se os navios não tivessem de vogar sobre um mar real, que muda com as estações.
Idem "A história lenta e ritmada do homem"
pp. 14-14  Acima dessa história imóvel, uma história lentamente ritmada, dir-se-ia de bom grado, não fosse a expressão desviada de seu sentimento pleno, uma história social, a grupos e dos grupamentos. Como é que essas ondas do fundo levantam o conjunto de vida mediterrânea? Eis o que me perguntei na segunda parte de meu livro, estudando sucessivamente economias e os Estados, as sociedades, as civilizações, tentando enfim , para melhor esclarecer minha concepção de história, mostrar como todas essas forças e profundidade agem no domínio do complexo da guerra. Pois a guerra, nós o sabemos, não é puro domínio de responsabilidades individuais.
Idem "A história ocorrencial (événementice) "
pp. 14-15  Terceira parte, enfim a história internacional, se quisermos, da história a dimensão do homem, mas do indivíduo, a história ocorrencial (événementice) de François Simiand: uma agitação de superfície, as ondas que as marés elevam em seu poderoso movimento. Uma história com oscilações breves, rápidas, nervosas. Ultra-sensível por definição, o menor passo põe em alerta todos os instrumento de medida. Mas que, sendo assim, é a mais apaixonante, a mais rica em humanidade, a mais perigosa também. Desconfiemos dessa história ainda ardente, tal como os contemporâneos a sentiram, descreveram, viveram, no ritmo de sua vida, breve como a nossa. Ela tem a dimensão de suas cóleras, de seus sonhos e de suas ilusões. No século XVI, após o verdadeiro Renascimento, virá o Renascimento dos pobres, dos humildes, encarniçadamente empenhados em escrever, narrar e falar dos outros. Toda essa preciosa papelada é assaz deformante, invade abusivamente esse tempo perdido, toma ai um lugar que não condiz com a verdade. É para um mundo bizarro, ao qual faltaria uma dimensão, que se vê transportado o historiador-leitor dos papéis de Felipe II, com 
  que sentado em seu lugar e porto; seguramente um mundo de vivas paixões; um mundo sego como um mundo vivente, como o nosso, despreocupado com histórias de profundidade, com essas águas sobre as quais nosso barco navega como o mais ébrio dos barcos. Um mundo perigoso, dizíamos, mas do qual teríamos conjurado os sortilégios e os malefícios havendo, previamente, fixado essas grandes correntes subjacentes, freqüentemente silenciosas, cujo sentimento só se revela quando se abarcam amplos períodos do tempo. Os acontecimentos retumbantes não são amiúde mais que instantes, que manifestações desses largos destinos e só se explicam por eles.
Idem "A decomposição da história em planos escalonados"
pp. 15-16  Assim chegamos a uma decomposição da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, à distinção, no tempo da história, de um tempo geográfico de um tempo social, de um tempo individual. Ou se preferirmos ainda, à decomposição do homem num cortejo de personagens. É talvez isso o que menos me perdoarão, mesmo se afirmo que os cortes tradicionais fracionam, também, a história viva e entranhadamente una, mesmo se afirmo contra Ranke ou Karl Brandi, que a história-relato não é um método objetivo por excelência, mas antes uma filosofia de história; mesmo se afirmo e mostro em seguida, que esses planos não pretendem ser mais que meios exposição, que não estou proibido, no caminho, de ir de um lado para outro... Mas de que serve pleitear? Se me reprovam por ter reunido mal os elementos desse livro, espero que se encontrarão os fragmentos convenientemente fabricados, segundo as regras de nossos canteiros de obras.
  Espero também que não me reprovarão minhas ambições demasiado largas, meu desejo a minha necessidade de ver em ampla escala. A história talvez esteja condenada a estudar somente jardins bem fechados por muros. Do contrário, não falharia em uma de sua tarefas presentes, que é também responder aos angustiantes problemas da hora, manter-se em ligação com as ciências tão jovens, mas tão imperialistas como são as ciências do homem? Pode haver um humanismo atual, em 1946, sem história ambiciosa, consciente de seus deveres e de seus imensos poderes? "Foi o medo da grande história qual matou a grande história", escrevia Edmond Faral em 1942. Possa ela reviver!

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