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Resenha de "Aqueda do bandeirismo de apresamento"

ELLIS JÚNIOR, Alfredo. A queda do bandeirismo de apresamento. pp.301-307, de 1950.



         O movimento de bandeiras pode ser considerado tipicamente paulista, com o seu núcleo irradiador a partir de São Vicente. Essa capitania, que inicialmente cultivou a cana de açúcar para exportação, não obteve êxito. Em Pernambuco e outras regiões nordestinas também era cultivada a cana de açúcar, e os comerciantes portugueses, tentando diminuir seus gastos, buscavam essas regiões devido a maior proximidade com a metrópole. É sob esse aspecto, que as pessoas dessa capitania empobrecida, de lavouras de subsistência, obrigatoriamente viraram as costas para o comércio no atlântico, e passaram, através de financiamento familiar, a articular uma alternativa econômica de vida no sertão do território colonial ibérico.


“...buscar remédio para minha pobreza.”


         “A queda do bandeirismo de apresamento”, de Alfredo Ellis Jr., historiador paulista, que apresentou esse artigo (em anexo) em 1950, demonstra claramente a tendência paulista em heroificar o bandeirante. Utilizando-me de diversos pontos de seu texto, apresentarei fatos diferenciados, opiniões díspares e divergências com historiadores atuais.
         Existiram na colônia portuguesa, diversas formas de bandeirismo, Ellis divide-as em apresamento ou guerreiro, pesquisa mineralógica, colonizador e minerador sedentário. Ora, o bandeirismo colonizador, afim de criar colônias de pastoreio, com pessoas dispostas a sair de suas terras, onde já enfrentavam dificuldades, para se aventurar em lugares desérticos, enfrentando feras, epidemias, índios e toda sorte de dificuldades, é risível.
         O bandeirismo mineralógico, que muitas vezes foi financiado pela coroa, servia apenas de pretexto para a busca índios. Aliás, sobre isso e atenuando as proibições de cativeiros de índios, fundamentadas sob várias restrições legais, fruto de pressões jesuíticas à igreja Católica, existia a “guerra justa”. Essa consistia no direito de se “defender” de um ataque indígena aprisionando-os, e podendo, posteriormente, utilizar-se deles como escravos. Quem poderia comprovar, no meio do sertão, se houve “guerra justa” ou não?
         Quando cita o bandeirismo de mineração e sendentarismo, o autor desconsidera que possa ter coexistido com o de apresamento, fixando este último apenas ao período de domínio espanhol. O período da Península ibérica, 1580-1640, não corresponde inteiramente com o período de invasão holandesa à Pernambuco, 1630-1654 (que teria fomentado o apresamento da índios), que por sua vez, não estende-se até 1750, onde se enfatizaria, de uma vez por todas, o bandeirismo minerador. Logo, é lógico conceber o bandeirismo de apresamento, mesmo que menos lucrativo, tenha perdurado até a “descoberta” de ouro no Brasil.
O bandeirismo de apresamento deu sim, lucro aos paulistas, mas ao contrário do que Ellis afirma, apenas o excedente dos ameríndios aprisionados eram comercializados com o nordeste da colônia. Os paulistas compreendiam a fonte geradora dessa mão de obra e também a própria consumidora dela. A versão de que a crise aguda de mão de obra no nordeste, teria sido decorrente da invasão holandesa, que desorganizou a tráfico de escravos negros, criando um vácuo a ser preenchido pelos “negros da terra”, pode ser refutada cronologicamente. Raposo Tavares, tido como um grande bandeirante, já tinha saído em expedição alguns anos antes da invasão a Pernambuco e bem anteriormente à tomada de Luanda. Segundo documentos flamengos, foram eles próprios que teriam se interessaram pelo tráfico de índios, mas, na verdade, dos escravos “tapuia”, e entre Maranhão e Pernambuco. Os índios recém trazidos do sertão paulista tinham um valor muito reduzido em razão de suas chances de sobrevivência no novo ambiente e as restrições legais contra o seu cativeiro, tornavam-no um opção econômica pouco interessante. Isso limitava a transferência de apenas pequenos grupos, que justificassem o custo da viagem. Esses fatores mudam completamente o eixo desse tráfico para o próprio nordeste, deixando São Vicente com uma parcela bem menor nesse comércio.
         Ellis Jr. leva também em consideração que o Planalto não tinha outra fonte de renda: [...] as suas lavourinhas [...], como ele diz, analisadas pela quantidade de ferramentas, são usadas para consumo local. É importante ressaltar que a lavoura necessita de muita mão de obra, e não por um acaso, as tribos Guarani eram preferivelmente atacadas pelos bandeirantes. As tribos Guarani, atacadas na região do Guairá, já tinham experiência com a horticultura, e por muitos casos já haviam sido “civilizados” pelos jesuítas. A união de Espanha e Portugal, sob a égide de península ibérica, facilitou as entradas paulistanas em regiões espanholas, a mansidão dos índios e a sua experiência com a agricultura faziam dos índios um alvo perfeito para o aprisionamento bandeirante. Além de tudo isso, a maioria dos cativos, eram mulheres e crianças. A divisão sexual de trabalho indígena, colocava a mulher como responsável pela cultura agrária, deixando para os homens o trabalho de participar, com seus senhores, de novos apresamentos.
         A região do Guairá, ignorada pelo autor, compreendia uma extensa área de domínio espanhol, onde se encontravam também muitas missões jesuíticas. Tememinús, Tupinaés, Guaranis e outras diversas tribos viviam nessa região, e a tática utilizada para se sair bem, utilizando-se de menor número de homens, foi herdada da experiência espanhola, a prática das alianças. Tribos como Tupi e Guarani, viviam em guerra e os paulistas se aproveitaram disso para conseguir sucesso em suas empresas. Ofereciam presentes ou qualquer coisa que pudesse ser trocada por informações ou por um bom guia que os levasse a captura de mais índios inimigos. Lideres indígenas também fizeram acordos, posicionando-se como intermediários e acumulando riqueza e poder. Não obstante, essas ações foram aos poucos sendo substituídas por agressões. Segundo relatos de jesuítas, as aldeias que tentavam resistir ao jugo bandeirante sofriam sérias provações: “entraram, mataram, queimaram e assolaram [...] e casos em que queimaram a povoações inteiras só para terror e espanto dos que ficavam vizinhos” Trecho do livro de John Monteiro, Negros da terra. Depois do apresamento, na volta para a cidade, os velhos, os enfermos, aos aleijados e até as crianças eram assassinadas para que a viagem corresse mais rápido.


“[...] os jesuítas haviam estabelecido um vasto império teocrático em terras hispano americanas. Aí haviam vários celeiros de índios semi-civilizados. Seria muito natural que os apresadores, ávidos por uma fonte de renda qualquer, se arrojassem , como vorazes abutres, sobre tão rica e convidativa presa [...]”


         Apesar de Ellis Jr. destacar o papel dos jesuítas, que era confirmadamente contrário a todas as atrocidades cometidas pelos bandeirantes, a questão não pode ser analisada assim, de forma maniqueísta. A questão era a competição pela mão de obra, os jesuítas também se utilizavam dos indígenas para manter e ampliar o império cristão supracitado, e  além da catequese, os índios também trabalhavam na agricultura e na criação de animais. Enquanto isso, os paraguaios e os paulistas forjaram uma relação harmoniosa para competir com os jesuítas pelos negros da terra. Constantemente essas duas facções entravam em conflito e por muitas vezes esses jesuítas foram mortos ou expulsos das terras onde estavam. Denunciavam comumente os horrores impostos pelos bandeirantes. Um padre, denunciou os paulistas dizendo: “com tanta crueldade que não me parecem ser cristãos matando as crianças e os velhos que não conseguem caminhar, dando-os de comer aos seus cachorros.” Trecho do livro de John Monteiro, Negros da terra. Por volta de 1640, os jesuítas conseguiram, através de canais legais, que seus reclames chegassem até o governador do Brasil, ao rei Felipe IV e, finalmente ao Papa. O Papa, por sua vez, fez publicar um breve com palavra ríspidas aos expedientes dos paulistas e paraguaios. Mesmo assim, as missões voltaram a ser atacadas em 1648 e 1676. As reduções dos jesuítas passaram a se concentrar em lugares cada vez mais inacessíveis, forçando os bandeirantes a cada vez mais percalços para alcançar a tão cobiçada mão de obra Guarani. Os padres preservavam grupos de indígenas guerreiros para defende-los, tendo até, apesar de proibido pela coroa castelhana, dotado os Guarani com armas de fogo.


“Os benefícios trazidos pelo apresamento foram vários [...]”



         Pessoalmente, acho triste que um historiador possa terminar seu raciocínio com esta frase, aliás tenho até dúvidas se ele o fez quando redigiu esses “benefícios”. Mesmo que o estado mais bem abastado do país, tenha suas raízes aí, mesmo que hoje tenhamos um território muito maior devido ao detimento da expansão dos jesuítas, mesmo que o comércio do açúcar tenha sido fomentado pela mão de obra ameríndia e que o território do sul do país tenha sido esvaziado de espanhóis, é de uma extrema causa etnocentrista, atribuir tantos “benefícios” aos brasileiros, em detrimento do povo indígena.


         Em tempo, a mítica criada pelos historiadores paulistas, sobre o quão poderoso era o bandeirante, pode ser facilmente refutada por uma única citação: Acreditava-se que todo homem nascido em São Paulo era bandeirante por natureza. Na verdade, existiam poucos sertanistas experientes, esses levavam os “neófitos” em expedições aventureiras até que pudessem ir sozinhos. De certo, esses bandeirantes falavam diversas línguas indígenas e conheciam bem os mistérios do sertão. Não obstante, os jovens bandeirantes não participaram de mais do que uma ou duas entradas no sertão americano.


Referência bibliográfica:
·        História do Brasil, Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayre Pereira, Editora Atual LTDA. 5ª edição, 1991.
·        Negros da terra, capítulo: O sertão e a criação de uma força de trabalho, John M. Monteiro, Companhia das Letras, 1994.

·        A queda do bandeirismo de apresamento,  Alfredo Ellis Júnior, pp.301-307, de 1950.

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