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Relatório do Curso História da Sexualidade, com Magali Engel


            Na primeira unidade do curso de História da Sexualidade, tivemos como norteadores os seguintes tópicos: A sexualidade como objeto da história; os caminhos abertos por Michael Foucault e O cotidiano da sexualidade: possibilidades de abordagens. Neste relatório onde se perpassa minha a análise subjetiva do curso, feito sob estes três tópicos, deixo claro minha opinião através de estudos anteriores e posteriores que serviram para corroborar o conteúdo já esplanado em sala de aula.

            Com a Nova História, no decorrer dos anos 1960, a política deixa de ser o centro das atenções dos historiadores e o homem volta a ser posto como objeto de estudos; suas vivências, hábitos cotidianos e experiências passam a estar no centro dos estudos contemporâneos. A história ‘historicizante’, factual, política, relacionada apenas ao Estado, está em baixa, o ideário durkheiniano de que a sociedade pode ser pensada como unidade está em vogue (é o início dos famigerados ‘modelões’). A nova geração de historiadores da escola de Annales, busca a história permanentemente renovada, com uma busca por novos objetos, como uma área geográfica, a exemplo da obra de Braudel, na Segunda fase, ou um estudo da sexualidade, de Foucault. O grande marco deste tempo é a publicação de três volumes da Nova História no ano de 1974, sendo que a sua consolidação, apenas em 1984, ocorre com a publicação de “História da Sexualidade”, de Michael Foucault.

            No caso de nossos estudos, no curso de História da Sexualidade, temos como foi explicado, uma tipificação em linhas gerais através de duas vertentes: A análise das vivências, experiências de vida e do cotidiano de pessoas comuns e a análise de discursos do Estado, da Igreja como exercício do Poder. Dentre estes dois tipos de objetos, que não necessariamente se excluem, Foucault fixa-se sobre a segunda, onde estuda a construção de verdades e a utilização delas como meio de manipulação das massas. Foucault, através de sua obra, Microfísica do Poder, trata de diferenciar seus estudos dentro destas duas vertentes, dividindo o tipo de relacionamento existente entre indivíduos e indivíduo/Estado:

 






            Nesta primeira forma, entende-se que em qualquer relacionamento entre homens (objetos de estudo) há exercício do poder. É onde também encontramos inseridos as tais vivências e experiências contidas na primeira vertente de análise da história das sexualidades. Assim, Foucault prefere este tipo análise, deixando suas críticas aos marxistas que fazem história preferindo a análise desta forma:

 






            Aqui, e a partir de sua obra, depreendemos que o exercício deste Poder vem do relacionamento entre o indivíduo e o Estado. Divisão que ao mesmo tempo define seus estudos e que em minha opinião não fere a historiografia marxista, mas sim, define a ela seus trilhos, onde na Nova História que assume diversos objetos, passa a ser apenas mais um viés acadêmico de análise. Do exercício recíproco representado no gráfico acima –e mesmo entre apenas os indivíduos–, Foucault ainda ressalta que sempre haverá resistência por ambos os lados. Contudo, sua obra é principalmente caracterizada pelo discurso crítico de “Repressão” que caberia ao exercício do Poder pelo Estado. Assim, em outro breve esquema o Poder/poder, o Estado e o Indivíduo estariam ilustrados:


 






            Segundo o sociólogo José Augusto Guilhon de Albuquerque, os aparelhos de relacionamento do Estado para com o povo estariam circunscritos em: Ideológicos, escolas, faculdades, arte, etc; econômicos, o próprio sistema econômico e o repressivo, onde a polícia e o exército, bem como todas as instituições reguladoras pela força estão contidos. É nesse aparelho repressivo que Foucault concentra-se questionando a “hipótese repressiva”. Foucault levanta suspeitas se o discurso crítico à repressão é mesmo libertador. Em minha opinião pessoal, talvez o tal discurso ‘libertador’ nos leve a um outro aprisionamento, uma vez que a criação de uma verdade e a simples preleção desta com fins de convencimento, torna-se um exercício de poder/Poder, e como tal, funcionando apenas como uma mudança de grilhões. Ainda segundo Foucault, a questão fundamental não é a repressão, mas sim, o porque de dizermos que somos reprimidos. Também a partir desta ótica, o autor aborda o sexo como força imperial em nossas vidas, colocando a libido como principal potencialidade humana, tal como é identificada nos discursos da Igreja católica e nos fascismos, onde a sexualidade deve ser reprimida e contida, sendo sua potencialidade utilizada para o culto a Deus ou ao grande líder Füher/Duce.     

            Compreendendo os tópicos de análise 1 e 2, uma breve citação dos elementos supracitados foram os que mais me interessaram e que portanto pareceram-me de mais importância. Ainda assim, a palestra do professor Sérgio, integrante do Movimento Homossexual Brasileiro me trouxe dados culturais interessantíssimos sobre a história do Dia do Orgulho Gay, bem como de todo movimento que se envolve desde o ato de apoio aos que sofrem discriminação até o trabalho político de busca pela igualdade jurídica destas pessoas. E também de igual importância, o tópico número 3, o cotidiano da sexualidade: possibilidades de abordagens, que nos levou ao estudo dos textos de Ariés, Flandrin e Rago, creio que demonstrou bem as perspectivas de estudo dos comportamentos e vivências históricas das relações sexuais.
            Nos textos de Flandrin, “A vida sexual dos casados na sociedade antiga” (em sociedades ocidentais) e “Para uma história da sexualidade” (em O sexo e o ocidente), o autor prioriza as relações de sexualidade entre os camponeses. Busca pensar os termos relacionados a amoroso e prostituição durante os séculos, pois se mostram bem diferentes. Outro tema analisado é a relação entre o casamento e o poder, onde se vê também a proximidade do discurso religioso. O discurso religioso também é abordado na formação das sociedades e de seus hábitos sexuais.
            Philippe Ariés, em “O amor e o casamento” e “O casamento indissolúvel”, ambos em Sexualidades Ocidentais, trata da transformação da visão da criança durante os anos, a identidade da mulher e seu o privilégio à maternidade. Esta mulher, que se caso não pudesse oferecer herdeiros ao marido, estaria dando a ele o direito de ter outra esposa. O homem que não desrespeita a esposa, tendo para isso outras parceiras sexuais nas ruas para cometer suas “perversões”. E também o casamento enquanto evento, fazendo um apanhado durante todo o período clássico ao contemporâneo.
            Já o texto que me foi dado à discussão, “Sexualidade e identidade na historiografia brasileira” e “De Eva a Santa, a dessexualização da mulher no Brasil”, de Margareth Rago, Vê-se –como nos outros– a utilização de grandes modelos para a definição de estudos de sociedades em todo o ocidente. No primeiro texto, a autora me deixa tacitamente a sujeição da identificação da sociedade brasileira ao “Sexo Rei”, onde a sexualidade aparece como principal identificador do brasileiro e por onde, muitas vezes, pode-se mensurar as complicações econômicas decorrentes de tal sexualidade. Já no segundo texto, “De Eva a Santa[...]”, a autora nos mostra a influência vinda de cima para baixo, onde além da caracterização de cada indivíduo e suas práticas cotidianas, o Estado, dependendo de seu interesse, pode promover mudanças nas práticas sexuais de sua população.


            Nestes dois últimos textos que estudei, vejo melhor a influência da obra de Foucault, onde a retratação do “sexo Rei” e dos exercícios do poder/Poder estão implícitos nestes trabalhos. Por fim, creio que a análise da obra de Foucault é problemática devido a forma com que a abordamos. A pesar deste autor estar tão próximo dos historiadores, sua produção me parece caracterizada ainda como a de um filósofo, como é de sua formação. Se os historiadores utilizam-se de métodos na busca objetiva e na produção do conhecimento, como analisar a obra de um graduado em psicologia e doutorado em filosofia, já que produzindo sob o ramo filosófico contemporâneo, a primeira coisa que faz é se despir de filosofias, apresentando as coisas não como devem ser, mas sim podem ser? Como um historiador que de princípio é um cientista, que não se desprende dos métodos e das objetividades, que trabalha pela construção de obras que sirvam de referenciais, e que portanto, constrói novas verdades, em uma nova relação que leva ao exercício do poder –que no fim todos exercem– , pode analisar uma obra que tenta ao máximo se despir de tais ‘grilhões’? Acho que desta forma ficamos perdidos.

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