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Notas sobre a Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918)


A Grande Guerra mudou a Europa e redefiniu as forças no cenário internacional. Para muitos autores, iniciou o século XX. Aparentemente, um conflito local que se transformou em guerra mundial e, em guerra total.



            A questão do nacionalismo é extremamente importante para explicar o clima de Guerra total existente na Europa no começo do século XX. Ele serve como o principal elemento do recém inserido Estado ou Corpo Político, para agregação da população sob um mesmo território, sob um mesmo governante. Surge um tipo de ‘estadania’, em que a quantidade de cidadãos trabalhando para o Estado cresce muito em toda a Europa. A escola por sua vez, mostra-se uma grande arma das elites governantes –“um artefato cultural[1]- que vulgariza a educação pública, consolidando uma única língua nacional e moldando os operários aos seus interesses. É a implantação do nacionalismo individualista, em detrimento de movimentos socialistas proletários que eram internacionalistas e ganhavam força, em meio a industrialização dos países europeus e a exploração dos operários. Socialismo, aliás, que gerou o medo –futuramente entendido- de uma revolução intensa na Europa, e que Marc Ferro, apontou como uma grande energia aproveitada para a guerra, é claro utilizando-se dela com o devido controle.
“...partindo para a guerra, os soldados de 1914 haviam encontrado um ideal de reserva que, de qualquer forma, substituía as aspirações revolucionárias[2]
            As práticas existentes, herdadas das chamadas “Tradições”, são alteradas no sentido de fortalecer ou mesmo de criar uma unidade nacional. São canções folclóricas, hábitos esportivos e alimentares, que são utilizados e institucionalizados, elevando o orgulho do povo em pertencer a determinada pátria. Ainda assim, fomenta-se os sentimentos nacionais, exaltando lendas antigas, muitas vezes distorcidas (ufanismo). Contudo, toda essa transformação é utilizada no sentido da identificação nacional em comparação com o ‘outro’, o outro é aquele que ameaça a unidade nacional, aquele de fora, o culpado pelas mazelas sofridas pelos cidadãos.
            Os franceses deveriam ter ódio dos alemães, desde a guerra franco-prussiana, em que perderam o território da Alsácia e Lorena. Os russos tiveram os Tártaros, turcos, polacos e alemães como seus flagelos, e o ‘pobre’ império Alemão, ‘coitado’, estava cercado. O mais importante desde já, é relembrar conflitos passados, derrotas se houvessem, fomentar a noções de superioridade de um povo em relação ao outro, criar desejo de “revanche[3].
            Desta forma, o destino de cada nação estava ligado a luta contra um inimigo hereditário. Todos claro, com um toque de interesse econômico, pois no caso de Alemanha e Inglaterra, estes não tinham um passado de rivalidade. A Alemanha vislumbrava nos próximos anos, a possibilidade real de ser a principal economia européia. A Rússia, interessada em melhor industrializar seu país, faz acordos com a França e Inglaterra, e estas, as duas principais forças imperiais, temiam o surgimento de uma nova potência econômica concorrente, a Alemanha.
            Os interesses nacionais, são explicitados pelas expansões imperialistas, contudo, nem sempre as políticas diplomáticas são eficazes. A região dos Balcãs, envolta em um sentimento de pan-eslavismo sofria o assédio de anexação pela Sérvia, que sonhava em um grande país onde todos os eslavos estariam abrigados. O Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano, visavam a anexação de territórios naquela área, enquanto o Império Russo, que apoiando a independência dos Eslavos, almejava aumentar sua influência na região. A Alemanha, com acordos definidos como o Império Autro-Húngaro, firma a Tríplice Aliança. De outro lado, a Rússia, dependente de financiamentos externos para sua industrialização, firma acordos com a França e Inglaterra. Estes dois últimos, resolvem suas rivalidades sobre a dominação de Marrocos no acordo Entente Cordiale, dividindo também as áreas de influência na África. Esse esforço diplomático, visava deixar de fora a Alemanha, que com equipamentos e tecnologia moderna, floresce sua indústria, ameaçando os lucros de França e da ‘senhora dos mares’.
            Assim, o chamado ‘capitalismo monopolista’ e os desdobramentos que levaram a guerra, esvaziaram os ânimos daqueles que esperavam viver em uma era maravilhosa, gerada pelo gênio inventivo humano, uma era de desenvolvimento tecnológico, racionalismo e artes, enfim, de Belle Époque. A disputa pela hegemonia imperialista aumenta a cada dia, e guerra precisa apenas de um estopim para acontecer. Sobra apenas, àqueles que não queriam a guerra, a revolta e a emigração, como no caso dos italianos vindos para o Brasil. A sensação de infelicidade é tanta, que ressurge em meio aos intelectuais, o misticismo, a fé religiosa, e uma gama leituras parecidas com que chamamos hoje de livros de auto-ajuda.

            A 28 de junho de 1914, o herdeiro do trono Austro-Húngaro, Francisco Ferdnando, é assassinado pelo grupo separatista Mão Negra em Saraievo, atual capital da Bósnia. O arque-duque assassinado tinha concepções liberais, o que não agrada muito a família real. Com a sua morte, a visão predominante agora seria de alguns militares beligerantes, que tanto o criticavam quando vivo. A Áustria apoiada pela Alemanha, exigiu a apuração sumária do assassínio, exigiu que o governo sérvio condenasse a propaganda sérvia na Hungria em Diário-Oficial. Além disso, caso fossem aceitas as condições, um outro ponto daria certeza do início do conflito: a Sérvia deveria ceder grande parte de seu terrritório a Bulgária e Albânia. Como isso não foi feito, a Áustria declarou guerra a Sérvia. A Rússia entra na guerra para ajudar os ‘irmãos’ eslavos da Sérvia. A Inglaterra e França, com os acordos feitos com a Rússia também aderem a guerra. O Império Turco-Otomano uni-se a Alemanha, que declara-se como único país que defende os direitos ultramar, atraindo temporariamente a Itália, outro país de unificação e industrialização tardia (que em 23 de maio de 1915 muda de lado).

“A necessidade faz a lei[4]
Começa a Grande Guerra em 4 de Agosto de 1914.

            A crença em uma guerra rápida era cultuada por todas as nações e mostrou-se evidente no plano Schlieffen, plano alemão que visava a derrota da França em 40 dias e posteriormente a concentração de todas as suas forças no ataque a Rússia. ‘Como associar uma guerra a uma época de tal evolução, de tal progresso industrial?’ pensavam os autores de guerras de ficção da época. A idéia de guerra rápida levou muitos soldados a preferir a luta, ao invés de ficar em casa, pois seria uma chance de viajar, de conhecer novos lugares, podendo representar até uma chance de ascensão social. Contudo, para a Alemanha a guerra desde o começo não se mostrara um passeio, pois estavam abertos dois flancos de combate, o ocidental, contra a Inglaterra, França e posteriormente EUA e o oriental, tendo como principal inimigo a Rússia.
            As invenções humanas pareciam apenas esperar o momento ‘certo’ para serem utilizadas, e a guerra foi a oportunidade. É aí mais uma vez que o ‘gênio humano’ se impõe, porém agora, na utilização de máquinas de morte. São experimentados gases venenosos como o mostarda, os lança chamas, os zepelins, agora utilizados para guerra, os submarinos e os tanques, estes últimos, desenvolvidos para vencer a famosa guerra de trincheiras.
            É na batalha de Marne que surge a tática da guerra de trincheiras. As trincheiras conseguem relativizar o poderio militar alemão, dando a guerra, um caráter estático, por cerca de três anos e meio. Os soldados, locados em buracos feitos no chão, ora feitos por eles, ora feitos por bombas, ou mesmo protegidos por sacos de areia, não conseguem avançar ou recuar, não podendo derrotar definitivamente o inimigo. “Estes caminhos entrincherado está cheio de cadáveres de diferentes sítios. Ali estão também os moribundos, na lama, agonizando, pedindo-nos de beber ou suplicando-nos para lhes pormos fim[5]. É sem dúvida, a trincheira, a forma mais eficaz de degradação humana na guerra. Os homens mal conseguem retirar os mortos diante de seus olhos, não conseguem dormir, comer, beber. Nessa altura, a morte lhes parece um boa solução. Contudo, os ‘soldados heróis’ não devem capitular, devem morrer antes de ceder um milímetro de terra, seguir figuras que se fizeram lendárias como o Foch e Ludendorff.

            A Alemanha, em 1917, impõe o bloqueio naval a Inglaterra, afundando qualquer navio estrangeiro chegasse a Grã-Bretanha. Os EUA, que mantinham um lucrativo comércio com os países da Entente e mesmo com países adjacentes, que forneciam alimentos e armas aos países da Tríplice Aliança, tiveram seus interesses econômicos ameaçados, razão –para os norte-americanos- mais que suficiente para ingressar na guerra. Enquanto os EUA decidem-se pela Entente, os búlgaros optam pela Aliança. A Rússia, concretizando o medo capitalista, leva a cabo a sua revolução socialista (bolchevique), o maior medo das nações capitalistas, assinando o tratado de Brest-Litowsk, um tratado extremamente desonroso, onde perde parte de seu território –Polônia russa, Finlândia, Ucrânia, Lituânia, Letônia e Estônia- e, é também forçada a pagar restituições a Alemanha em sua saída da guerra. Mesmo com a saída da Rússia, a entrada dos EUA enceta um novo fôlego a Tríplice Entente.

            A partir dos meses de junho a julho de 1918, apoiados por pesada artilharia e pela viação, a Entente começa a acumular várias vitórias. Os italianos derrotaram os austríacos, e forças anglo-americanas já rompiam as linhas de defesa alemães.
            Já pensando no final da guerra e nas oportunidades de ganhos na reconstrução dos países europeus (inclui-se a Alemanha), os EUA, na figura do presidente Wilson, expõe os chamados ’14 pontos de Wilson’. Uma proposta claramente liberalizante, que não agradou a França, que queria ser indenizada pela Alemanha, por ter seu território invadido, e também não agradou a Inglaterra, que não via com bons olhos a quebra de sua hegemonia nos mares. No cerne desses dois países, era mais importante engessar o poderio militar e econômico da Alemanha –como ficou acordado no tratado pós-guerra-, para que ela não voltasse a ameaça-los. As negociações ente o presidente americano Wilson e Guilherme II começaram. Os alemães, desejosos pelo armistício antes que os inimigos se apercebessem de sua iminente derrota, recuavam passo a passo dos territórios ocupados, enquanto as conversações se seguiam. A Entete por sua vez, não aproveitava-se da situação, agindo com o maior cuidado possível para que o acordo fosse realmente eficaz.

            Em 18 de novembro de 1918, a Alemanha assina o armistício que para eles ficou conhecido como “Ditado de Versalhes”, ou para os países vencedores, “Tratado de Versalhes”. A Alemanha ficava invariavelmente  condenada a humilhação de ter que restituir à França a região da Alsácia e Lorena e deixar que esta explorasse a região do Sarre, uma bacia carbonífera, por 25 anos. Restituir também terras a Bulgária, Dinamarca, Lituânia e, no caso da Polônia, uma extensão de terra que dava a ela uma saída para o mar –o corredor polonês-. Perderam também todo seu império colonial, e ainda assim, os alemães deveriam pagar as tais indenizações punitivas e ter seu exército e todo seu poder beligerante limitado. Não satisfeitos com isso, os países da Entente também obrigaram a Alemanha a se responsabilizar inteiramente pela guerra. Os outros países da Tríplice Aliança também enfrentaram represálias através de outros tratados. Saint-Germant e Trianon extinguia com o Império Austro-Húngaro, criando vários outros países, Sèrvres e Lausana ao Império Turco-Otomano, também criando novos países, e o tratado de Nenlly à Bulgária, que perdeu suas costas marítimas para a Grécia.
           
            Como perspectiva para o futuro, dentro de países destruídos, ardia a realidade do envelhecimento da população e a desorganização das famílias. Os empréstimos oferecidos pelos norte-americanos (David e Yong) alimentavam a inflação, o desemprego, a fome e com ela a desesperança. A Alemanha amargava anos de miséria, de humilhação, anos em que com a herança do nacionalismo se viu crescer a xenofobia e o  revanchismo. A imposição da limitação bélica a Alemanha, um país de tradição militar, levou muitos jovens a ingressar em grupos para-militares, que alimentavam os sentimentos de ódio aos que lhe impuseram essa humilhação. O nacionalismo é, ao final da guerra, novamente visto como ponto aglutinador das famílias européias, principalmente das classes médias, mais empobrecidas no pós-guerra, operando novamente com a idéia de que “as razões das mazelas sociais encontram-se no outro, naquele identificado com o estrangeiro[6]. Família, Trabalho e Pátria, é o lema de ex-combatentes. Grupos que herdaram o gosto pela violência na guerra, como os fasci italianos, são imitados na Alemanha –nazi-, proclamando o anti-socialismo e a hostilidade a plutocracia. Contudo ainda esperava por todos os países e principalmente pela Alemanha, a década de 20, com uma da piores crises que o sistema industrial capitalista já viu, levando ao poder forças políticas militares e de extrema direita.
            O caminho da Belle Époque fora definitivamente seccionado, e tudo que essas nações conheciam agora era o caminho da força e da violência. Exaltando-se uns melhores que os outros, os europeus marchavam com o espectro da miséria, com a desesperança no coração e com suas bandeiras ao ombro, já manchadas e sangue, todos, rumo a uma nova catástrofe.






Bibliografia:

FERRO, Marc. A Grande Guerra, 1914-1918. Lisboa, Edições 70, 1990.

MOTTA, Marcia. A primeira grande Guerra. O século XX. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.

TANGER, Terence e HOBSBAW, Eric. A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997.

HOBSBAWM, ERC. A era dos impérios – 1875-1914. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

________________. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990.





[1] HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeito, Paz e Terra, 1990. p.135. Citação de Einar Hauer.
[2] FERRO, Marc. A Grande Guerra, 1914-1918. Lisboa, Edições 70, 1990. p. 20.
[3] MOTTA, Marcia. A primeira grande Guerra. O século XX. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.
[4] FERRO, Marc. A Grande Guerra, 1914-1918. Lisboa, Edições 70, 1990. p. 70.
[5] Idem. p. 125. Trechos de cartas.
[6] MOTTA, Marcia. A primeira grande Guerra. O século XX. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.

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