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Resumo: A África e os africanos na formação do mundo atlântico, de John Thornton, 2004

Thornton, John – A África e os africanos na formação do mundo atlântico – cap. 3 e 4; Lovejoy, Paul – A escravidão na África – uma história de suas transformações, cap. 1,4 e 5; Reis, João José. “Notas sobre a escravidão na África Pré colonial” (Afro-asiáticos: 14,1987); Mattos, Hebe e Grinberg, Keila. As Relações Brasil-África no contexto atlântico Sul. Escravidão, comércio e trocas culturais.


A sociedade africana e o tráfico de escravos


Introdução

            O presente trabalho fundamenta-se sobre a discussão historiográfica a cerca da estruturação da sociedade africana, bem como o desenvolvimento do tráfico negreiro no Atlântico e dentro de seu próprio território. Para tal, abordarei teses de diferentes conteúdos, como a que conta a história do tráfico a partir de uma perspectiva europocêntrica, onde os africanos, forçados ao comércio de escravos e pouco avançados social-político e tecnologicamente sairiam prejudicados no relacionamento comercial. Por outro lado, fazendo comparações e traçando conclusões, será também ressaltada outra versão da história do tráfico negreiro, que aprofunda o conhecimento sobre as sociedades africanas, estudando sua estrutura social-econômica e a raiz da instituição escravista, forjando a partir daí, uma visão mais ampla do que foi o encontro entre europeus e africanos.


Sobre o comércio de escravos

            Segundo Walter Roadney, os africanos tinham uma economia menos desenvolvida do que os europeus. Esse ponto é definitivo para a sustentação de sua tese de que os africanos foram subjugados e forçados a participar do comércio de escravos no atlântico. Roadney, em sua produção, tem um conhecimento parcial do funcionamento do comércio na África. Segundo Thornton, a manufatura africana era bem desenvolvida, capaz de suprir as necessidades do continente. Um ponto interessante, que demonstra esse caso de bom desenvolvimento produtivo, é o do ferro, onde os portugueses ávidos apenas por lucros, compravam o metal em um ponto da África (Serra Leoa) e vendiam-no em outro ponto do continente (Senegâmbia). Outro a ser citado, são as condições de navegação e transporte dos produtos. Enquanto os africanos voltaram-se para a tecnologia de transporte dentro de seus rios, facilitando o comércio entre as regiões do continente, os portugueses, por exemplo, por absoluta falta de opção, voltaram-se para a construção de barcos que pudessem navegar em grandes distâncias e em mar aberto. Esse fator, aos olhos dos especialistas tradicionais atestaria o atraso africano.
            A busca por riquezas além-mar levou inicialmente os portugueses a tentativa de invasão de territórios africanos e escravização dos homens, o que resultou por vezes em redundante fracasso. Os africanos definitivamente não eram tão mal organizados e atrasados para que fossem tão facilmente dominados. Com o tempo, os portugueses conheceram o sistema de funcionamento da sociedade africana, perceberam que era muito mais barato e rápido negociar com os líderes de tribos rivais, para que os despojos das suas guerras fossem vendidos como produtos; mercadorias.
            Do escravo que existia sob uma forma de dependência pessoal, para o escravo como centro da atividade produtiva, a mudança, nas palavras da professora Drª Hebe Mattos, foi lenta porém radical. Fomentada também por um mercado consumidor extremamente atraente, decisivo para a implantação de um modo de produção escravista.
            Os europeus, em troca do valioso bem que era um escravo a ser vendido lucrativamente na Europa ou nas Américas, forneciam aos africanos armas e cavalos, fomentando a eclosão de mais guerras que tinham por intuito a expansão do território de cada tribo, ou mesmo, consolidação das conquistas efetuadas. Esse ciclo fundado, sustentava-se a grosso modo assim:

Caixa de texto: Escravos
 












            A despeito da economia africana prejudicada e da forçosa entrada dos africanos no comércio de escravos, sustentada por Roadney, Thornton vai além, e alimenta a discussão com o trabalho de Philip Curtin, que pontua que as guerras africanas poderiam ter cunhos político ou econômico. No primeiro, o escravo apareceria como subproduto que poderia gerar ou não lucro. Contudo, no modelo de guerra econômica, as batalhas eram travadas com o fim explicito de adquirir escravos para vender aos europeus.
            Embora os portugueses dominassem no campo tecnológico com relação aos africanos, de modo algum a economia africana, experiente e desenvolvida, seduzida pelo ótimo preço dos escravos cativos, foi dominada. Assim, depreende-se do que foi supracitado que ocorreram efetivamente mudanças no volume de cativos negociados ao fim das guerras intertribais, não desorganizando porém, a estrutura social africana. Contudo, para o desenvolvimento dessa afirmativa, torna-se interessante expor o posicionamento de Paul Lovejoy, do qual trataremos agora: A tese da transformação.



“A tese da transformação”

         Walter Roadney, apoiado por Paul Lovejoy e tendo respaldo daqueles que Thornton chamou de “Historiadores demógrafos”, declarou que o comércio de escravos expandiu o número de cativos mantidos na África e intensificou sua exploração (Thornton, 1998) –A tese da transformação. Concordando com eles, outros historiadores, interessados em história social e política, argumentaram que o comércio de escravos provocou uma ruptura social (como o aumento de conflitos e consequente prejuízo militar), alterando de forma adversa os sistemas judiciais e ampliando a desigualdade.
            A estrutura social africana já admitia a escravidão, e como explicitarei no próximo tópico, suas raízes remontam ao período pré-colonial. Segundo Thornton, não há mudanças no que diz respeito à qualidade, mas sim, no que tange a quantidade de cativos, feitos através de seqüestros, comércio e principalmente guerras. Ainda segundo ele, trazendo em seu livro A África e os africanos na formação do mundo atlântico, J.D. Fage e David Eltis com discursos contrários a Roadney e Lovejoy, destaca que as elites africanas de modo algum sofreram perdas de grande escala, mantendo normalmente seus negócios e criando até os chamados exércitos de massa, o que derruba a história já mencionada de que os africanos foram impelidos a entrar no negócio do tráfico com os europeus.
            Portanto, o contato comercial escravista entre europeus e africanos não deve ser visto como um acontecimento que gerou um “impacto externo” na economia africana, mas sim, como uma modalidade comercial desenvolvida no seio das sociedades africanas, onde podemos identificar sua participação, sua especialização e até mesmo, controle.



A questão da propriedade

            Finalizando com este tópico, tentarei ratificar tudo que já foi escrito, discutindo mais aprofundadamente a questão de propriedade nas sociedades africanas.
            Segundo as próprias leis africanas, ao contrário do que rezava por exemplo a fisiocracia francesa, de que a terra era o único meio privado de produção de rendimentos, os escravos deviam suprir as necessidades de lucratividade das elites africanas. A terra na África, tida como propriedade corporativa do Estado, jamais teve o caráter de delegar poder a qualquer homem, ao contrário do que acontecia na Europa. Especulações liberais européias tentavam dar conta do “modelo” africano de lucratividade, atribuindo a ausência de propriedade de terras ao pouco avanço tecnológico, um lenitivo da exploração e desigualdade social. Característica das sociedades européias industrializadas, a concentração populacional nas grandes cidades também era verificada em algumas cidades africanas, sem porém, ocorrer a propriedade privada do espaço territorial. Este é um argumento que derruba a pretensão europocêntrica de atestar o atraso econômico africano.
            Enquanto que na Europa o investidor que quisesse obter mais lucros apenas com a terra, teria que compra-la e arrendar a um terceiro que além do aluguel, teria também o gasto com a mão-de-obra para lucrar, na África, o investidor que pleiteava algum lucro, tinha que investir em escravos, pois as leis africanas disponibilizavam terras a quem quisesse cultivá-las, sendo homem livre ou escravo. O sistema social da África não era então retrógrado ou igualitário, mas somente legalmente divergente (Thornton, 1998).
            A estruturação de leis que tornaram legal a escravidão no continente africano, segundo alguns africanistas modernos, tem suas raízes nas sociedades pré-coloniais, que corporativistas, caracterizavam-se pelo forte domínio do Estado. O Controle rígido dos Estados, teriam inibido a iniciativa privada de busca por uma riqueza estável. Como a riqueza através da terra era impossível, torna-se importantíssima a apropriação do trabalho, meio pelo qual um empreendedor poderia conquistar a tal riqueza estável.
            Com os primeiros contatos com o mundo islâmico, que escravizava os não-muçulmanos durante sua expansão, difundiu-se na África subariana a prática da utilização de cativos em serviços dentro dos governos e em serviços militares.

            Assim, a prática da escravidão põe-se de tal forma intrínseco à sociedade africana, que mesmo com o fim de sua prática na Europa e nas Américas, causando o colapso do tráfico atlântico, a escravidão não acabou no continente. O comércio legal entre a Europa e África ainda se utilizou de escravos para as mercadorias cultivadas e transportadas. Contudo, na África, mesmo com todos os empecilhos o tráfico interno renovou-se e perdurou durante muito tempo assolando o continente que é considerado o berço da humanidade.





Fontes:
Neste trabalho, foi utilizado principalmente o conteúdo estudado no período das aulas ministradas pela professora Dr ª Hebe Mattos. 2º Semestre de 2004.

Thornton, John. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro, Editora Elsevier, 2004.

Reis, João José. “Notas sobre a escravidão na África pré-colonial”. In: Centro de Estudos afro-asiáticos nº 14, p. 5-21.

Lovejoy, Paul. A escravidão na África – uma história de suas transformações. Rio de Janeiro, Editora civilização brasileira, 2002.


Mattos, Hebe e Grinberg, Keila. As Relações Brasil-África no contexto atlântico Sul. Escravidão, comércio e trocas culturais. In: Centro de Estudos afro-asiáticos, Rio de Janeiro, outubro de 2003.

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