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Nascimento e Desenvolvimento do Espírito Científico



Nascimento e Desenvolvimento do Espírito Científico



Podemos imaginar que cada sociedade possui um núcleo de crenças que a comunidade não critica, ao qual chamaremos de dogma; o próximo nível são os métodos e as técnicas que a comunidade cria como cinturão de segurança para evitar as críticas ao dogma; o último nível é a área que é aberta as especulações da comunidade, na qual chamamos de franja especulativa. Como mostra esse modelo, cada sociedade em seu desenvolvimento histórico possui áreas dogmáticas fora de qualquer crítica e áreas especulativas aonde se goza de uma liberdade de pensamento.

Franja Especulativa

Dogma

Cinturão de Segurança

 
 




            Com isso entendido, pode-se marcar a cronologia da história da filosofia através de suas grandes rupturas:



 




            Em 600 a.C. surge a filosofia nas cidades gregas. As formas pré-filosóficas eram sistemas autoritários que não aceitavam especulação, pois possuíam um enorme núcleo dogmático, com um cinturão de proteção robusto e sua franja especulativa estreita, que não era transmitida pela educação com o qual apenas pouco tinham acesso. Seus sistemas político-religiosos eram dogmáticos, que se expressavam através dos mitos (ocultos aos sentidos e a razão) e da poética (discurso expressivo, transmitido através da tradição oral). O pensamento religioso, pertence a esfera de poder, sustentada pela autoridade e pela tradição. Com o surgimento das grandes rotas comerciais, as polis são formadas, lideradas pelos comerciantes ricos que através deste contato com outros povos se tornaram cosmopolitas. O Estado estava bastante forte para permitir um alto grau de especulação, com isso fica claro que existe um pequeno núcleo dogmático, um cinturão de proteção sutil e uma franja especulativa extensa.
Existem duas formas de ser pensar sobre o ser, o conhecimento, o valor e a pessoa, dependendo de como a ênfase recai se sobre os sentidos ou sobre a razão. Se for pelos sentidos, o ser é materialista; o conhecimento é empirismo genético, empirismo epistemológico e realista – critérios extra-linguísticos; valor é relativista; e a pessoa é objetivista (anti-aprioristas/anti-inativistas). Se a ênfase for pela razão o ser será idealista; o conhecimento será racionalista genético, racionalista epistemológico  e anti-realistas – critérios linguísticos; o valor será absolutistas; e a pessoa é  anti-objetivista (apriorismo/inatismo). O conhecimento platônico se baseia no idealismo, racionalismo genético, racionalismo epistemológico e sua conclusão é anti-realista. O conhecimento aristotélico possui uma distorção pois ele parte do materialismo, empirismo genético, tenta justificar o conhecimento pelo racionalismo epistemológico e chega uma conclusão realista.

            Em 200 d.C., com o final da época helenística de pensamento, a filosofia migra para a Europa Continental procurando a junção entre o pensamento fundamentado filosófico com a cultura judaico-cristã. Período de grande estabilidade com a estruturação da organização e da transmissão do conhecimento através da hermenêutica (interpretação) e a exegese (transmissão que não pode ser feita de modo criativo). Seus principais representantes são: Santo Agostinho[1] (Fonte:[2] Platão, Tradição Exegética: Agostiniana) e São Tomás de Aquino[3] (Fonte: Aristóteles, Tradição Exegética[4]: Tomista). Os temas mais comuns de discussão deste período são a lógica; compatibilização entre a fé e a razão; e a metafísica.
            As formas conclusivas de argumentação é o ponto chave para se entender a Idade Média, seu conhecimento é analítico[5], “apriorista”[6] e necessário[7]. Suas teorias não possuem caráter ampliativo pois usam argumentos dedutivos, aonde o Conteúdo Lógico[8] é maior que o Conteúdo Empírico[9], com o intuito de diminuir os erros, a teoria neste momento é certificada.
            O advento dos filósofos naturais renascentista, em 1450, entra em choque com esta forma de conhecimento que não consegue dar conta das situações empíricas. Aqui começa o nascimento do pensamento da ciência moderna.
            Neste período aparecem as formas inconclusivas de argumentação, seu conhecimento é sintético (busca do conhecimento no mundo extralingüístico), “a posteriori” (demonstração/prova através da experiência) e contingente (o valor de verdade depende da região espaço/temporal em que se encontre). Suas teorias são ousadas, possuem um Conteúdo Lógico menor que o Conteúdo Empírico, com isso trabalha-se com os argumentos inválidos bons (probabilidades possíveis, argumentos indutivos fortes), forçando a concepção fabilística da verdade (no vagar do tempo, a teoria apresentará falha estrutural podendo ser adaptada ou completamente descartada por outra). Essas teorias agora serão atestadas, trabalhando com a noção de mundos possíveis (probabilidade).
Com isso posto, fica evidente que agora falta normalizar o erro. O primeiro filósofo a sistematizar o aparato cognitivo dos novos pensadores foi David Hume, aponta para a distinção entre dois conhecimentos. O primeiro deles é o conhecimento direto que é dado pela introspecção, aonde não existe dúvida e a certeza não pode ser compartilhada, dividindo-lhe em racional e sensorial (estados psicológicos internos). O segundo é o conhecimento inferencial, no qual vê vários níveis:
0
 
1
 
2
 
3
 
4
 
5
 
6
 
 



                             
 




O Nível 0 é dos relatos perceptuais da primeira pessoa sobre a primeira pessoa a respeito de seus estados sensoriais/psicológicos internos (conhecimento direto; sensorial); o Nível 01 são os enunciados singulares sobre coisas ou eventos observáveis; o Nível 02 são os enunciados relacionais não quantificáveis envolvendo coisas ou eventos observáveis; o Nível 03 são os enunciados relacionais quantificáveis envolvendo coisas ou eventos observáveis; o Nível 04 são as leis gerais com afirmação de nexos causais; o Nível 05 são as teorias, sistemas de leis gerais postulando a existência de coisas/eventos não-observáveis – ciências físicas; o Nível 06 são as teorias gerais postulando a existência de objetos e eventos dependentes de  sistemas interpretativos – ciências humanas/sociais.
            Como se pode observar, quanto mais se abstrai (esquerda para a direita) mais risco ocorre; quanto mais se aproxima do Nível 0 (direita para a esquerda) mais aumenta o nível de certeza que se tem sobre a afirmação.
            O pensamento científico se caracteriza pelos princípios: anti-apriorista[10],  expeciencialista[11] e dedutivista[12]. Existiram duas correntes para a sua fundamentação. A primeira, a fundamentação SBS (“step by step”), afirma que o ser cognitiva passava de um nível para o outro sucessivamente, isso diminui a probabilidade exponencialmente, logo esta fundamentação será banida. A segunda utilizada, “passo único” (“one step”), afirma que do nível 0 o ser cognitivo passa direto para o último nível  (05 ou 06, pois estes se encontram no mesmo patamar, não existe hierarquização), isso aumenta o grau de probabilidade da especulação.
            Os filósofos tentam esquematizar o princípio do raciocínio do cientista, no qual chamarão de método hipotético-dedutivo. Resumidamente, uma teoria se depara com um fato que deveria estar no seu conteúdo empírico, o ser cognitivo, através de um ato inventivo, propõe uma hipótese. Esta hipótese será desenvolvida dedutivamente até uma evidência que será experiencializada. Se for afirmativa (Pólo Positivo) chega-se, através da indução, a firmação da hipótese e a criação de uma outra teoria, aonde o fato problema deixa de fazer parte do conteúdo empírico e passa ao conteúdo lógico. Se for negativa (Pólo Negativo) se rejeita a evidência e conseqüentemente a hipótese, retornando ao estado problema inicial.
            Pode-se refutar essa posição através do paradoxo da implicação material. No pólo positivo a afirmação do conseqüente não garante a validade do antecedente. E no pólo negativo não se sabe onde está o erro, pois uma hipótese não é criada isoladamente, ela está imbuída de teorização, então a rejeição da evidência não indica o que deve ser rejeitado: teoria, hipótese ou ambas. Com isto posto, fica evidente que o pólo positivo é inverificável e o pólo negativo é indeterminado. Todos os esforços para a justificação do método se esgotaram, chegou-se a conclusão do uso como “falta de melhor” (Princípio “Fault de Mieux”).
            Concluindo, em 1950, a filosofia entra em choque com as ciências humanas/sociais maduras, aonde estas atacam a partir da franja especulativa, arrebentando o cinturão de segurança e deixando o dogma para a especulação.Um pensador desta corrente é Thomas Kum, que não acredita no progresso científico afirmando que nas mudanças de paradigmas ou se ganha ou se perde algum tipo de conhecimento. Para ele, ou os paradigmas científicos ficam desgastados ou desaparecem seus defensores, deixando margem para o aparecimento de novas idéias, este processo é histórico, antropológico, sociológico e psicológico e não filosófico. Com isso afirma que o processo de rupturas paradigmáticas devem ser estudadas não mais pela epistemologia filosófica clássica, mas pelas ciências da psicologia da cognição (Psicologia, História, Sociologia, Antropologia).




Bibliografia:

Morin E 1994. Ciência com consciência. Publicações Europa-América, Lisboa.
POPPER, K. R. A ciência normal e seus perigos. In: I. Lakatos; A Musgrave(Org.). A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. São Paulo: Cultrix, EDUSP, p. 63-71. 1979.
VILLANI, A. Cognição e ensino de ciências: o papel da subjetividade. Reunião Anual da
SBPC, 48. 1996, São Paulo. Atas... São Paulo, 1996. 1 CD.
VILLANI, A.O professor de ciências é como um analista?: Ensaio, Pesquisa em Ensino de
Ciências, v. 1, n. 1, p. 5-31, 1999.



[1] Auctor – quem interpretou, autoridade.
[2] O primeiro que pensou
[3] Idem 01
[4] Transmissão através da exegese, os dogmas (autor)  não podem ser criticados.
[5] O valor de verdade depende do significado lingüístico.
[6] Independe da experiência, a demonstração e a prova são através da razão.
[7] Seu valor de verdade independe da região espaço-temporal em que se encontre.
[8] Implicação.
[9] Exclusão ou proibição.
[10] Não existem verdades “a priori”  sobre o mundo externo.
[11] Toda teoria geral terá que ser explicada pelo Nível 0.
[12] Os únicos argumentos válidos são os dedutivos.

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