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VI – Filosofia na Idade Média

VI – Filosofia na Idade Média
“Tudo o que não existe e depois passa a existir, é criado por algo diferente de si mesmo”. Avicena
A fé e a filosofia
A região que compreendia as cidades helênicas foi totalmente ocupada pelos poderosos exércitos romanos em meados do século II a.C. Apesar disso, a forma de viver e de pensar grega se manteve, com pouquíssimas mudanças, dentro do Império Romano, que a rigor, acabou também por desenvolver o pensamento dos filósofos que os precederam. De fato, ainda hoje é comum se dizer que apesar dos romanos terem dominado militarmente a Hélade, foram conquistados pela avançada cultura grega.
Sabemos também que o ano I marca o nascimento de um homem de origem judaica chamado de Jesus de Nazaré, que recebeu mais tarde o epíteto de Cristo, uma palavra de origem grega que significa o ungido, o messias. Uma nova religião nasce a partir da pregação de seus discípulos, que num primeiro momento eram ignorados, mas logo foram considerados inimigos de Roma. Os cristãos foram intensamente perseguidos, presos e executados, mas a fé cristã cresceu fortemente dentro do território romano, sendo suas pregações realizadas em sigilo, dentro de cavernas e outros locais abrigados contra soldados romanos.
Juntamente a isso, o Império Romano amargava uma grande crise econômica, que desempregava e aumentava o custo de vida das famílias que viviam na cidade. Esses homens logo ajudaram a aumentar o contingente de cristãos, que segundo sua fé, apontam para uma vida resignada como receita para a existência eterna após a morte, no conforto de Deus.
A partir do século III, as pressões das etnias germânicas por territórios dentro dos domínios romanos já eram insuportáveis. Ao tentar dirimir a crise, o Império foi dividido em duas partes: o Império Romano do Oriente, com sede no que é hoje a Turquia, onde se encontravam as rotas de comércio, e o Império Romano do Ocidente, com sede ainda em Roma, concentrando em si toda crise.
Em 324 chega ao poder o Imperador Constantino, que constrói na cidade de Bizâncio a nova capital do Império Oriental, chamando-a de Constantinopla, atual Istambul. Constantino será o primeiro Imperador Romano a se converter ao cristianismo e adotá-lo como religião oficial do Estado, valendo essa decisão também para Ocidente.
As contradições entre a base econômica do Império e a nova religião eram evidentes. Como Roma tornara-se cristã, não poderia admitir a escravidão humana como instituição dentro de seus domínios, pois seus evangelhos pregavam o amor ao próximo e um tratamento de igualdade perante a Deus.
O Ocidente, mais empobrecido e sofrendo de maior pressão militar e social, acaba por esfacelar-se em 476, data que marca o início da Idade Média. São características deste período: a fuga da população, que empobrecida e sofrendo com os altos custos da vida nas cidades romanas, vai para o campo; o poder desfragmentado em pequenos feudos; O meio rural como dínamo da economia; a retração do comércio e desmonetarização das relações econômicas.  Fica ainda o Oriente, com o nome de Império Bizantino, que só cairá em 1453, com a queda de Constantinopla para os turcos, dando início a Idade Moderna.
A Idade Média ocidental que se inicia em 476 d.C. tem, portanto, grande influência religiosa no pensamento filosófico. Os pensadores cristãos associaram-se rapidamente a filosofia helênica, preocupados em organizar os saberes religiosos, a fim de constituir uma teologia poderosa o suficiente para resistir a queda do Império. Preocupavam-se também em se apropriar do rigor racional grego, a fim de otimizar a evangelização pelo mundo. Como resultado, o primeiro grupo de intelectuais filósofos surgiu no seio da Igreja Católica, formulando um pensamento que aliava as experiências greco-romanas à fé cristã. Essa filosofia, propagada pelos Padres da Igreja, ficou conhecida como patrística.
Com o poder espiritual da Igreja já estabelecido, os diversos campos de estudo como gramática, astronomia, aritmética geometria, retórica, dialética e música, entre outros, ficaram devidamente submetidos à fé cristã. No oriente, já no século VII, surgia uma nova interpretação dos desígnios divinos, realizada pelo profeta Muhammad, conhecido no ocidente como Maomé. O Islamismo cresceu durante a Idade Média rapidamente, tomando vários territórios cristãos a oriente e ocidente, tendo então forte contato com os filósofos gregos da antiguidade.
Comentaremos sobre dois desses pensadores que fizeram releituras dos clássicos de forma tão bem feita que chegaram a influir sobre pensadores cristãos. É quando surgem então os escolásticos, frades cristãos que agora findavam colocar a razão e a fé conciliadas, sem mais ter que submeter a primeira à segunda. São alguns dos pensadores escolásticos: Anselmo de Cantuária, Alberto Magno, Roger Bacon, Pedro Abelardo, Bernardo de Claraval, João Escoto Erígena, João Duns Scot, Jean Buridan, Nicole Oresme e, claro, Tomás de Aquino


Filosofia e pensadores não-cristãos na Idade Média
Avicena (980 – 1037) nasceu na Pérsia, atual Irã. Seu nome é uma tradução ocidental de Ibn Siná. Ele teve acesso ao conhecimento de Platão e Aristóteles graças ao processo histórico que levou o conhecimento para oriente com Alexandre Magno e com o Império Romano. Avicena foi reconhecido por sua afinada inteligência desde jovem. Trabalhou como médico, mas também dominava a lógica, a geometria, a astronomia, e claro, a teologia e a filosofia. Ele viveu no período de forte expansão da fé islâmica, sendo então conhecido como maior filósofo muçulmano da história. Com a mesma característica dos cristãos, seu pensamento uniu fé e filosofia.
Avicena será um grande difusor do pensamento de Aristóteles. Suas teorias serviam de influência até para pensadores cristãos, como Tomás de Aquino. Ibn Siná afirmava que o ser é essência e existência. Uma entidade pode ser igual a muitas outras em essência, como nós seres humanos. Apesar disso, nós podemos imaginar um ser humano em essência, mas isso não quer dizer que ele exista. Para existir é necessária a substância, matéria, que só pode ser dada por intervenção de outra entidade. Deste ponto, Avicena pode definir a necessidade da existência de Deus, pois apenas ele pode moldar a matéria, unindo essência e existência em uma entidade nova.
Averróis (1126 – 1198), outro pensador muçulmano, foi também um médico e jurista, além de filósofo. Suas leituras baseiam-se principalmente nos clássicos gregos, chegando a apontar Aristóteles como um presente de Deus aos homens para se buscar a verdade. Seus comentários sobre as obras de Platão e Aristóteles ajudaram a disseminar novamente os clássicos na Europa.
A verdade para este filósofo é única: Deus. E só pode ser atingida através da interpretação correta da lei religiosa, revelada pelo profeta Maomé, fundador do islamismo. Para isso, Averróis pregou o uso da lógica aristotélica, pois julgava o método dos teólogos muçulmanos antigos, a discussão retórica e dialética, incapaz de levar o homem à verdade de Deus.

Cristianismo: Tomás de Aquino.
O maior dos pensadores escolásticos foi sem dúvida Tomás de Aquino (1225 – 1274), que com as obras de seu preceptor, Santo Alberto Magno, se apropriou do pensamento aristotélico, traduzindo-o aos olhos de um cristão. Como já vimos, Aristóteles admite também os sentidos como fonte de informações passíveis de construção de um saber verdadeiro. Ao adotar essa linha de pensamento, a teoria do conhecimento de Tomás de Aquino, aponta que ao nos relacionarmos com um objeto de estudo, recebemos impressões dele. Como efeito dessas impressões temos a formação de um conhecimento. Após esse conhecimento, refletindo-se sobre ele, podemos então perceber que foi efeito das impressões vindas do objeto.
Ao relacionar a filosofia e a teologia, Aquino afirma, ao tentar provar a existência de Deus, que Ele só pode ser conhecido através de analogias, pois o intelecto humano não é capaz de alcançá-lo. Em sua obra mais conhecida, a Suma Teológica, Tomás parte do princípio que Deus sempre existiu, e desenvolve cinco vias, que através de argumentos sensíveis e racionais, conduzem a prova de sua existência. São elas:
1º) Com base na ideia de Potência, Ato e Movimento, de Aristóteles, Aquino diz que Deus é puro Ato. Seria Deus o primeiro motor capaz de dar movimento as coisas.
2º) A necessidade de que Deus seja o Primeiro Motor decorre da evidência de que Ele não pode ser potência apenas, pois não se realizaria. Não pode ser movimento, pois se está em transição, teríamos que admitir que em algum momento Ele não existiu. Assim, para que tudo possa seguir em eterna transformação, torna-se necessária à existência de um primeiro motor, algo que muda e não pode mudar.
3º) Tomás afirma que as coisas no mundo são contingentes, ou seja, necessitam de algo para ter razão. Segundo Aquino essa seria a necessidade da Existência de Deus.
4º) Em todos os seres que existem podemos verificar graus diferentes de Perfeição. Logo, se existem graus de Perfeição, existe uma entidade com grau máximo de Perfeição, que é Deus.
5º) Segundo Aquino, todos nós podemos verificar que existe uma ordem para cada coisa existente. Toda ordem é fruto de uma razão. Se organizarmos nosso armário, aquela ordem é fruto de nossa inteligência. Mas e o corpo humano, o mundo, o universo...? Estas são fruto de uma ordem superior, de uma inteligência superior. Deus.
Em resumo, sofre a filosofia na Idade Média, ressaltamos a fuga população para  campo e o desmoronamento do Império romano, o que acarretou na descentralização do poder na Europa. Aliado a esse quadro, o fortalecimento da doutrina cristã e o surgimento do islamismo, ambas entidades fortes que herdaram em períodos diferentes as obras clássicas, levaram a filosofia a um íntimo contato com a fé. Na maior parte do tempo, a razão esteve submetida à fé, como vimos, houve a tentativa de conciliar em igualdade as duas coisas. A modernidade vai dar continuidade nesse processo, colocando novamente a razão em destaque, sobre a fé.



EXERCÍCIOS PROPOSTOS
1. Disserte sobre as relações existentes entre a fé dos pensadores muçulmanos e o pensamento filosófico clássico.

2. Como Avicena se utiliza da metafísica para descrever a necessidade da existência de Deus.
3. Como Averróis relacionará a fé muçulmana com a lógica aristotélica.

4. A importância do filósofo medieval Tomás de Aquino reside principalmente em seu esforço de valorizar a inteligência humana e sua capacidade de alcançar a verdade por meio da razão. Discorrendo sobre a “possibilidade de descobrir a verdade divina”, ele diz: “As verdades que professamos acerca de Deus revestem uma dupla modalidade. Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus, etc. Estas últimas verdades, os próprios filósofos as provaram por meio de demonstração, guiados pela luz da razão natural”.

A partir dessa citação, identifique a opção que melhor expressa esse pensamento de Tomás de Aquino.
(A) A Filosofia é capaz de alcançar todas as verdades acerca de Deus.
(B) O ser humano só alcança o conhecimento graças à revelação da verdade que Deus lhe concede.
(C) A fé é o único meio de o ser humano chegar à verdade.
(D) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar por seus meios naturais certas verdades.
(E) Deus é um ser absolutamente misterioso e o ser humano nada pode conhecer d’Ele.

5. UFRJ – 2009. A Filosofia Medieval buscou a síntese entre a razão grega (a filosofia) e a religião cristã (a fé). Por isto, seu tema central foi a relação entre razão e . De acordo com Étienne Gilson, historiador da Filosofia Medieval, “Uma dupla condição domina o desenvolvimento da filosofia tomista: a distinção entre razão e , e a necessidade de sua concordância. Todo o domínio da filosofia pertence exclusivamente à razão; isso significa que a filosofia deve admitir apenas o que é acessível à luz natural e demonstrável apenas por seus recursos. A teologia baseia-se, ao contrário, na revelação, isto é, afinal de contas, na autoridade de Deus. Os artigos de fé são conhecimentos de origem sobrenatural, contidos em fórmulas cujo sentido não nos é inteiramente penetrável, mas que devemos aceitar como tais, muito embora não possamos compreendê-las. Portanto, um filósofo sempre argumenta procurando na razão os princípios de sua argumentação; um teólogo sempre argumenta buscando seus princípios primeiros na revelação”.
A partir da perspectiva apresentada discorra sobre a Filosofia Medieval.

6. UFF – 2010. O historiador de Filosofia Alain De Libera assim se refere à Universidade na Idade Média: “Se não se pode pôr toda a Idade Média sob o signo da Instituição universitária — o fenômeno é tardio demais e começa no século XIII —, não é menos claro que não se pode pensar a relação do sábio ou do homem de cultura medieval com a vida política de seu tempo abstraindo-se da Universidade”.
Esse texto nos propõe entender a Universidade, desde sua origem, como uma estrutura de poder. Pode-se dizer que esse entendimento continua válido para a Universidade atual? Comente essa questão.
7. Descreva as cinco vias em que Tomás de Aquino comprova a existência de Deus.



GABARITO
1. O aluno deve dissertar sobre a influência dos filósofos da Grécia antiga nas obras da Idade Média. Deve também descrever os motivos pelos quais os intelectuais religiosos se aproximaram destes escritos. Trata-se da necessidade de rigor no desenvolvimento das novas teologias e da preocupação com a disseminação da fé.
2. Nesta questão o aluno deve discorrer sobre a doutrina da essência e existência de Avicena, bem como a necessidade de haver Deus para que as duas se unam.
3. Aqui se torna necessário destacar a importância da lógica aristotélica em oposição ao método e discussão usado pelos teólogos do islamismo antes de Averróis: a discussão.
4. D
5. A partir da polaridade “razão – fé” o candidato poderá discorrer sobre as relações entre “filosofia” e “teologia”, “razão” e “revelação” ou “natural” e “sobrenatural”, como idéias importantes no pensamento europeu medieval.
6. Esse trecho da obra do historiador de Filosofia Medieval, Alain De Libera, que analisa a Universidade Medieval como estrutura de poder intelectual e político, promove uma reflexão atual, porque não se pode ainda hoje pensar o homem, em suas dimensões intelectual, política e cultural, distanciado da Universidade como legítimo espaço de discussão e configuração daquelas referidas dimensões.
7. Em síntese: 1ª) Existência de um primeiro motor; 2ª) Adeus como o primeiro motor; 3ª) A necessidade de Deus existir para dar razão a existência humana; 4ª) Os graus de perfeição e 5ª) A necessidade de haver uma ordem suprema.



Fábio Souza Lima

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