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História e Memória de Varginha - O mito do Comando Vermelho


Fábio Souza Corrêa Lima
Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF
Bolsista de Pesquisa da Fundação Instituto Oswaldo Cruz / Casa Oswaldo Cruz – FIOCRUZ / COC
Orientadores Fiocruz: Tânia Maria Dias Fernandes e Renato Gama-Rosa Costa


História e Memória de Varginha - O mito do Comando Vermelho

O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças as façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. (ELIADE, M., 1972: 11)

INTRODUÇÃO – CONSIDERAÇÕES GERAIS E OBJETIVOS DO ESTUDO

O presente artigo, baseado no trabalho de monografia, intitulada O poder Vermelho da casa Amarela, entregue no segundo semestre de 2005, resume dois anos de estudo acerca da temática de violência urbana e controle social, realizados no período de bolsa na Fundação Instituto Oswaldo Cruz. Tal pesquisa esteve inserida no projeto Manguinhos – História do lugar e das pessoas, onde os doutores Tania Maria Dias Fernandes e Renato Gama-Rosa Costa, coordenam o levantamento e registro da memória dos moradores das treze comunidades que compõem Manguinhos.
Nosso subprojeto concentra-se no esforço de contar a história da comunidade Parque Carlos Chagas (ou Varginha), abordando seu relacionamento com os moradores da localidade, o crescimento do tráfico de drogas no Rio de Janeiro e na comunidade nos anos 1980 e 1990 e a ausência do Estado em proporcionar as políticas públicas de direito às populações mais carentes. Para o subprojeto, desenvolvemos inicialmente um estudo aprofundado sobre as origens, tanto de Parque Carlos Chagas, em Manguinhos, quanto da facção criminosa mais conhecida do país, o Comando Vermelho.
Para contar a história da facção, e seu envolvimento com a comunidade vizinha à Fiocruz, buscamos na bibliografia de especialistas em violência urbana e controle social, como os sociólogos Michel Misse e Edmundo Coelho, e as historiadoras Vera Malaguti e Cátia Faria, o substrato necessário para conhecer as origens e o desenvolvimento do Comando Vermelho. Buscamos também em nossas entrevistas, levantar as memórias dos moradores da região sobre a violência em Manguinhos. Este interesse se deu no decorrer da pesquisa de Tania e Renato, quando nos deparamos com as histórias da existência de uma casa onde seriam realizadas reuniões dos grandes chefes da facção criminosa, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. A tal casa Amarela, segundo alguns entrevistados, seria o local onde eles fundaram um comando, uma organização criminosa meio que... como se funda uma associação de moradores: com estatuto, com ata, com livro e tudo mais[1]. Mas tarde, porém, ao aprofundarmos nossos estudos com a busca de fontes mais tradicionais, como bibliográficas, teses e periódicos, pudemos aferir que a pequena construção teria servido como um posto avançado de decisões que influenciaram não apenas o Complexo de Manguinhos, mas todo o Estado do Rio de Janeiro. O referido período de reuniões, é marcado pela mudança de rumos da facção criminosa, que, acuada pela grande repressão a crimes de roubo a bancos e seqüestros, decidiram pelo então fácil e lucrativo comércio ilegal de drogas. Enquanto a ditadura civil-militar, premida pela imprensa e pelas elites sociais, recrudescia a repressão contra os crimes individuais, os novos traficantes pouco gastavam com subornos, compra de armas e planejamento para alcançar lucros exorbitantes. A casa Amarela, até onde pudemos aferir, funcionou como um aparelho onde eram decididos os seqüestros, os assaltos a bancos, e, mais tarde, as invasões a outras comunidades, visando novos pontos de venda de drogas. Sua importância para o estudo da violência no Rio de Janeiro, mostra-se, portanto, no fato as casa Amarela ser o local, pelo menos em Manguinhos, onde o Comando Vermelho se transformou no que é hoje. Exatamente o período em que o país deixou de ser rota do tráfico de drogas e passou a figurar como mercado consumidor, como veremos adiante.
O título de nosso trabalho, aproveitando a perspectiva que adotamos sobre a definição de poder/Poder nas relações sociais, ressalta que O poder Vermelho, tem antes de tudo, o seu V maiúsculo por ser o Poder que a facção criminosa se pretende, mas, porém, o p minúsculo, por demonstrar o que ele realmente ainda é, com relação às funções e características intrínsecas ao um Estado Moderno. Da mesma forma, casa Amarela, nos mostra a importância que os moradores de Varginha apregoam a cor Amarelo, como quando ao revisitarem suas memórias sobre a comunidade, começam dizendo: ...aquela casa Amarela, a bendita casa Amarela...[2], ...a própria situação de violência da implantação do... chamado Comando Vermelho...[3] adjetivando sempre com duas cores, todas as suas memórias sobre a violência em Manguinhos, a partir daquela pequena casa no meio da favela Varginha.
No centro deste trabalho está, portanto, o mito do Comando Vermelho na casa Amarela, onde destacamos a construção das memórias de atores sociais, moradores de comunidades carentes ou não, que contam histórias de verdadeiros Entes Sobrenaturais (ELIADE, M., 1972: 11) que deram origem a um circuito de violência no Rio de Janeiro, baseado no tráfico de drogas. Desta forma, julgamos mais conveniente estudar as origens, baseando-nos na idéia de Catherine Backès-Clemente, ao afirmar que O mito revela o “antes” da história, mas antes “havia” o mito!... (BACKÈS-CLEMENT, C., 188: 311). Por outro lado, etimologicamente, o mito narra efeitos lendários de seres fantásticos ou sagrados, mas também, pode ser usado como solução ideal para conflitos que não podem ou não devem ser solucionadas no plano real. Partimos então com idéia de desvelar essas histórias sagradas, que delineiam as identidades de pessoas de comunidades carentes de Manguinhos e também de todo o Rio de Janeiro.
Ao nos basearmos nos relatos dos moradores de Varginha e na crença popular de origem do Comando Vermelho, abordamos produções literárias que exaltam um banditismo-social Hobin Hood, onde está presente a idéia de que houve um período heróico (AMORIM, C., 2004), onde os bandidos ajudavam a comunidade e não a usavam como escudo contra a polícia.
A História Oral, durante toda essa experiência de trabalho na Fundação, funcionou como um perfeito método para aferirmos dentro da memória popular todo o conteúdo que buscávamos sobre a temática de violência urbana e controle social. A proximidade que conseguimos, ao entrevistarmos pessoas que participaram ou testemunharam determinados acontecimentos e conjunturas, nos forneceu informações que jamais disporíamos em uma abordagem tradicional.
Não só por condição das entrevistas, mas também por respeito a memória ainda viva sobre a violência no cotidiano dessas pessoas, não apenas em Varginha, mas também em todas as comunidades carentes do Rio de Janeiro, trabalharemos com uma identificação parcial de alguns depoentes neste trabalho, que encontra-se disponível no Departamento de Pesquisa da Casa Oswaldo Cruz.



O poder Vermelho da casa Amarela
O mito do Comando Vermelho em Manguinhos e no Rio de Janeiro

Durante os anos de ditadura militar no Brasil, o recrudescimento das ações armadas de esquerda contra o governo, gerou uma reação militar drástica. A nova Lei de Segurança Nacional, aumentou as penas e introduziu a possibilidade da pena de morte no julgamento de assaltantes de bancos, seqüestradores e terroristas, sem distinguir aqueles que tinham motivação política, dos demais contraventores. Colocaram todos na mesma penitenciária, em Ilha Grande. Lá os presos comuns aprenderam com os políticos a se organizar como facção criminosa. Nos últimos anos antes da anistia,

a própria situação de violência da implantação do... do... chamado Comando Vermelho, de toda aquela situação de violência crescendo nos presídios, né, quando se misturou preso político com preso comum... e eles trocaram informações e começaram a estruturar o crime organizado... começaram a organizar o crime e havia situações que transbordaram desse presídio, e a Varginha, ela foi palco de reuniões assim, onde o alto comando do crime se reuniu para tomar decisões que iriam nortear toda essa organização do crime[4].

A Varginha, ao lado da Fiocruz, fica bem no meio das outras treze comunidades que juntas compõem o Complexo de Manguinhos. A ocupação da área, conta-se que iniciou nos anos 40, sem também sabermos a procedência das pessoas que ali construíram seus barracos. Apesar de décadas de ocupação, até pouco tempo...

...isso aqui era um matagal, capim era muito grande, agente tinha até medo de passar aqui pra dentro, que aqui tinha uma... umas histórias de umas pessoas que andavam pegando umas pessoas... agente tinha medo, isso tudo era mato[5].

Na região, isolada por dois rios, os barracos ocuparam totalmente uma das laterais, ocuparam também as margens do Faria-Timbó e Jacaré, e a extremidade da área. Os moradores passaram a sonhar com a construção de uma escola de samba, uma praça e um campo de futebol na comunidade, porém, a ocupação desordenada e a falta de dinheiro impediram o desenvolvimento dos sonhos da comunidade. Contudo, esse impedimento foi apenas dos sonhos. Outras coisas se desenvolveram bem em Varginha.
No centro dessa favela, uma pequena casa Amarela voltada para o interior da própria comunidade, servia como local de reunião de bandidos. Durante os anos em que os presos políticos e comuns estiveram encarcerados juntos, houve troca de informações sobre táticas de guerrilha e organização usadas pelos militantes da esquerda. Com o aprendizado, aqueles que conseguiram escapar, passaram a enviar dinheiro para uma espécie de fundo que financiava a fuga de outros marginais. A organização desses presos ainda dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande, pode ser exemplificada de várias formas:

O Comando Vermelho funda e controla o Clube Cultural e Recreativo do Interno (CCRI), entidade única na história do sistema penal do país. O grêmio administra a cantina onde os presos sem recursos podem comprar fiado, do cigarro à cachacinha e – dizem – até maconha. Dinheiro emprestado também não é problema para os membros da organização, que preparam uma caixinha, um fundo de aplicações que recolhe contribuições voluntárias. Aos poucos, gente de outras galerias também começa a participar. E o “mundo livre”, do “continente”, vem dinheiro também. (...) O Clube Cultural e Recreativo do Interno (até parece nome de escola de samba) organiza uma farmácia que atende a quem pode pagar por remédios. E quem não pode entra no “livro de favores”. Paga quando puder –ou fica “devendo um favor”. (...) Mas o grande achado dos líderes do grupo é a criação de um time de futebol dos internos, o Chora na Cruz. (...) Por incrível que pareça, um jornal passa a circular no presídio: O Colonial, numa referencia à antiga Colônia de Dois Rios. (AMORIM, C. 2004: 129-131).

Mesmo com a unidade dentro das cadeias, com os anos, continuaram a existir outras várias quadrilhas com atividades e lideranças diferentes nos presídios e nas ruas do Rio de Janeiro. Algumas dessas quadrilhas, sob o signo dos ensinamentos obtidos com os militares de esquerda assentaram seus negócios em Varginha. As reuniões dos bandidos, sediadas na casa Amarela, buscavam planejar, pelo menos, inicialmente, apenas os seqüestros e assaltos a banco. Um pote de pó branco[6] na sala, centralizava a roda de discussão daqueles homens que apesar da organização absorvida, não se afastaram de velhos hábitos como o consumo de drogas. As reuniões, eram quase sempre a chance de encontrar as pessoas realmente importantes dali e rir um pouco da própria miséria. Eram bons homens aqueles; enquanto a polícia enfiava o pé nas portas equilibradas em arames enferrujados, eles ajudavam com tudo aquilo que o Estado dizia ser o direito dos cidadãos.

Marcelo Xará cansou de comprar casa para quem não tinha. Comprava também botijões de gás, remédios, dava dinheiro.... Marcelo não gostava de violência não... só era violento com que vacilava com ele[7].

(...)

A intenção era entrar em todos os buracos deixados pelo Estado, fazer tudo que o Estado não faz... (Notícias de uma guerra particular. SALES, J. M. e LUND, K, 1999)

(...)

Há histórias de que... de mulheres que casaram com bandidos e que só foram ficar sabendo muito tempo depois, porque o homem dentro da sua casa era bom, era legal. Ele saía para trabalhar todo dia, então era: “Ah, eu vou fazer um trabalho de segurança...” ou “Eu trabalho à noite porque sou vigia..” e recebia um ótimo salário e a mulher não sabia. Porque dentro da sua casa ele não era o bandido, ele não andava armado, ele era uma pessoa íntegra[8].

Enquanto a polícia não consegue distinguir trabalhador de traficante, quem mora na favela é tratado como bandido. Eles humilham os moradores, destroem suas portas, invadem suas casas, espancam seus pais e filhos e roubam seus eletrodomésticos.

O tráfico, melhorou, do outro lado não. Porque antes de existir o tráfico, a polícia quando entrava na favela, ela já entrava metendo o pé na porta da sua casa, já vinha quebrando tudo... então essas armas na comunidade através do tóxico, fez com que a polícia entrasse com cautela, entendeu? Andam com medo, eles andam com medo, por que ta sabendo... que podem matar um. (Notícias de uma guerra particular. SALES, J. M. e LUND, K, 1999).

Como não achar que o traficante protege sua comunidade? Vários bandidos já fizeram isso. Por exemplo, teve uma vez que

o Marcinho VP estava na Varginha em uma das reuniões mais importantes que tiveram, uma das mais famosas e ele foi o cara que mais levantou essa coisa de bandido-social. Ele foi fazer um “tour” pela América Latina no meio dos guerrilheiros e voltou mais forte ainda com esse discurso de que o bandido, na verdade, é quem protege sua comunidade[9].

Variados grupos participavam das reuniões na casa Amarela; planejavam tudo, desde como andavam as suas relações dentro da favela, até os seqüestros e assaltos... eu fazia as plantas.... a velocidade do carro, quanto tempo iria demorar para fazer o assalto, eu via isso muito bem[10]... como dividiriam o dinheiro... tudo aprendido na cadeia de Ilha Grande... muitas pessoas não acreditam nesta história, mas

Em 10 de março de 1981, quinze homens com armamento sofisticado atacam o Banco Nacional de Parada de Lucas, Zona Norte do Rio. Na fuga, outra novidade: os três carros que levam a quadrilha são seguidos por um quarto, que não participou da ação. Nele, um bandido opera um rádio-trasmissor da mesma freqüência que o da polícia. Não só fica sabendo onde estão as barreiras policiais, como passa pistas falsas e provoca a maior confusão na perseguição. Informa que os assaltantes estão num determinado local, quando na verdade em outro muito diferente. Um despistamento típico da luta armada revolucionária aprendido nas longas conversas no “areão” e nos corredores da Galeria LSN[11]. Os carros da polícia ficam como baratas tontas, até que o Centro de Coordenação de Operações de Segurança (CCOS) impõe silêncio no rádio. O bandido fica falando sozinho, e as ordens que ele dá não são mais seguidas. Ao abandonar o carro na fuga, o transmissor é deixado sobre o banco do motorista. (AMORIM, C. 2004: 62-63)

Os Jornais confirmam isso, o O Globo, publicou uma notícia na época que dizia:

Fica claro que a sua sofisticação [dos bandidos da quadrilha do Zé do Bigode [um dos líderes do Comando Vermelho] não se limitava ao tipo de armamento que usavam: sua periculosidade era, em conseqüência, muito maior. Usavam técnicas da guerrilha, codificadas, na década de 60, por Mariguela e Guevara. Aprenderam-nas, certamente, na cadeia, onde conviveram com terroristas de esquerda. (AMORIM, C. 2004: 93-94. O Globo, editorial, 8 de abril de 1981)

Mas não só nessas leituras se basearam os integrantes do Comando Vermelho, o aprendizado com os militantes, chamados de presos políticos, foi mais longe.

Outra publicação, fundamental para a formação de grupos armados, percorreu as galerias da Ilha Grande: Guerra de Guerrilhas, do papa da luta armada na América Latina, “Che” Guervara. (...) Guerra de Guerrilhas foi o mais completo manual para operações irregulares que se tem notícia. Foi Preparado tomando por base a própria experiência do Comandante Guevara em Sierra Maestra, durante a revolução cubana, além das lutas que ele ajudou a organizar no Congo, região central da África. O manual do “Che” era explícito quanto a escolha do armamento para as unidades de guerrilhas: no campo ou na selva, armas de precisão e de longo alcance, capazes de surpreender o inimigo nas emboscadas, antes que pudesse se aproximar; nas cidades e nas zonas periféricas, armas automáticas de disparo rápido, especialmente as metralhadoras e pistolas. Granadas, bombas e armadilhas –segundo “Che” – eram fundamentais. Hoje os “soldados vermelhos” usam fuzis de longo alcance no alto das favelas, de onde podem atingir a polícia sem serem vistos. Nas áreas onde podem ser surpreendidos, usam pistolas e metralhadoras, granadas e armadilhas. (...) Os presos comuns do “fundão” tiveram contato também com textos clássicos da literatura marxista. O Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, em 1948, e A concepção materialista da história, do russo Afanassiev, fizeram parte de planos de estudos dentro do presídio. Outros livros da literatura básica do marxismo também foram lidos: A história da riqueza do homem, do historiador Leo Hubberman, e Conceitos elementares de filosofia, de Martha Hannecker. Os prisioneiros políticos empregavam nesses grupos um método definido: alguém era escolhido para ler um capítulo e fazer depois um relatório em voz alta –a seguir, havia uma discussão coletiva. Muitas vezes os presos comuns da Galeria LSN entravam nos grupos. Outras vezes organizavam eles mesmo a discussão. (AMORIM, C. 2004: 93-94)

O convívio com os presos políticos trouxe também a eles a experiência de guerrilha necessária para saber como se esconder nas favelas, saber como deveriam se organizar para que ficassem mais fortes.

A preocupação das organizações de esquerda em formar uma rede de “aparelhos” também foi incorporada ao crime. Casas são compradas ou alugadas em vários pontos, próximos à operação de venda de drogas (...) Em geral, esses “aparelhos”, ou “paióis”, têm a fachada absolutamente discreta de residências pacatas ou pequenos negócios. Ficam nas áreas vizinhas as grandes favelas (...) Locais de rápido acesso para transferir a droga ou simplesmente passar uma noite em segurança. (AMORIM, C. 2004: 90).

Durante a ditadura, como resultado da sensibilidade do governo militar às manchetes daqueles que a apoiavam, a repressão aos seqüestros e assaltos à banco, seguiu aumentando. A imprensa utilizando-se de suas prerrogativas, refletia a irritação da elite brasileira contra a inércia do Estado no combate aos bandidos e aos subversivos. O investimento em policiamento e novas técnicas não tardou a acontecer, políticas de prevenção contra as ações de seqüestro e assaltos começaram a ser tomadas pelo Estado. Agora, dificilmente um banqueiro, ou mesmo alguém rico, andava pelas ruas ou tinha seus estabelecimentos desarmados de segurança. Aqueles que assaltavam bancos, logo perceberam que o planejamento minucioso, o roubo de carros e a participação de muitos comparsas no empreendimento gerava sempre menos lucro do que a imprensa noticiava que os banqueiros haviam perdido. Era necessário conseguir mais dinheiro para se manter, para comprar armas, financiar as fugas de colegas ainda presos, ajudar as famílias dos encarcerados ou dos que morreram tentando tocar o negócio para frente, enfim, era necessário se manter no poder.
A situação de aperto policial e financeiro, mudou com um convite vindo de fora do Brasil: Que tal deixar de ser rota de tráfico de drogas para Europa e passar a ser o próprio mercado consumidor? O convite proposto pelo cartel de Cali e Medelin, juntamente com a exigência de que o Comando Vermelho tomasse a cidade de assalto, distribuindo drogas a preço de custo para criar mercado no Rio de Janeiro. Desde então o tal pote com pó branco, no meio da casa Amarela agora, verdadeiramente, ocupara o centro da discussão daqueles homens. A partir daí, baseados na experiência de guerrilha que conseguiram com os presos políticos, eles fundaram um comando, uma organização criminosa meio que... como se funda uma associação de moradores: com estatuto, com ata, com livro e tudo mais.[12] Eles sabiam que a organização que aprenderam gerava a força necessária para o domínio de todo Estado Fluminense, e por isso mesmo, sabiam que para melhor governar, era necessário resolver com quem ficaria cada área da cidade. Não é atoa que dizem que o Comando Vermelho surgiu de ex-presos que se destacaram por sua inteligência.

Aquele Gordo, que ficou com a Zona Sul, aquele cara dava a volta no rato, ele era muito inteligente. Eu, particularmente, era apaixonada por... de ver eles conversando. (...) Na época, eu me lembro que o Dino ficou responsável por assumir Niterói. O Meio Quilo ficou na área aqui. O Denis ficou em Acari, se eu não me lembro (sic), e o Marquinho ficou responsável pela área do Estácio, Rio Comprido, ali. O meu cunhado ficou responsável pela Mangueira, (...) o Gordo ficou com a zona sul (...)[13]

Esses bandidos notaram que dominar, através das drogas, todo o Estado era mais difícil do que parecia, afinal, os outros quadrilheiros também começaram a transar drogas e não queriam perder seus territórios de comando. As guerras pelo comando da Penitenciária Cândido Mendes extrapolaram os muros e chegaram às favelas e morros cariocas. Nenhum homem que se identifica com uma falange ou outra, poderia mais transitar indiferente pelas favelas do Rio de Janeiro. Mais uma vez a casa Amarela, em seu local de fácil acesso para quem conhecia a favela, oferecia, além de um depósito de armas e drogas, também um bom lugar de refúgio.
A partir da casa Amarela, as teorias de como iriam dominar os melhores pontos da cidade transformavam-se em práticas. A idéia era atrair pessoas, criar ...um mercado, atrair o mercado consumidor[14]. É claro que a partir daí, as primeiras comunidades a sofrer com as guerras pelos pontos de venda de drogas foram as mais próximas. O Conjunto João Goulart, a Vila Turismo, a Vila União e o Conjunto Habitacional Provisório (CHP-2), todas surgidas da década de 1950, foram palco das primeiras invasões coordenadas de dentro da casa Amarela. Esta última comunidade, onde é sediada a Escola de Samba Unidos de Manguinhos, perdeu a freqüência de pessoas que participavam de suas atividades de lazer, pois, foi proibido pelos traficantes o trânsito de pessoas de Varginha –e vice versa–, na área. Contudo, a intenção de expandir e dominar o maior número de pontos de venda possível, não deteve os traficantes às comunidades circunvizinhas. Havia uma visão empresarial de buscar mercados com potencial de consumo, que com os anos atingiram as classes mais abastadas, nos lugares de ensino como as universidades públicas.
Em 1993, já havia quatro bocas de fumo em um só campus da Universidade Federal Fluminense. O campus do Valonguinho não tinha seguranças armados e o Instituto de Química, os espaços em frente ao Associação de Servidores da UFF e em frente ao Diretório Central dos Estudantes, já estavam tomados. Contudo O Globo informou que o “QG do Comando Vermelho” ficava atrás da casa de força, próximo ao prédio de Física. -Eles descobriram que o campus é um mercado rentável e seguro, porque as Polícias Civil e Militar não sobem aqui. E agora estão disputando esse território[15].
Assim, através daquela divisão, o Comando Vermelho não se deteve em buscar por mercados consumidores, simplesmente próximos a Varginha. A intenção era vender, Por isso Rocinha, Santa Marta, Mangueira, favelas de acesso de tradição, lugares de acesso de tradição, porque são lugares que têm samba, que têm movimento, que as pessoas conhecem... ...a Mangueira é próxima da UERJ...[16]. Um ponto ótimo, não? Cheio de pessoas que tem dinheiro para gastar no consumo de drogas. Foi por isso que

o Gustavo é que estava de cumplicidade com eles aqui e traindo a Mangueira. Na verdade, o Gustavo estava traindo... traiu feio a Mangueira. Morreram 21 pessoas no... no carnaval de 1994. Foi o pior dia da minha vida. Eles se reuniram aqui, organizaram a invasão da Mangueira... Eles perguntavam: “Quantas entradas tem a Mangueira, I.? “Eu falava: “Olha, várias. Tem uma ‘boca’ aqui, uma ‘boca’ ali, uma ‘boca’ acolá”, e tal... Eles cercaram todas as entradas da Mangueira. Eu chorei muito nesse dia. Porque as pessoas vão te perguntando, você vai respondendo, né? Aí, depois, a pessoa te diz: “Olha, não vai à Mangueira hoje.” E eles escolheram para invadir a Mangueira na hora do desfile. Muita covardia! (...) ...21 pessoas em menos de 10 minutos... [17]

A venda de droga se mostrou mesmo uma boa saída. Pouco se gastava com a polícia no final da década de 70, e na década de 1980, pois os gastos com subornos e compra de armas, não eram tão necessários. A diminuição dos índices de assaltos a bancos e seqüestros eram mais importantes à imprensa. De uma hora para outra, finalmente os bandidos puderam deixar de assaltar os banqueiros, o que diminuía a pressão da elite, através da imprensa, sobre o Estado. Puderam também aliviar os gorduchos policiais que não agüentavam correr atrás dos mal nutridos marginais, gozar do poder que tiravam da recente tranqüilidade que essa mudança gerava na favela, e ainda, gastar a vontade sobre o lucro exorbitante agora alcançado. Essa situação que oferecia relativa segurança aos favelados e era de pouca importância aos jornais, perdurou durante muito tempo, excetuando é claro, as guerras entre as quadrilhas pelo controle dos morros e, consecutivamente, seus pontos de venda de drogas.
Contudo, a medida que a marginalidade voltou a atingir as elites sociais, levando seus filhos à demência das drogas e ameaçando a Ordem Social com lucros cada vez maiores, a polícia novamente começou a bater à porta das favelas. O trafico de drogas respondeu com a forma que julgaram necessária, invasão de outros morros, mortes confrontos, arrego[18] aos policiais, compra de armas mais potentes, uma organização hierarquizada... Aqueles bandidos não tinham mudado só de especialidade, mas também de práticas e postura. A cada nova onda de repressão contra os traficantes, eles respondiam com mais violência nas favelas, demarcando seus territórios, aumentando o conflito com os policiais e outros quadrilheiros, chamados de alemães[19].

Agora é... o bandido naquela época era um bandido que ele não... usava como escudo ainda... não tão declaradamente, a comunidade. Era um bandido que ele operava na rua e só tinha confronto dentro da comunidade, na medida que a polícia entrava na comunidade, aí ele se escondia. Mas ele... hoje em dia, o bandido usa a comunidade como escudo, antes não. Então ele tinha uma responsabilidade meio que social[20].

Enquanto a ditadura estava começando a dar sinais de cansaço e impopularidade, atribuía-se toda aquela movimentação do tráfico à ressurgência das organizações guerrilheiras de esquerda. A imprensa começou a designar o termo Comando para as ações sempre bem armadas dos traficantes, enquanto o Vermelho, é assumido pelos próprios traficantes, por conta das experiências com os comunistas da penitenciária de Ilha Grande. O projeto de sobrevida do regime, que apontava os revolucionários de 1964 como os únicos capazes de debelar tal situação em que os vermelhos novamente ameaçavam o país, não reanimara a população, que reagia aos discursos com antipatia.
Contudo, o processo de abertura política, apesar de retardado, era irreversível. A anistia aos presos políticos tirava os militantes de esquerda dos presídios e devolvia a elegibilidade aos políticos de carreira. A economia brasileira passava a enfrentar o recesso do breve período de milagre, ao passo que os traficantes responderam com lucros altíssimos na transformação do país em um dos maiores mercados consumidores de drogas do planeta. Na primeira eleição direta para governador do Estado do Rio de Janeiro, acontecida com o processo de abertura do regime, apesar das tentativas infrutíferas da imprensa de deter sua candidatura, Brizola, um legítimo representante da esquerda brasileira, se elege com o voto maciço dos favelados. Por mais que a imprensa respondesse ao acinte dos favelados com uma verdadeira perseguição ao novo governo, identificando-o como conveniente a ação dos traficantes, Brizola retribuía aos seus eleitores com uma política humanitária que proibia a entrada da polícia nas favelas sem mandado e objetivo específico, e prometia reformas que trouxessem um mínimo de conforto aos favelados.
A ação do governo em Manguinhos, ficaria então representada pela intervenção em Varginha, de onde o Estado parecia saber que irradiava toda aquela violência. Mesmo antes de eleito, Brizola começou um censo que identificava a quantidade de favelados e todas as mazelas que deveriam ser dirimidas no Rio de Janeiro. Desde então

a polícia assediou fortemente e o (...) Estado entendeu que tinha que fazer alguma coisa, mexer no físico, pra desarticular essa situação da Varginha. E aí... quando se mexeu nesse físico e se tirou duas faixas de... de... de barracos ao longo dos rios, das margens dos rios Jacaré e Faria-Timbó, deu uma mexida realmente. E ela se tornou uma uma... ela... ela... se tornou dormitório. Porque aí as ruas ficaram largas, de fácil acesso. Então agora um carro entra na margem do Faria-Timbó, circula onde era a Ilha das Cobras e sai pela margem do Jacaré. A rua Carlos Chagas ficou é... é... ela já era larga, já era definida, ela ficou assim fácil de transitar e o número de becos, eles ficaram muito curtos. Porque os becos vão da [rua] Carlos Chagas para a pista do Faria Timbó. Eles ficaram curtinhos, da Carlos Chagas você vê a pista. Então eliminou muito esse... esse... essa facilidade de estar circulando[21].

(...)

Podia-se escapar na Varginha sem nem sair dela. A não ser que houvesse uma operação que cercasse os três acessos. (...) Podia-se sair num beco, entrar no outro... circular né?! Quem tá perseguindo tá vindo atrás, não vai ver se entrou no outro... tinham vários bequinhos que cortavam essa margem aqui toda e, facilitavam a fuga[22].

(...)

À medida em que as ruas ficam largas, não têm barracos pra se esconder... uma pergunta que [se] faz: se as pessoas que... elas estimulavam a ação do tráfico. Não, é o lugar! Então quando o governo vem e tira as casas das margens do rio, alarga as ruas, diminui o espaço físico da Varginha, não tem mais como o tráfico se esconder![23]

No prazo de 10 anos, em duas intervenções urbanísticas, a primeira com o Brizola e a segunda, através do município, na gestão de César Maia, três ruas foram asfaltadas: a primeira corta a comunidade ao meio e leva diretamente até a porta da casa Amarela, as outras duas correm as margens dos rios, unindo-se numa praça concretada. Um escorrega, um balanço e uma mesinha, complementam a intervenção que pouco ofereceu de paisagística, mas que porém, foi de uma eficiência repressiva contra o Comando Vermelho que nenhuma arma de fogo jamais teve. Os becos que ligavam um lado a outro da favela, mais tarde foram fechados e depois ocupados por outras casas. A Varginha deixaria de ser esconderijo para traficantes para se transformar em uma intervenção-modelo para o Governo Estadual de Brizola e a prefeitura de César Maia, com o Favela-Bairro.
O Poder Público resolveu assistir todo o Complexo de Manguinhos, construindo em Varginha, uma creche, uma Casa Comunitária, um Centro Comunitário de Defesa da Cidadania (CCDC) e um CIEP (Juscelino Kubitscheck). Mais tarde, veio a construção de um Centro Municipal de Atendimento Social Integrado (CEMASI), juntamente com uma edificação destinada a Associação de moradores, finalmente garantiu um status de comunidade à Varginha. Apesar das obras se mostrarem eficientes para atender as carências de todo Complexo de Manguinhos até o início da década de 1990, outras comunidades surgiram fazendo com que todo trabalho ficasse pormenorizado diante de tanta gente favelada.
Porém, nenhuma outra obra de infra-estrutura e saneamento básico foi realizada, e mesmo em Varginha

as obras de saneamento não foram concluídas, a paviment... a ruas, elas são meio que por conta do morador, se tá esburacada o morador vai lá e conserta... a instalação de água, esgoto, luz, é tudo muito precário. Porque a preocupação do governo do estado foi acabar com o tráfico na Varginha[24]

e não de reformar aquela área, criando opções de emprego e lazer para todos. Mesmo assim a comunidade foi redirecionada à cidadania, pois com o CCDC, vieram acesso a advogados e a justiça. Os traficantes não mais decidiram sobre suas vidas. Infelizmente, o emprego e as opções de lazer não foram estimuladas e o comércio, esse praticamente não existia ali. Mesmo com todos esses aparelhos sociais, Varginha tornou-se o que os próprios moradores chamavam de “comunidade dormitório”, onde as pessoas saem pela manhã para trabalhar, deixam seus filhos na creche e voltam a noite apenas para dormir. Não há empregos em Varginha porque não há comércio. A distância de outras escolas leva o jovem apenas até à oitava série, já que no CIEP de Varginha não há ensino médio. As relações sociais entre os moradores são poucas, pois não há uma opção de lazer que auxilie em uma congregação nos fins de semana. Apenas as igrejas cristãs separam os “de Deus” dos “do mundo”. O tráfico de drogas e a violência acabaram em Varginha.
Com mais de setenta porcento dos pontos de venda de drogas no Rio de Janeiro e com a polícia tendo fácil acesso a Varginha, era óbvio que a casa Amarela não poderia ser mais utilizada pelos bandidos e que o deslocamento para qualquer outra favela seria igualmente fácil aos traficantes. Mangueira, toda a zona sul, zona norte, baixada, Niterói... ou mesmo qualquer outra das 13 comunidades do Complexo de Manguinhos... qualquer lugar poderia abrigar também outras casas que oferecessem segurança para os narcotraficantes e para suas armas, drogas e planos. À medida que o mercado consumidor dos produtos do Comando Vermelho aumentava, já nos anos 1980, outras casas eram ocupadas em outras comunidades e utilizadas da mesma forma que a casa Amarela.

Março de 81 (...) reservava notícias desagradáveis para a polícia. Farta correspondência de presos da Ilha Grande é encontrada num barraco do Morro do Adeus, em Bonsucesso, subúrbio do Rio. Na casa de Maria José Ferreira da Silva, documentos apreendidos mostram que a organização usa um código para se comunicar: o alfabeto congo, um conjunto de sinais e ideogramas que garante um correio seguro. Um mês inteiro foi necessário para decifrar o código do Comando Vermelho. (AMORIM, C., 2004: 163)

Casas como aquela Amarela, multiplicaram-se pelo Rio de janeiro e estão em funcionamento hoje, em qualquer lugar onde o Estado ainda não consegue chegar com as suas “intervenções urbanísticas”. Principalmente onde não consegue, ou não quer escolas e hospitais. Onde a polícia, após o Governo Brizola, voltou a invadir casas e humilhar pessoas, gerando descrença no papel do Estado, em proteger os cidadãos, ficando uma pergunta: os favelados são cidadãos? O que se sabe que se o Estado não manda nas favelas, o tráfico o faz ao seu modo.
A casa Amarela, na comunidade de Varginha, permaneceu como um paralelo entre a história de inércia do Estado e a recente ocupação dos traficantes em lugares onde o poder público não consegue, ou não quer, estar.
Ainda hoje, os moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro, esperançosos de que obras públicas possam trazer algum alívio para suas vidas, acreditam piamente nos novos modelos de intervenção que julgam transformar as favelas em bairros, como sempre quiseram. Porém, por ignorância, não sabem que os novos programas de melhoria das condições de vida dos favelados, insistem num erro já cometido; esquecem que esses cidadãos tem direitos que vão além de uma relativa segurança, e que também perpassam a educação de qualidade, um bom emprego, uma moradia higiênica e lazer das crianças. Esquecem que tudo que os favelados fazem é assistir TV, e querem as mesmas coisas que todo mundo quer ter, e para isso falta dinheiro a quem ganha apenas um salário mínimo. O Estado sempre ignorou os favelados, tratando-os sistematicamente como marginais, para que a vida dos cidadãos corresse calma e pacífica.



MANGUINHOS
Manguinhos é uma região da Zona Norte, Capital do Estado do Rio de Janeiro. Próxima a Baía de Guanabara e a Fiocruz, as treze comunidades que ficam entorno da Fundação, são cortadas pelos Rios Faria-Timbó, Jacaré e o Canal do Cunha. Essas vias recebem os esgotos in natura de Manguinhos e de dezenas de outros bairros por onde passam anteriormente, antes de desaguar na Baía de Guanabara. Por conta disso, os rios que passam por Manguinhos são considerados a segunda maior fonte poluidora da Baía de Guanabara[25].
Segundo os historiadores Tania Fernandes e Renato Gama-Rosa, até os anos finais do século XIX, a região era ocupada exclusivamente por fazendas que produziam gêneros alimentícios para o abastecimento da Cidade. Em 1899 foi instalado em uma das fazendas, na propriedade de Rosa Alexandrina de Freitas, o Instituto Soroterápico[26], que enfrentou durante os primeiros anos, dificuldades de deslocamento de seus funcionários, dado o distanciamento do centro da cidade, onde se localizava a mão de obra necessária para o funcionamento da instituição.
A divisão do Grande Rio de Janeiro em grandes zonas, por influência do urbanista francês Alfred Agache nos anos 1920, entendia que o zoneamento como instrumento de planejamento urbano, para além da preocupação com a indústria, também deveria contemplar áreas como a Zona Central e Comercial, a Zona de Residência, a Zona Suburbana e a Zona de Espaços Livres e Zonas de Reservas Arborizadas.
A região de Mangue (naturalmente, de onde se origina a expressão Manguinhos) destinada à Zona Industrial deveria sofrer então uma série de intervenções, como aterramentos, construção e abertura de pontes e ruas, pois, embora fosse regularmente servida de rede elétrica, e até viação urbana, ainda carecia de redes de água, esgoto e farta mão-de-obra local suficientes para receber as indústrias. Esta última dificuldade, segundo o que também foi abordado por Valladares, no livro A invenção da favela. Do mito de origem a favela.com., foi superada com a reforma urbana de Pereira Passos, que apelidada de bota-abaixo, extirpou do centro da cidade os cortiços e demais moradias consideradas anti-higiênicas. Assim como nos dias atuais, as possibilidades de emprego são maiores para aqueles que residem próximos ao centro e zona sul da cidade. Dessa forma, grande parte da população despejada dos cortiços do centro do Rio de Janeiro, procurou construir suas casas o mais perto possível dos seus empregos. O Instituto, assim como outras empresas e indústrias que viriam a ocupar Manguinhos, se beneficiaram deste aumento da oferta de mão-de-obra, que favoreceu a implantação das primeiras comunidades denominadas parques proletários (Parque Oswaldo Cruz (1903) e o Parque Carlos Chagas (1941)).
A intervenção em Manguinhos foi iniciada no ano de 1922, e enquanto o aterramento era realizado, nas décadas seguintes, a área continuou em evidência nas propostas de urbanização e ocupação da região. A Empresa de Melhoramentos da Baixada Fluminense responsável por urbanizar a região, transformando seus pântanos e áreas alagadas em terrenos secos, salubres e irrigáveis, além de permitir o povoamento sistemático de toda aquela região, aterrou os mangues, corrigiu trechos do leito da Leopoldina, retificou e desobstruiu rios Jacaré e Faria-Timbó e abriu canais, visando a ocupação dos subúrbios.

Figura I

Caixa de texto: Manguinhos no início do século XX. A área em azul, representa a Baía de Guanabara e em amarelo, o continente. O Instituto Oswaldo Cruz (atual Fiocruz), aparece de marrom, cortada pela Estrada de Ferro Leopoldina. Os rio Jacaré e Faria, como existiam antes de sua retificação. A área em abóbora, representa a primeira comunidade de Manguinhos, Parque Oswaldo Cruz. Fiocruz. Departamento de Preservação e Arquitetura. Mapa de Alexandre Pessoa. 2003.


Em síntese, o processo de ocupação pode ser dividido em cinco etapas durante todo o século XX: 1901, Parque Oswaldo Cruz ou Morro do Amorim.; 1940, Parque Carlos Chagas ou Varginha; 1951-1955, Parque João Goulart, Vila Turismo, Conjunto Habitacional Proletário II – CHP2 e Vila União; 1983-1988, Comunidade Agrícola de Higienópolis e Vila São Pedro; 1990-2005, Conjunto Habitacional Nélson Mandela, Conjunto Samora Machel, Mandela de Pedra, Conjunto Samora II ou Embratel e Comunidade Vitória de Manguinhos ou Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).



PARQUE CARLOS CHAGAS OU VARGINHA
A história da comunidade Parque Carlos Chagas, segunda comunidade mais antiga de Manguinhos, está intimamente ligada a série de intervenções que sofreu toda a região para sua transformação em Zona Industrial. A comparação entre a Figura I e a Figura II, nos mostra o quanto a área foi modificada, principalmente, os rios Jacaré e Faria-Timbó, minimizando a região de mangue e proporcionando melhor acessibilidade para os serviços de água, esgoto e transporte no perímetro. A iniciativa pública intervenção na região criou ao lado do Instituto Soroterápico Federal (hoje, Fundação Instituto Oswaldo Cruz) uma região mesopotâmica, que assumiu características próprias em sua origem e relacionamento com as demais comunidades de Manguinhos.
Entre os rios Jacaré e Faria que atualmente se unem na extremidade da região, seguindo em direção ao Canal do Cunha, essa comunidade tinha ainda a sua frente uma grande propulsora de ocupação, a Estrada de Ferro Leopoldina[27], aberta em 1886 e a Rua Leopoldo Bulhões, em 1941.

Figura II

Caixa de texto: Manguinhos na década de 1940 (antes da Construção da Avenida Brasil). Retificação dos rios Faria-Timbó, Jacaré e do Canal do Cunha. Diminuição do terreno da Fiocruz, aterramento da Baía de Guanabara e surgimento de Varginha. Fiocruz. Departamento de Preservação e Arquitetura. Mapa de Alexandre Pessoa. 2003.
Ainda em 1941, saindo da Rua Leopoldo Bulhões, é aberta uma pequena rua que corta ao meio a área delimitada pelos rios recompostos. Esta via, em homenagem ao renomado cientista brasileiro do Instituto Oswaldo Cruz, recebe o nome Rua Carlos Chagas. Tal foi a importância da abertura dessa pequena rua, que juntamente com a Rua Leopoldo Bulhões e a linha ferroviária, foram definidos o nome da comunidade (Parque Carlos Chagas) e os anos em que a região foi efetivamente ocupada (década de 1940).
A iniciativa do poder público de arruamento do local, sem, porém, a preocupação social com a área, propiciou uma ocupação desordenada da região. Surgiram à beira dos rios palafitas que por um lado se aproximavam das margens da Fiocruz, e que pelo outro, quase uniram o Carlos Chagas ao terreno que nos anos noventa, foi destinado à construção de Conjunto Nelson Mandela[28]. Neste processo, as palafitas que já ocupavam quase totalmente as extremidades da comunidade, avançaram também sobre a extremidade da favela, em direção a um pequenino espaço de terra perdido na junção dos dois rios. Os barracos acabaram por unir, através de tábuas e pregos, a exígua Ilha das Cobras ao Parque Carlos Chagas.
Com o aumento populacional na comunidade, as condições básicas de saneamento ou de obtenção dos serviços de luz, gás, água e telefone, tornaram-se ainda mais difíceis. E a união dos moradores de Carlos Chagas provou-se então com a criação, em 1967, do time de futebol Rio-Petrópolis, que conseguiu congregar as pessoas da comunidade em torno de interesses comuns. A partir daí, no mesmo ano do time, eclode também a Associação de moradores, com o nome de Associação Pró-melhoramentos, que hoje funciona ao lado de um bem cuidado campo gramado de medidas oficiais.
Entretanto, apesar da união dos moradores, o problema crônico de enchentes em Carlos Chagas, pelo qual também se fez conceder o apelido à comunidade de “Varginha[29]”, continuou a assolar a região. A “Varginha”, além de seus rios laterais, caracteriza-se por ser uma área baixa, se comparada a outras comunidades de Manguinhos e também a Fiocruz. Às chuvas torrenciais do verão carioca unem-se histórias de moradores que assistiram a junção dos dois rios em uma única maré sobre a comunidade, levando todos os pertences das casas da comunidade.

Deu a enchente, foi uma de 4 metro d’água. ‘Cabou’ tudo o que a gente tinha, ficou o lais [estrado] da cama, porque arrebentou a porta dos ‘fundo’ e carregou tudo, e o lais [estrado] da cama ‘engadanhou’ assim na porta (...) com aquela lama com cobra, com rato, que foi um sufoco para a gente curar[30].

Com os anos de ocupação desordenada, as enchentes, a alta densidade de barracos, palafitas, vielas e becos e a ausência do Estado em proporcionar programas de saúde, segurança e educação, Varginha se tornou, como muitas outras comunidades carentes, uma região onde apenas seus moradores conseguiam caminhar sem a preocupação de se perder ou de sofrer de alguma forma, com a falta de segurança.

Figura III

Caixa de texto: Varginha em 1990. Fonte: Instituto Pereira Passos. Doada a Fiocruz.

O crescimento da violência na década de 1980 em Carlos Chagas e nas quatro comunidades que ficam do lado oposto da linha férrea (CHP-2, Parque João Goulart, Vila Turismo e Vila União, surgidas na década de cinqüenta), concorreu para o isolamento de Varginha mais do que qualquer outro fator natural. Segundo relatos de moradores, uma verdadeira guerra envolvendo o tráfico de drogas separava forçosamente o convívio das comunidades já apartadas pela linha férrea. Como conseqüência dessa violência, a Escola de Samba Unidos de Manguinhos, que fica em CHP-2, perdeu a freqüência dos moradores de Varginha em sua quadra, enquanto estes passaram a sonhar com a própria escola de samba a ser construída em um pequeno terreno livre, logo ao lado da Associação de Caminhoneiros que funciona na comunidade. Porém, um incêndio em 1989, que destruiu grande parte de CHP-2 e João Goulart, juntamente com a intervenção do exército em resguardar os desabrigados em barracas-de-campanha e depois removê-los para casas de madeira construídas na área pretendida para uma praça ou para a escola de samba de Varginha, aproximou novamente as comunidades.
A decisão dos moradores de Varginha em privilegiar aquelas pessoas que passavam por uma situação extremamente difícil gerou uma curiosa peculiaridade em Parque Carlos Chagas: surgiu desse impasse uma comunidade dentro da comunidade de Varginha. Nos anos que sucederam o desenvolvimento da comunidade, baseado em uma novela de sucesso dos anos noventa, em que as pessoas de uma cidadezinha nordestina se esforçavam para falar inglês, a área espremida entre o CIEP e a Associação de Caminhoneiros, ocupada pelas vítimas do incêndio de 1989 que não conseguiram recolocação em outras localidades, foi chamada pelos próprios moradores de Green Ville[31].
Atualmente, não existem mais barracos de madeira em Varginha. As grandes reformas implementadas na comunidade deixaram-na com aspectos comuns de um bairro suburbano do Rio de Janeiro. Entretanto, apesar da rede de luz, água e telefone funcionarem bem, as casas de Varginha continuam contando apenas com um sistema que lança in natura, o esgoto dos moradores nos rios Jacaré e Faria-Timbó. Segundo relatos de moradores, Varginha atualmente tem pouquíssima violência, mas também tem pouquíssimo lazer, emprego e comércio. Os moradores, ao buscar tais coisas, devem se deslocar para outras comunidades, retornando a Varginha apenas ao final do dia de trabalho ou diversão. Isso levou a alguns moradores a chamar a própria comunidade de “dormitório”:

Porque quem ficou na Varginha... é... assim, a maioria das pessoas que mora na Varginha antes, são moradores bem antigos e a Varginha virou assim... comunidade-dormitório. Ela é bem morta mesmo. Quem tá lá não quer mais bagunça, já não tá mais interessado em tanto agito, a Varginha tem poucos bares, tem poucas... é... tem muitos jovens, mas os jovens não agem na rua, eles saem dali vão pra outras comunidades de Manguinhos... Por conta do esvaziamento a violência na Varginha abaixou, então os jovens já não ficam na rua, eles já ficam em outra comunidade porque ela é mais agitada. Até o campo de futebol já foi mais esvaziado por conta disso. Então esse movimento, ele esfriou, porque já não encontrava mais eco nos outros moradores[32].



A CASA AMARELA

Figura IV e V



Caixa de texto: Figura V. Casa Amarela. História do Lugar e das Pessoas. 2004.
Figura VI. Comunidade Varginha ou Parque Carlos Chagas, com localização da casa Amarela. Fiocruz. Departamento de Preservação e Arquitetura. Mapa de Alexandre Pessoa. (edição de mapa completo de Manguinhos). 2003.

E essa casa era a casa onde ficavam, onde eles pensavam os seqüestros. (...) Era um grupo grande que se reunia, mas tinha cinco cabeças. Esse é o primeiro momento, quando eles pensaram o seguinte: o banco estava ficando difícil, a segurança estava aumentando, e eles precisavam continuar mantendo grana. Aí eles começaram a discutir... Eu me lembro bem que eles tinham sempre um pote branco com um pó branco que eu não sabia o que era, um pote assim, dessa cor. (...) Na época, eu me lembro que o Dino ficou responsável por assumir Niterói. O Meio Quilo ficou na área aqui. O Denis ficou em Acari, se eu não me lembro (sic), e o Marquinho ficou responsável pela área do Estácio, Rio Comprido, ali. O meu cunhado ficou responsável pela Mangueira. O meu irmão era “bucha” porque meu irmão não gostava de matar ninguém, o meu irmão era o cão fiel do meu cunhado, meu irmão[33].

Segundo alguns membros do Núcleo de Estudos Sobre Substâncias Psicoativas e Sociedade (NEPAS), André Saldanha e Thiago Braga, a adesão dos assaltantes a banco e sequestradores ao tráfico de drogas, aconteceu não antes do ano de 1979[34].Os anos que antecedem essa mudança de ações criminosas, são marcadas por intensas perseguições da polícia a bandidos que cometiam seqüestros, assaltos a banco e residências. A fuga desses criminosos para locais onde o Estado está ausente, como as comunidades carentes do Rio de Janeiro, tornou as favelas, um labirinto de difícil acesso aos policiais, o lugar perfeito para um esconderijo.

Conseqüentemente, os primeiros gerentes do trafico (Escadinha, Gordo, Viriato Japonês, Rogério Lemgruber entre outros) ao instalar seu “Quartel Geral” nas favelas, multiplicaram as bocas de fumo, ganhando em pouquíssimo tempo muito dinheiro, visto que ainda não havia necessidade de investir em armamento pesado[35].

Os primeiros anos da década de oitenta, foram marcados por maiores conflitos para a expansão do tráfico de drogas nas comunidades vizinhas, e mesmo, comunidades distantes. No mesmo período, determinante para a organização, os bandidos decidem pelo barato e lucrativo tráfico de drogas. Em Varginha, a continuidade de muitos desses planejamentos, a casa Amarela perdurou por mais de uma década, onde através de relatos podemos aferir as discussões sobre as invasões, até a segunda intervenção urbanística, que acabou de vez com a característica de esconderijo da favela.

(...) o Gustavo é que estava de cumplicidade com eles aqui e traindo a Mangueira. Na verdade, o Gustavo estava traindo... traiu feio a Mangueira. Morreram 21 pessoas no... no carnaval de 1994. Foi o pior dia da minha vida. Eles se reuniram aqui, organizaram a invasão da Mangueira... Eles perguntavam: “Quantas entradas tem a Mangueira, I.? “Eu falava: “Olha, várias. Tem uma ‘boca’ aqui, uma ‘boca’ ali, uma ‘boca’ acolá”, e tal... Eles cercaram todas as entradas da Mangueira. Eu chorei muito nesse dia. Porque as pessoas vão te perguntando, você vai respondendo, né? Aí, depois, a pessoa te diz: “Olha, não vai à Mangueira hoje.” E eles escolheram para invadir a Mangueira na hora do desfile. Muita covardia! (...) ...21 pessoas em menos de 10 minutos... [36]

Figura VI

Caixa de texto: Manguinhos na década de 1980. Departamento de Preservação e Arquitetura. Mapa de Alexandre Pessoa. 2003.

Assim como André Saldanha, o jornalista Carlos Amorim, identifica nos anos 1980, o crescimento dos cartéis de Cali e Medelin, ambos colombianos, às necessidades dos assaltantes de bancos e seqüestradores, por mais facilidades de ações e maiores lucros. Segundo os membros do NEPAS, um convite desses cartéis transformou o Rio de Janeiro, de rota do tráfico para a Europa, em mercado consumidor paras as drogas. Contudo, os novos traficantes brasileiros deveriam, numa jogada empresarial, ter o controle total da venda de seus produtos[37], controlando assim, o valor final ao consumidor.
A intenção dos narcotraficantes de permanecer à penumbra da sociedade levou-os, como escreve Hobsbawm em Bandidos, aos lugares de difícil acesso para o Estado, onde puderam fixar-se com a tranqüilidade necessária para a discussão de mudanças de rumo em seus negócios.

O banditismo floresce quase invariavelmente em áreas remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de ribeirões, e é atraído por rotas comerciais ou rotas de grande importância, nas quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e difícil.(Hobsbawm, E. 1975: 14).

Os anos 1980, com capital suficiente para investimento, foi marcado não só a mudança de investimento criminal (MISSE, M., 1999: 309), mas também de relacionamento dos bandidos com as comunidades carentes do Rio de Janeiro.

Desta forma dentro do conselho do Comando Vermelho há também mudanças, que em 1984 passaram a ser compostas por uma maioria de novos traficantes. Estes, por sua parte, para garantir o fortalecimento da relação orgânica com os moradores da favela, sobretudo os mais pobres, passam a investir muito de seus lucros nas necessidades sociais das comunidades dos morros. Assim, nas favelas ligadas ao tráfico, surgem os famosos postos médicos, creches, saneamento, condutas de água potável, galpões para os concertos de música funk, bem como lojas e “biroscas” que são abertas com a “doação” do chefe local do tráfico, inclusive igrejas evangélicas[38].

A casa Amarela, neste lugar em especial, tinha no seu entorno, além da Fiocruz, cinco outras comunidades: Vila União, Parque João Goulart, Vila Turismo, Conjunto Habitacional Provisório 2 (CHP-2) e Parque Oswaldo Cruz (Morro do Amorim). Essas comunidades, na ótica empresarial dos novos traficantes, seriam os primeiros pontos a receber a nova organização. Como citamos anteriormente, contando a história de Parque Carlos Chagas e Varginha, as comunidades de Parque João Goulart, Vila Turismo e CHP-2, foram as primeiras a sofrer com o intento de expansão dos pontos de venda das drogas. O lazer criado pelos moradores de Manguinhos, dentro da Escola de Samba Unidos de Manguinhos, perdeu sua força de união entre as comunidades, pois, qualquer um vindo de outra região, poderia ser considerado um espião.
O Comando dessa guerra, pelo lado Vermelho, decidia os ataques para a tomada de morros e favelas através das reuniões feitas na casa Amarela, como foram os casos das demais comunidades em Manguinhos e também, outras comunidades mais distantes, como a Mangueira. A violência tornou-se endêmica na região e o trânsito de pessoas começou a ficar restrito às comunidades que estavam sob o comando das mesmas facções. Enquanto o glamour da refinada cocaína colombiana invadia a vida da Geração Coca-cola[39], a maconha passa a ser considerada coisa de pobre. O consumo da nova droga atinge em cheio as classes mais abastadas do Rio de Janeiro.
O ano de 1989 levou Brizola novamente ao Governo do Rio de Janeiro. A pressão das elites sociais sobre um governo que criou linhas de ônibus dotadas do trajeto Zona Norte – praias da Zona Sul, construiu escolas de regime integral para as classes mais baixas, legalizou casas com o programa Cada Família Um Lote e levou a cabo os projetos de urbanização de favelas, começou mesmo antes de sua eleição para o primeiro governo, em 1982. Brizola foi acusado de apoiar os bicheiros, freqüentemente envolvidos com a violência e tráfico de drogas na cidade. Alguns jornais passaram a identificar esse suposto apoio com a sedimentação do crime organizado; isto é, o governo Brizola foi identificado como responsável pelo tamanho crescimento do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O ato de legalizar as casas construídas por favelados, frutos de invasões a terrenos privados, juntamente com a preservação dos chamados direitos humanos dos mesmos favelados, fomentou ainda mais pressões sobre seu governo. Os policiais foram proibidos de ocupar as favelas sem um mandato específico de busca, respeitando direitos jurídicos como os de propriedade privada –dos favelados. Segundo relatos que obtivemos no Projeto História e Memória das Comunidades de Maguinhos, Brizola (...) entrou com mais respeito... o Brizola. Agora, quando entrou o Marcelo Allencar, isso não aconteceu não, isso mudou...[40]
Tenório Buarque de Holanda, responsável pelo Grupo Executivo para Recupeção e Obras de Emergência (GEROE) a partir de 1991, reformulou o projeto de intervenções nas comunidades carentes do Rio de Janeiro e escolheu Parque Carlos Chagas como primeiro lugar a receber o novo programa. O Estado visava tornar Varginha um modelo de ação pública-social a ser seguido em outras comunidades carentes do Rio de Janeiro.
No mesmo ano, foi aberta e pavimentada então uma rua beirando o Rio Jacaré, conhecida como Beira-Rio. A via que corta a comunidade, a rua Carlos Chagas, foi totalmente pavimentada, juntamente com a pequena Rua Jacaré, que une a recém aberta rua Beira-Rio com a Carlos-Chagas. Os Rios Jacaré e Faria-Timbó, com históricos de enchente, devido ao assoreamento, foram alargados e dragados. Neste mesmo programa, as palafitas que seguiam o Rio Jacaré até a Ilha das Cobras, foram completamente removidas.
O espaço entre Varginha e a Ilha das Cobras foi, aterrado e transformado em uma pracinha com mesinhas de concreto para os adultos e escorrega e balanços para as crianças. Juntamente com a abertura das ruas, foi construído o CIEP Juscelino Kubtscheck e a Casa Comunitária[41], e um quarteirão inteiro da comunidade foi reservado para a instalação posterior de aparelhos sociais como o Centro Comunitário de Defesa da Cidadania - CCDC, e mais tarde, em uma segunda intervenção, o Centro Municipal de Atendimento Social Integrado - CEMASI e uma Creche, além do campo de futebol do Rio-Petrópolis, que continuou na localidade.
A intervenção do GEROE em Varginha visava tornar a comunidade assistida de todos os aparelhos sociais compostos pelo Estado. Contudo, sobre a entrada na comunidade, Tenório Buarque, em entrevista, nos alertou que Era uma área muito violenta, a polícia não entrava ali. Então agente tem que fazer esse trabalho no meio de metralhadoras[42]. As dificuldades encontradas pelos técnicos do Grupo foram além das remoções impostas aos moradores de palafitas, que foram realocados na comunidade de Bento Ribeiro Dantas. Tenório afirma que todo projeto era voltado a ouvir das comunidades, as preferências e intenções dos moradores eram sempre levadas em conta nos momentos de construção de uma nova via ou alargamento dos rios. Afirma também que o tráfico de drogas dificultou todo o processo de remoção das casas, além de impor ao Estado, através de pressões aos chefes do projeto, que não fosse aberta uma outra rua na margem direita da comunidade. Essa terceira rua daria acesso direto a todas as viaturas dentro da comunidade. Fincou-se aqui os limites do Estado perante o mandonismo local dos traficantes que comandavam a região da casa Amarela.

Figura VII

Caixa de texto: Varginha em 1997. Com a margem esquerda (Rio Jacaré), com a rua Beira-Rio já construída. Fonte: Instituto Pereira Passos. Doada a Fiocruz.

Quase dez anos mais tarde, quando o domínio do Comando Vermelho já atingia a maioria das favelas do Rio de Janeiro, Varginha é novamente “visitada” pelo Poder público. Em uma segunda intervenção, desta vez, Municipal, pelo Projeto Favela-Bairro no ano de 2000, foi finalmente, construída a rua marginal ao rio Faria-Timbó, chamada de Oswaldo Cruz. As palafitas que ainda resistiam em Varginha, foram completamente removidas e construiu-se o Centro Municipal de Atendimento Social Integrado - CEMASI e uma Creche. Ao final das ruas Beira-Rio e Oswaldo Cruz, foi construído um retorno unindo-as à beira da praça que também foi reformada. Os becos, que davam passagem às palafitas nas margens do Faria-Timbó, foram fechados pela ampliação das casas de alvenaria.

Figura VIII

Caixa de texto: Varginha atualmente. O lado direito continua coberto por casas e alguns becos, sem porém, palafitas nas margens dos rios. No lado esquerdo, podemos ver um grande espaço verde que é o campo de futebol do Rio-Petrópolis. A baixo dele, temos o CEMASI e a creche. A cima, o prédio da Associação de Moradores, o CIEP e o CCDC. Fiocruz. 2005.

Além da instalação de diversos aparelhos sociais, trazendo novamente aquela população para o cidadania, durante as intervenções, outro resultado desse programa, como se o Poder público não soubesse o que aconteceria, foi a queda vertiginosa da violência em Varginha. As largas ruas laterais, juntamente com a rua Carlos Chagas, realizaram exatamente o que os traficantes mais temiam, facilitaram o acesso direto da polícia no local com suas viaturas e, por conta disso, inviabilizando o local como esconderijo deles.

Podia-se sair num beco, entrar no outro... circular né?! Quem tá perseguindo tá vindo atrás, não vai ver se entrou no outro... tinham vários bequinhos que cortavam essa margem aqui toda e, facilitavam a fuga. (...) A medida que passou uma pista ao longo da margem do Faria-Timbó, isso acabou, que aí é uma pista asfaltada, tem gente que pára o carro lá trás[43].

O programa de reforma urbanística do Governo Brizola levou, como dissemos na História da comunidade Parque Carlos Chagas, o CIEP e uma série de aparelhos sociais a localidade. Mesmo não conseguindo levar a cabo todo o projeto de intervenção, o GEROE deixou espaço suficiente, defendido durante anos pelos moradores, para a construção de novos aparelhos na comunidade. Assim como Hobsbawm avalia que o banditismo floresce em lugares onde o Estado tem dificuldades para o acesso de suas forças repressivas, o historiador também ressalta que Freqüentemente basta a construção de estradas modernas, que permitam viagens fáceis e rápidas, para reduzir bastante o nível de banditismo.(Hobsbawm, E. 1975: 14).

Figuras IX e X

Caixa de texto: Figura IX. À esquerda, Rua Beira-Rio. História do Lugar e das Pessoas. 2005.
Figura X. À direita, Rua central, Carlos Chagas. História do Lugar e das Pessoas. 2005.

A casa Amarela, assim como toda a Varginha, tornou-se então um lugar onde a polícia poderia entrar e sair facilmente, e as reuniões que envolveram alguns dos líderes do Comando Vermelho desde o início da década de 1980, corriam agora grande risco com a polícia, que assediava a comunidade com freqüência. Muitos dos becos entre uma casa e outra, que vemos na figura XII, foram fechados pelos próprios moradores, que visavam aumentar suas propriedades, como podemos ver próximo da própria casa Amarela.

Figura XII

Caixa de texto: Beco entre as casas fechado por um dos moradores. História do Lugar e das Pessoas. 2004.

À medida em que as ruas ficam largas, não têm barracos pra se esconder... uma pergunta que [se] faz: se as pessoas que... elas estimulavam a ação do tráfico. Não, é o lugar! Então quando o governo vem e tira as casas das margens do rio, alarga as ruas, diminui o espaço físico da Varginha, não tem mais como o tráfico se esconder![44]

A casa Amarela não é a única do Rio de janeiro. Sua utilização como se fosse um Aparelho do tráfico de drogas marcou a comunidade Varginha, em Manguinhos. Outras casas como esta, que escolhemos para nosso trabalho, serviram aos novos traficantes de drogas como local de reunião, refúgio, paiol de armas e esconderijo de drogas, principalmente quando o negócio expandiu. Casas em várias comunidades como a de Bonsucesso, citada no mito, foram utilizadas com a mesma finalidade até serem encontradas pela polícia ou abandonadas por outras mais convenientes aos bandidos. Podemos dizer que em cada favela do Rio de janeiro, onde o Estado está ausente de suas funções primordiais, instalam-se locais onde os “donos” dos morros comandam livremente seus negócios. É nessas casas onde o morador de comunidades carentes vai pedir auxílio para compra de remédios e fazer reclamações de determinados vizinhos, que estariam de alguma forma transcendendo o conjunto de regras estipulado. É onde se constrói um mundo marginal ao Contrato Social, a tudo aquilo que a maioria dos cidadãos brasileiros deveriam ter assegurado, mas não tem. Podemos dizer, contudo, que a maior particularidade da casa Amarela, foi ser utilizada enquanto o tráfico de drogas mudava seus negócios em direção o que é hoje. Um dos presentes nas reuniões, Carlos Gregório, conhecido como o Gordo, considerado muito inteligente e idolatrado por algumas pessoas de Varginha, no documentário Notícias de uma guerra particular, lançado em 1999, fala desse período em que o confronto com a polícia foi muito intenso, matando muitos integrantes da facção e ando origem a outros, nem sempre com os mesmos intuitos, mas com a mesma sede de Poder:

A intenção era entrar em todos os buracos deixados pelo Estado. (...)
As pessoas que viveram nessa época aí, elas tem a mania de dizer, né?! “Abortou! Não chegou a ter um minuto de vida”. Essas pessoas morreram na primeira ação. Morreram nesse pinote, na primeira ação, quer dizer, desmantelou tudo. Desorganizou tudo. Em conseqüência disso as pessoas começaram a sair a doidado e as coisas foram mudando... foram mudando e ficou o mito, só ficou o nome Comando Vermelho. E hoje é esse mito que todo mundo vê, essa coisa alarmosa que é o Comando Vermelho. (Notícias de uma guerra particular. SALES, J. M. e LUND, K, 1999)

O tráfico de drogas obviamente não retrocedeu, cambiando seus pontos de reunião e esconderijo para lugares mais seguros do que a Varginha reformada. Justamente pelo fato da casa Amarela se encontrar hoje em uma comunidade onde a polícia pode entrar e sair com imensa facilidade, ela não tem a menor serventia para o tráfico de drogas.
Não obstante, casa Amarela continuou e continua de pé, abandonada por muitos anos. Toda a história de violência da casa, relacionada às decisões de seqüestro, assaltos a banco, envolvimento com as drogas vindas dos maiores cartéis do mundo, guerras, mortes, subornos, banditismo-social, marxismo, armas, ausência do Estado... tudo isso seriam mesmo bons motivos para uma casa jamais ser ocupada novamente se ela não ficasse em uma favela. Um lugar em que a miséria e o descumprimento de políticas básicas que teriam direito qualquer cidadão, não são cumpridas. O locus do mal, reprimido, mas não dissolvido pela Ordem Social, uma casa Amarela que aliena sua memória a história da desigualdade social e violência no Rio de Janeiro, exatamente o lugar onde ninguém gostaria de estar. Apesar de todos esses motivos, ainda parece contraditório existir uma casa telhada e de alvenaria, próxima ao centro da cidade, onde a renda per capta é baixíssima e onde todos se conhecem e se amontoam em espaços exíguoa, formando uma grande família... Mas, talvez, o depoimento de mais um ex-morador de Manguinhos, ao revisitar suas memórias sobre o passado, poderá nos fazer entender o que é a casa Amarela realmente é, não apenas para Varginha, mas também para sociedade:

Assim como tem o poder oficial que tomba historicamente seus patrimônios, ela ficou meio que tombada, continua lá, de pé, ninguém ocupa, nada acontece, e... nisso ela ficou meio como um simbolismo, existe uma áurea de mistério em torno dela. É um mistério que agente tem um certo receio de ‘tar futucando’ para descobrir as coisas[45].



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Fundação Leão XIII
InfoGlobo
Instituto Cartográfico e de Terras do Estado do Rio de Janeiro
Instituto Pereira Passos


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MOREIRA, Marcelo Rasga. Nem soldados, nem inocentes: Jovens e tráfico de drogas na Município do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado apresentada na Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 2000.


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www.cide2.rj.gov.br/
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www.portalpopular.org.br/rnb/entrevista/rnb-02.htm Revista Nação Brasil Número: 143. Entrevista com André Saldanha Costa, é mestrando em Ciência Política pela UFF. Thiago Braga Vieira é bacharelando em História pela UFRJ/IFCS. Ambos são membros do Núcleo de Estudos Sobre Substâncias Psicoativas e Sociedade (NEPAS)
www.vivafavela.com.br - 10 de fevereiro de 2004 - Júlio Ludemir.


Filmes

1,99, O IMPÉRIO DA NEBULOSA. Marcelo Masagão, 2003.
BRAZIL: BEYOND CITIZEN KANE. Simon Hartog, 1996.
CINCO VEZES FAVELA. Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman, Miguel Borges, Carlos Diegues e Marcos Farias, 1962.
NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR. João Moreira Salles, Kátia Lund Brasil, 1999.
O QUE É ISSO COMPANHEIRO. Bruno Barreto, 1997.
QUASE DOIS IRMÃOS. Lúcia Murat. 2005.


Música

GERAÇÃO COCA-COLA. Renato Russo. Banda Legião Urbana.



[1] Entrevista concedida por G. e C. Fita 2, lado B. 07 de abril de 2004. História do Lugar e das Pessoas.
[2] Entrevista concedida por R. Fita 1, Lado B. 31 de agosto de 2004. História do Lugar e das Pessoas.
[3] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A. Op. Cit.
[4] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A, 07 de abril de 2004. História do Lugar e das Pessoas.
[5] Entrevista concedida por J. S. e J. L., Fita 1, Lado A. dia 2 de junho de 2005. História do Lugar e das Pessoas, no CEMASI de Manguinhos.
[6] Entrevista concedida por R.. Fita 2, Lado A. 31 de agosto de 2004. História do Lugar e das Pessoas.
[7] Entrevista concedida por R. Fita 2, Lado A. Op. Cit.
[8] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A. Op. Cit.
[9] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A. Op. Cit.
[10] Entrevista concedida por R. Fita 2, Lado A. Op. Cit.
[11] Galeria LSN, setor era onde, dentro do Presídio de Ilha Grande, se localizavam todos aqueles presos, políticos ou comuns, que por algum motivo foram condenados pela Lei de Segurança Nacional.
[12] Entrevista concedida por G. e C. Fita 2, lado B. Op. Cit.
[13] Entrevista concedida por R. Fita 2, Lado A. Op. Cit.
[14] Idem.
[15] Jornal O Globo. Comando Vermelho tem 4 ‘bocas’ na UFF. Quinta-feira, 22 de julho de 1993.
[16] Entrevista concedida por R. Fita 2, Lado A. Op. Cit.
[17] Idem.
[18] “Arrego” é como é chamado vulgarmente o ato de pagar pelo favor; corrupção; pagamento de propina.
[19] Gíria utilizada por traficantes que designa aquele que e inimigo.
[20] Entrevista concedida por G. e C. Fita 2, lado B. Op. Cit.
[21] Idem.
[22] Entrevista concedida por G. Fita 5, lado A. Dia 19 de novembro de 2004. História do Lugar e das Pessoas.
[23] Entrevista concedida por G. e C. Fita 2, lado B. Op. Cit.
[24] Idem.
[25] Comunidades de Manguinhos: história do lugar e das Pessoas. Tania Fernandes e Renato Gama-Rosa, novembro de 2005. Apresentação no VI Encontro Regional Sudeste de história Oral.
[26] Este seria responsável pela fabricação de alguns soros e vacinas. Segundo os preceitos científicos de pesquisa e de segurança de época, o Instituto deveria ficar afastado do centro da cidade para evitar possíveis contaminações.
[27] Segundo a Fundação Centro de Defesa dos Direitos Humanos Bento Rubião, no Diagnóstico Rápido Participativo da comunidade de PARQUE CARLOS CHAGAS, realizado em dezembro de 2000. Inicialmente, a Estrada de Ferro Leopoldina, chamava-se Estrada de Ferro do Norte.
[28] Conjunto Nelson Mandela é uma das treze comunidades que compõe Manguinhos, pesquisadas no História do Lugar e das Pessoas.
[29] Varginha é sinônimo de Campina cultivada. São terrenos baixos e planos, que margeiam os rios e ribeirões; vargem.
[30] Entrevista concedida por N. L. e J. F., Fita 1, Lado A. História do Lugar e das Pessoas.
[31] A comunidade de Green Ville já conta com uma Associação de Moradores. Contudo, atualmente, seus moradores se identificam mais com o Conjunto Nelson Mandela (comunidade ao lado de Varginha), do que a própria comunidade Parque Carlos Chagas.
[32] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A. Op. Cit.
[33] Entrevista concedida por R. Fita 2, Lado A, 31 de agosto de 2004.Op. Cit.
[34] www.portalpopular.org.br/rnb/entrevista/rnb-02.htm. Revista Nação Brasil Número: 143. Op. Cit.
[35]  www.portalpopular.org.br/rnb/entrevista/rnb-02.htm Revista Nação Brasil Número: 143. Op. Cit.
[36] Idem.
[37] www.portalpopular.org.br/rnb/entrevista/rnb-02.htm. Revista Nação Brasil Número: 143. Op. Cit.
[38] www.portalpopular.org.br/rnb/entrevista/rnb-02.htm Revista Nação Brasil Número: 143. Op. Cit.
[39] Musica Geração Coca-cola, Renato Russo. Banda Legião Urbana, década de 1980.
[40] Entrevista concedida por G. e C. Fita 05, lado A. Op. Cit.
[41] Instalada em 1985, por Brizola, distribuía alimentos para a comunidade. Atendia cerca 2400 pessoas.
[42] Entrevista concedida por Tenório Buarque de Holanda, Fita 1, lado B em 15 de dezembro de 2005. História do Lugar e das Pessoas,
[43] Entrevista concedida por G. Fita 5, Lado A. Op. Cit.
[44] Entrevista concedida por G. e C. Fita 02, lado A. Op. Cit.
[45] Entrevista concedida por G.. Op. Cit.

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