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VII – A Modernidade


VII – A Modernidade
“Posso não concordar com uma vírgula do que você está dizendo, mas defendo até a morte o seu direito de dizê-lo" Voltaire
As origens do pensamento moderno
Numa tentativa de definir o Renascimento, podemos dizer que ele foi: um movimento cultural desenvolvido na Europa Ocidental a partir do século XII, chegando ao seu zênite nos séculos XV e XVI. É um movimento que está intimamente ligado ao desenvolvimento das cidades, do comércio e do resgate da cultura greco-romana (digamos que desta vez, com menor envolvimento da fé cristã).
São condições para o Renascimento: o desenvolvimento urbano, do artesanato e das manufaturas, do comércio, da burguesia, o desenvolvimento da economia monetária e da imprensa.
Como todos sabemos o local onde essas condições se realizaram foi a península italiana, notadamente nas cidades de Gênova, Florença e Veneza, que acumularam mais capitais, graças ao domínio do comércio com o oriente, que se dava principalmente pelo mar mediterrâneo. As especiarias que chegavam na Europa vindos do Oriente geraram lucros fantásticos, fazendo da ressurgente classe de comerciantes um poderosos grupo social. Neste momento você já deve estar percebendo alguma semelhança com o período em que escrevemos sobre as origens de filosofia. Sim, o processo é muito parecido, e é por isso que o chamamos de renascimento. Trata-se do renascimento do pensamento clássico em sua essência.
As principais características desse período são: o antropocentrismo (novamente o homem no centro das explicações); o racionalismo (a fé foi posta então em segundo plano); o espírito crítico (criticismo); naturalismo (ideia de que o método científico é a melhor forma de conhecer a realidade); hedonismo (busca pelo prazer imediato); individualismo (repare a menor preocupação com o próximo); Heliocentrismo (Copérnico/ Galileu: sol como o centro do Universo) e o Humanismo (os intelectuais europeus “apaixonados” pela cultura clássica, responsáveis por trazer os escritos dos principais filósofos para discussão acadêmica, sem intervenção da fé).
Seguido a isso, os comerciantes fizeram quase o mesmo que na antiguidade; começaram a financiar reinos para conseguir inserção política nas sociedades européias. Surgem nesse processo os primeiros Estados Nacionais, com fronteiras nacionais, diplomacias nacionais, impostos nacionais, pesos, medidas e moedas nacionais.... todos com reis absolutistas, ou seja, com poder absoluto sobre o Estado e seus súditos.
 Dentre os teóricos de Estado, destacamos Jean-Jaques Rosseau e Thomas Hobbes. Dentre os teóricos do absolutismo, Jaques Bossuet, Jean Bodin, e também Hobbes. Contudo, nos deteremos em um outro nome: Nicolau Maquiavel, onde encontramos um receituário de unificação e governo de um Estado, separado na prática da Igreja, e com os pretextos necessários para a manutenção do poder nas mãos de um príncipe.
Para entender o texto prático de Maquiavel é importante entender as teorias utópicas que chegaram antes dele. Um desses teóricos era Thomas Morus (1478 – 1535), que acreditava num Estado Ideal, onde não haveria fome, nem propriedade privada, não haveria desigualdade social, o trabalho durava apenas o suficiente para o indivíduo não se sentir explorado e também não há descriminação religiosa ou avidez pelo enriquecimento...
A obra de Morus, Utopia, será considerada um símbolo do que ficou conhecido mais tarde como Socialismo Utópico, pois revela o que todos gostariam que o Estado fosse, mas não diz como fazer para que isso aconteça. Um outro escritor, Tommas Campanella (1568 – 1639), influenciado pela obra de Morus, escreveu Cidade do Sol, onde ordenava uma grande comunidade por círculos concêntricos, cujo último, dentro de todos, detinha um grande templo adornado e em seu altar, mapas do mundo e do universo celestial. Percebemos em ambas as obras a continuidade do pensamento medieval, ao tentar unir o pensamento político de criação de um Estado à fé, em locais onde as pessoas não passariam pelo sofrimento das sociedades que realmente existiam.
Porém, a obra de Maquiavel representará um movimento radical de abandono da fé e estudo das entranhas de um Estado verdadeiro. Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), nasceu em Florença e viveu num período onde os Estados Nacionais já se unificavam em toda a Europa. A península italiana era recortada em diversas pequenas cidades-Estado que lutavam entre si e contra países já consolidados como a França. Em muitas ocasiões, algumas cidades-Estado italianas chegaram a realizar acordos militares para manterem-se submetidas a outros países ou para batalharem ao lado deles contra outras cidades italianas. Além disso, tornando o assunto mais interessante, entre as essas cidades está Roma, herdeira da fé cristã ocidental, tendo sob seus domínios os chamados Estados Papais.
Como principal problema para Maquiavel, estava à necessidade de acabar com o ciclo de instabilidade na região e criar uma forma prática de como um Príncipe deve governar para unificar a Itália e manter o Poder em suas mãos. Num primeiro momento, portanto, o florentino rejeita as teorias de Platão, Aristóteles, além das utopias que o precederam. Aponta que se deve separar o Dever Ser do Ser, ou seja, separar o Ideal do Real, a Teoria da Prática e, escreve assim, a obra ainda hoje mais lida de filosofia política na história: O Príncipe.
Maquiavel vai propor um Estado Real, não ideal ou teórico, onde o príncipe deve se desfazer da Ordem Eterna (que envolve a religião e a fé) e estabelecer uma Ordem Temporal (através de leis feitas pelo homem). Uma República estaria no campo do ideal para aquele momento da Itália, pois segundo Nicolau, o povo precisava antes ser adestrado a seguir uma Ordem mantida por leis e criada por um Príncipe poderoso, absoluto.
O pensador escreverá ainda sobre como o Príncipe deve aparentar ser diante dos súditos, se ele deve se preocupar em ser amado ou temido (melhor temido para o autor), como ele deve dirigir as finanças do Estado, o que ele deve fazer ao conquistar um território novo e o que deve fazer para não deixar escapar o Poder do Estado de suas mãos. A síntese da obra de Maquiavel é expressa na sentença: Os fins justificam os meios. O Príncipe deve se utilizar de qualquer método; seja matar, roubar, trair, se utilizar da Igreja e da fé dos súditos para manipular... qualquer coisa, desde que consiga manter o Estado sob seu poder. Sobretudo, da forma que Maquiavel defende a monarquia absolutista, percebemos a separação do Estado e das influências da Igreja, colocando o poder religioso submetido ao poder temporal.
Evidentemente a obra desde escritor será proibida pelos cânones da Igreja Católica, estando até os dias de hoje no Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros impróprios para um homem de fé. Os católicos vão atribuir durante muito tempo, o adjetivo maquiavélico a todos que discordarem de sua fé, como foi o caso dos protestantes, com Lutero, Calvino e os anglicanos ingleses. É por isso que ainda hoje, apesar das pessoas não contextualizarem a obra de Maquiavel, usam seu nome com sentido de perfídia, traição, falta de escrúpulos.
Contudo, depois de Maquiavel, a filosofia neste tempo histórico não seria a mesma. As descobertas do período por conta da nova forma de pensamento foram estonteantes, como por exemplo, a chegada dos europeus na América, a constatação de que o sol era o centro de nosso sistema (Copérnico/ Galileu) e não a Terra como apontavam os escritos bíblicos e a constatação ainda mais radical de Nicolau de Cusa (1401 – 1450), de que não existe no universo nenhum ponto fixo, mas que o problema reside no observador que julga sempre ser o centro de tudo.
Aliás, reflexões críticas sobre as mudanças no pensamento humano são descritas não só por filósofos, mas diversos escritores da época. Enquanto o personagem Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547 - 1616) apresenta-se como um louco que mantém os valores morais de um cavaleiro medieval, isto é, a dignidade e decência que não mais se identificavam com a modernidade, o humanista Erasmo de Rotterdam (1466 - 1529), mostra como motor da vida, em Elogio da Loucura, as faces da loucura humana. Rotterdam apresenta a deusa Loucura, que segundo ele é responsável por conduzir os homens em suas ações durante a vida, como responsável por criar e manter cidades, governos, a cultura, a religião, a justiça, o casamento... a própria deusa Loucura, que narra o livro, diz que ao arrancar a capa de orgulho e presunção de um filósofo, vemos apenas a loucura da insegurança de suas proposições. Diz que a mulher é acometida da loucura ao resolver casar, posto que deve assumir as dores do parto, o dever conjugal, entre outras coisas que seriam desvantajosas. Emfim, ele aponta que é a loucura o princípio da vida!
Outro humanista, Michel Montaigne (1533 - 1592), escreve sobre a condição existencial do homem. Ele diz que o homem não deve viver com a perspectiva de que vai se tornar algo melhor do que já é. O homem é apenas um homem. E carrega dentro de si o que toda humanidade tem, a sua condição existencial: a morte.  Segundo o filósofo, saber dessa condição, saber que estamos destinados à morte, nos traz a vantagem única de amar a vida.
Um outro filósofo, o religioso Giordano Bruno (1548 – 1600), foi considerado o principal mártir das ciências modernas. Ordenado padre dominicano, desenvolveu uma cosmologia animista e panteísta. Animista porque negou a teoria originada de Aristóteles de que existe um primeiro motor como princípio. Bruno concorda aqui com o pré-socrático Heráclito de Efeso, dizendo que tudo está em movimento, apontando então que a criação de todas as coisas se dá por um princípio anímico (o sopro vital divino) presente nelas. E também Panteísta porque defendeu que Deus estava em todo o lugar. Isso quer dizer que Deus não criou o mundo em separado de si, mas que Ele é parte integrante de cada coisa, o que inclui homem e suas ações. Giodano acabou condenado por heresia pelo Tribunal da Santa Inquisição, permaneceu preso durante sete anos, até que recebeu sua sentença de morte, realizada na fogueira.

A Teoria do Conhecimento na modernidade
Nascido em Londres, Inglaterra, Francis Bacon (15611 – 1626) elaborou uma teoria chamada de Crítica dos Ídolos, onde elabora um estudo sobre as imagens que fazem com que os homens ajam com preconceitos e pré-juízos (ídolo vem do grego eidolon, que significa imagem). Segundo Bacon, quatro são os ídolos (imagens) que nos influenciam: os ídolos do teatro, pois como se estivéssemos lá sentados, ficamos de forma passiva e apenas recebemos o conhecimento, sem responder, discutir ou poder mudá-lo; os ídolos do fórum, que são informações que recebemos e cristalizamos em nossa mente através dos discursos que ouvimos nas ruas, na televisão, nos bares, etc; os ídolos da caverna, que como na alegoria contada por Platão, se fundam sobre os nossos cinco sentidos, que podem ser defeituosos e os ídolos da tribo, formados em nós por nossa própria natureza humana. Desta forma, para demolir esses ídolos, Bacon propôs no livro Novum organum, a aplicação do método experimental no processo de conhecimento.
Esse Método indutivo consistia em três etapas de investigação: presença ou afirmação, investigação das aparições do mesmo fenômeno; ausência e negação, da mesma forma, só que avaliando as ausências do fenômeno e graduação e comparação; uma investigação das variações desses fenômenos.
Por outro lado, o célebre filósofo e matemático René Descartes (1596 – 1650), nascido na cidade de la Hayle, na França, caminha para o desenvolvimento de outro método na busca pelo conhecimento, baseado no racionalismo (a clareza em que uma ideia se apresenta à mente humana). Descartes vai defender, como Platão, o inatismo, ou seja, a proposta de que o conhecimento já está em nossa mente, sendo as experiências em vida as responsáveis por despertá-los novamente. O método cartesiano pode ser sintetizado por quatro preceitos: o primeiro de que devemos nos afastar da precipitação e da prevenção, isto é, não devemos aceitar precipitadamente qualquer conhecimento até que investiguemos e eles nos pareçam claros e confiáveis; o segundo consiste em dividir aquilo que nos propomos estudar até quantas vezes for necessário para que o conhecimento das partes nos leve a um claro conhecimento do todo; o terceiro, conduzir o pensamento de forma clara, ou seja, atribuir degraus que caminhem do saber mais fácil para o mais complexo; e o quarto, enumerar em detalhes e realizar revisões a fim de se ter certeza de que nada foi omitido no processo.
Com isso, Descartes percebe que pode duvidar de tudo. A sua dúvida metódica coloca, em última instância, até em desconfiança sobre se nós seres humanos existimos. Chamada de dúvida hiperbólica, a resolução deste problema será a base da construção de um novo sistema filosófico. Para isso, ele propõe quatro argumentos: o argumento dos sentidos, onde Descartes, assim como Platão, descreve a impossibilidade de se confiar nos sentidos; o argumento do sono, onde ele nos diz que os sonhos podem ser tão reais que imitam exatamente os sentimentos de quando estamos acordados, e, neste caso, como saber se não estamos dormindo?; o argumento da matemática, nele o filósofo identifica o mais racional dos conteúdos, estando fora do campo dos sentidos, porém, não fora do campo de Deus, que, como todo poderoso, poderia nos enganar nas operações mais simples, como 2 + 2 = 4, fazendo com que acreditássemos em coisas diferentes do que elas realmente são; e o argumento do cogito, sendo o deus enganador um gênio maligno, que ao divertir-se por enganar os homens, acaba por provar nossa existência.
Bem, esse deus enganador, ao se dar ao trabalho de nos enganar enquanto pensamos (cogito), garante que nós existimos, pois se não existíssemos ele não precisaria se dar ao trabalho de enganar. Esse é o ponto fixo, a única verdade confiável a que Descartes consegue chegar e, de onde, construirá seu sistema filosófico.
Contudo, no século XVII as discussões que envolviam Deus e o mundo cedem espaço para questionamento ligado ao conhecimento e ao funcionamento da mente humana. Apesar dos grandes avanços de Bacon no tocante ao uso da experiência como fonte do saber, outro bretão, John Locke (1632 – 1704) será considerado o pai do empirismo, apontando ser mais importante saber como o experimento se dá dentro de nós, em nossa mente. Em Ensaio acerca do conhecimento humano, Locke critica a ideia de conhecimento inato, dizendo que, por exemplo, uma criança só saberá que o ‘doce não é amargo’ depois de experimentar o doce e o amargo, percebendo então a diferença. Segundo Locke, a mente não é um conjunto de ideias soltas, sem ordem, mas funciona sob um desenvolvimento que principia nas ideias particulares, mais simples, oferecendo a base, e caminhando em direção as ideias gerais, através da abstração característica da ampliação intelectual. Contudo, o pensamento lockeano será ainda mais incisivo na política, como veremos mais adiante. O empirismo britânico terá ainda dois nomes de grande relevo: George Berkeley (1685 – 1753) e o seu Tratado sobre os princípios do conhecimento humano e David Hume (1711 – 1776) e a sua Investigação a cerca do entendimento humano.
Brevemente temos o seguinte esquema:

Assim, podemos concluir que quanto ao período da revolução científica dos séculos XVI e XVII, numa visão geral da época de pré-ciência, tínhamos o predomínio do princípio da autoridade e o dogmatismo, enquanto que nas bases da ciência moderna, temos o empirismo, o racionalismo e a dúvida metódica.


O século das luzes
O Iluminismo foi um movimento filosófico europeu que se desenvolveu no século XVIII e tem esse nome graças à crença de seus divulgadores de que seriam capazes de libertar todos os seres humanos das trevas da ignorância e da superstição, através do desenvolvimento da razão, que seria alcançada através da educação. Neste período, a razão tem, definitivamente, supremacia sobre a fé, pois o empirismo e o racionalismo se tornam evidentes dentro de uma matriz ideológica que será base da sociedade capitalista em que vivemos hoje. Para isso, devemos perceber que a busca pelo ideal de liberdade, se torna o principal mote filosófico de discussão do período, tendo como exemplos históricos de sua aplicação, movimentos como a Revolução Francesa e também a Revolução Industrial.
Se nos séculos anteriores, obras como a de Maquiavel e Hobbes defenderam um Monarca absoluto, veremos no século das luzes, a condenação a qualquer tirania política. Seus adeptos condenarão, além do absolutismo, qualquer tipo de intervenção do Estado na economia, a sociedade estamental (como funciona a antiga Ordem) e os privilégios dos nobres. Eles irão defender, além da liberdade de pensamento, o livre comércio, a divisão do poder em três (Legislativo, executivo e judiciário), o direito ao voto e a igualdade jurídica. Vejamos suas bases agora.
O escritor George-Louis Leclerc Buffon (1707 – 1788), ao assumir que a vida é um processo químico que acontece no interior da matéria, deixa de lado a noção de Deus e parte para uma concepção materialista da natureza, onde é realçado o papel da matéria nos processos naturais.
Étienne Bonnot Condillac (1715 – 1780), filósofo francês, aprofundará a teoria de Locke sobre os sentidos, apontando que o conhecimento se dá na mente por um conjunto de sentidos. Após isso, esse conhecimento é fixado através da linguagem, ou seja, após usarmos os sentidos para apreender o objeto, damos nome a cada coisa. Sua teoria ficou conhecida com sensualista ou sensacionista.
John Locke ainda escreveu em Primeiro tratado sobre o governo civil e em Segundo tratado sobre o governo civil, que o indivíduo deve se submeter ao corpo político (governo) para que este possa protegê-lo e dar a ele conforto e a paz da vida em comunidade. O corpo político, segundo Locke, torna-se legitimado quando há nele ampla participação ou o consentimento da maioria. Caso contrário, se no pacto social, não houver a maioria, o corpo social perde legitimidade e se desmorona. Além disso, Locke também vai defender a propriedade privada como efeito do trabalho de cada indivíduo sobre a natureza. Segundo ele, a propriedade privada se tornaria uma extensão do corpo individual de cada homem e o ataque a essa propriedade seria então um ataque ao indivíduo, logo, passível da resposta coercitiva do corpo político. Entre as obras de Locke, encontra-se também a Carta acerca da tolerância, onde defende que a intolerância religiosa é oriunda das confusões entre o Estado e a fé, sendo, portanto, mais interessante que fossem separados.
François Marie Arouet (1694 – 1778), mais conhecido como Voltaire, foi o maior propagador das ideias iluministas, pois sua obra, cheia de humor, atingia a maior parte da população. Ao dizer: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la”, Voltaire defendia que não é só a educação a responsável por levar o homem ao desenvolvimento de sua razão, mas também a liberdade de pensamento e expressão. A pesar de dizer acreditar em Deus, Voltaire foi consoante com seu tempo, dizendo que não havia utilidade para o homem em saber qualquer coisa sobre a essência de Deus, pois não se tornaria por conta disso, melhor cidadão, pai, marido, patrão, etc.
Em um outro filósofo, Charles-Louis de Secondat, mais conhecido como Barão de Montesquieu (1698 – 1755), ficou mais evidente o ideário de separação da Igreja e o Estado. Ele avançou nos estudos de Locke e apontou que uma sociedade não é só governada pelo corpo político ou pelas leis de Estado, mas também há nesse governo muito de tradição, influência do clima, da cultura, da religião... todos esses fatores formam o que o filósofo chamou de espírito geral da sociedade. Ao defender a liberdade, Montesquieu pesquisou qual seria a forma em que ela se revelaria melhor e mais amplamente à sociedade. Ele propôs então a divisão do poder em três: Legislativo, Executivo e Judiciário, sem qualquer sobrepujança de um sobre outro. Os poderes seriam complementares e harmônicos de forma a garantir a liberdade à sociedade.
Jean-Jaques Rousseau (1712 – 1778), apresentou um trabalho polêmico que destoou um pouco dos demais dentro do iluminismo. Ao realizar críticas contra o progresso e a civilização que se formava, assim como Hobbes e Locke, Rousseau recorreu a ideia de estado de natureza, para assinalar que o homem é bom em seu estado natural, sendo a sociedade a responsável por corrompê-lo. O homem nesta situação natural é solitário, livre e feliz, vivendo nas florestas, sendo orientado apenas por seus instintos, como é o de sobrevivência, e tendo em seu cotidiano os prazeres mais elementares como o de beber, comer e ter relações sexuais.
O bom selvagem, como ficou conhecido este homem, teve sua vida alterada quando, espontaneamente, precisou de outros homens para realizar alguma tarefa que sozinho não conseguia fazê-lo. Ao se unir a outros homens por algumas vezes, logo teria se acostumado, e então, viriam as primeiras famílias e demais relações sociais. Dessas novas relações, como as de trabalho e as amorosas, por exemplo, teriam surgido também seus contrários, como o ódio, a cobiça, o orgulho, a inveja etc. Com o passar dos anos e o avanço da tecnologia, as sociedades foram crescendo e tornando cada vez mais um homem dependente do outro. Contudo, segundo Rousseau, o marco em que o homem começa a se corromper é o da criação da primeira propriedade privada. Segundo o filósofo, O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo.
Com a impossibilidade do homem de voltar ao estado de natureza e já corrompido por diversos sentimentos ruins, Rousseau escreve em seu livro Do Contrato Social, como a relação do homem com o Estado deveria funcionar. Ele acredita no corpo político como um organismo, submetido às vontades da coletividade. A vontade geral, sem preocupação com os interessas particulares, seria a satisfação do interesse da coletividade, do público, da maioria da população.
Contudo, a obra considerada síntese do pensamento iluminista foi a Enciclopédia, que com 35 volumes, publicada entre 1751 e 1772, por Denis Diderot (1713 – 1784) e Jean Le Rond D’Alembert (1717 – 1783), findava divulgar de maneira mais completa possível todos os avanços técnicos, científicos e humanísticos já alcançados pelo homem. Diderot, que era materialista e empirista, chegou a afirmar que uma observação bem realizada é melhor do que cem teorias.


Kant e a crise da consciência moderna
Embora Immanuel Kant (1724 – 1804) tenha vivido praticamente no século XVIII, sua obra já perfazia um certo desgaste do modelo de busca pelo saber usado pelos iluministas. Em suas investigações de como é possível o conhecimento, Kant identificou erros e acertos nas afirmações dos racionalistas e dos empiristas. E ao desenvolver sua proposta de investigação filosófica, acabou por não adotar nenhum dos dois lados, mas uma forma nova de abordagem deste problema, sintetizando o que julgava ser o melhor do racionalismo e do empirismo.
Ao escrever a Crítica da razão pura, Kant ressalta a obra de Copérnico, que tirou a terra do centro do universo e colocou o sol, ou seja, inverteu as perspectivas de análise. Da mesma forma, Kant diz que os objetos que nos propomos a estudar devem se regular pelo nosso conhecimento, e não o contrário. O conhecimento começa nos sentidos humanos. Ao criticar os racionalistas, diz que o objeto não existe em si mesmo, mas é a nossa visão humana sobre ele que forma a sua imagem em nossa mente. Aliás, para Kant, crítica quer dizer exame de valor. Ao buscar conhecer, o sujeito não apreende o objeto como ele é, mas o submete as suas formas a priori (tempo e espaço) e as categorias de seu entendimento.
Entretanto, se o conhecimento se dá com o uso das formas a priori do homem, isto é, pelas suas experiências sensíveis, como seria o sujeito puro, antes de ter qualquer experiência sensível? Alijado de seus sentidos, este será chamado na filosofia de sujeito transcendental. Kant concluiu que os homens possuem certas faculdades que vão possibilitar e determinar como temos acesso ao saber. Uma delas é a sensibilidade, que é a forma com que trazemos o conhecimento externo para ser representado em nossa mente. Essa representação do conhecimento externo está sempre submetida ao espaço e ao tempo, ou seja, quando vemos um jogo de futebol, representamos um gol com a passagem da bola por determinado espaço (antes, durante e depois da linha do gol) em um determinado tempo. O espaço e o tempo, portanto, são parte de nós, da nossa sensibilidade, são condições a priori de nosso conhecimento. É apenas através de nossa sensibilidade, que funciona como filtro da realidade, que podemos ter acesso ao conhecimento de coisas externas.
Por conta disso, Kant vai criticar a pretensão da metafísica, que é a de conhecer o ser em si mesmo. Segundo suas proposições isso seria impossível para sensibilidade, para a apriori, pois extrapola a experiência possível das condições humanas. Afirmar positivamente ou negativamente a existência de Deus, da liberdade ou da alma como imortal está além das capacidades humanas, e sempre que o homem como sujeito tentar fazê-lo, acorrerá em juízos que se contradizem (antinomias).
Em Crítica da razão prática, Kant diz que ideias como a da existência de Deus, da imortalidade da alma e de liberdade não devem ser tratadas como conhecimento, como fizeram muitos filósofos que o precederam. Esses assuntos, segundo ele, são noções reguladoras da prática humana, ou seja, funcionam dentro do campo da moral, pois não podem ser provadas pelo homem. Conhecidos como postulados práticos, as ideias de Deus e de imortalidade da alma, por exemplo, existem para dirimir a angústia que acomete o homem pela possibilidade do fim absoluto de sua consciência após a morte. Esses postulados servem, portanto, para que o homem seja motivado a viver dentro de determinadas condutas reguladas durante sua vida.
Sobre a liberdade como postulado prático, ou seja, escrevendo no campo da moral, Kant afirmará que apesar do dever das leis e tradições, o homem é livre, pois criou as suas próprias leis e pode agir livremente dentro de seus limites. Ao criar o conceito de Imperativo Categórico, afirma que devemos agir segundo o qual queremos que as pessoas também ajam.



EXERCÍCIOS PROPOSTOS
UFPR – 2008 - As respostas não devem ultrapassar o número de linhas reservado em cada questão. As questões 01 a 03 referem-se ao texto a seguir.
“O bom senso é a coisa mais bem repartida entre os homens, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm. E não é verossímil que todos se enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que o poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina o bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens. E, desse modo, a diversidade das opiniões não provém de sermos uns mais racionais do que outros, mas de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas. Pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem. [...] Quanto a mim, jamais presumi que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que os do comum; e amiúde desejei ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão nítida e distinta, ou a memória tão ampla e presente quanto a de outras pessoas. No que diz respeito à razão ou bom senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que existe inteiramente em cada um de nós, e seguir nisso a opinião comum dos filósofos, que dizem que só há mais e menos no que respeita aos acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos da mesma espécie.” (René Descartes, Discurso do método. São Paulo : Abril Cultural, Col. “Os Pensadores”, 1979, p. 29.)

Segundo texto acima:
01. O que todos os homens têm em comum?
02. Por que, segundo Descartes, os homens têm opiniões diversas?
03. O que distingue os homens entre si?

04. UFPR – 2008 - Na parte final do Discurso do Método, Descartes sugere que o seu método filosófico poderia colaborar para produzir uma medicina mais útil e sólida do que aquela existente em seu tempo. Segundo ele, “poderíamos livrarmo-nos de uma infinidade de moléstias, quer do espírito, quer do corpo, e talvez mesmo do enfraquecimento da velhice, se tivéssemos bastante conhecimento de suas causas e de todos os remédios de que a natureza nos dotou...
Considerando o projeto cartesiano, redija um texto respondendo, do seu ponto de vista, a seguinte questão:
Pode a ciência vencer a morte?

5. Leia o seguinte trecho, retirado de O Príncipe, de Maquiavel:
“Porque o nosso arbítrio não desapareça, penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para outro: tudo foge diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder obstar-lhe e, se bem que as coisas passem assim, não é menos verdade que os homens, quando volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia, aqueles rios correrão por um canal e o seu ímpeto não será tão livre nem tão danoso. Do mesmo modo acontece com a fortuna; o seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada, dirigindo ela a sua violência só para onde não se fizerem diques e reparos para contê-la.” (Maquiavel, O Príncipe. São Paulo : Abril Cultural, Col. Os Pensadores, 1979, cap. XXV, p. 103.)
Com base no trecho acima e em outras informações presentes nessa obra, explique as duas imagens usadas por Maquiavel:
a) o rio impetuoso
b) as barragens

6. Em 1740, Frederico II, rei da Prússia, publicou uma obra intitulada O Anti-Maquiavel, na qual critica e refuta O Príncipe, como fizeram tantos outros, que, como ele, pensaram haver algo de errado com os ensinamentos de Maquiavel.
Leia o trecho a seguir, no qual Frederico II expõe o que pretendeu fazer em sua obra.
“Nessa obra, vimos a falsidade dos raciocínios com os quais Maquiavel pretendeu nos confundir, apresentando-nos criminosos com a máscara de grandes homens. Eu me esforcei para arrancar do crime o véu da virtude com o qual Maquiavel o encobriu e para denunciar ao mundo o erro em que muitos incorreram sobre a política dos príncipes. Eu disse aos reis que sua verdadeira política consiste em ultrapassar seus súditos em virtudes, a fim de que não se vejam obrigados a condenar nos outros o que autorizam em sua própria pessoa. Eu disse a eles que ações brilhantes não são suficientes para estabelecer sua reputação, mas que para tanto requerem-se ações que tendam à felicidade do gênero humano.” (Frédéric II, L’anti-Machiavel. Oeuvres philosophiques. Paris: Fayard, 1985, p. 125.)
Com base na leitura desse trecho e em conhecimentos de O Príncipe, de Maquiavel, explique por que Frederico II considera ser necessário refutar Maquiavel.

7. UFF – 2010 – O metro equivale a um décimo milionésimo do comprimento do quadrante da Terra e faz parte do Sistema Métrico Decimal (SMD), uma das invenções mais notáveis do período do Iluminismo e um dos legados permanentes da Revolução Francesa. Até então, eram usadas medidas antropocêntricas (como o pé, a palma, o côvado, etc.) que, além de não terem relação umas com as outras, variavam entre as regiões e os países, dificultando a cobrança de impostos, o comércio e o intercâmbio científico. A Assembléia Nacional Francesa determinou que os cientistas estudassem um sistema de medidas prático e válido “para todos os tempos, para todos os povos”. O Sistema Métrico Decimal foi adotado na França em 1799 e definiu sua medida principal (o metro), baseado na dimensão da Terra, ou seja, em algo inalterável e comum a todos os países.
Assinale a opção que melhor expressa o significado dessa invenção.
(A) Sistema imposto à França pela coalizão contra-revolucionária européia liderada pela Inglaterra.
(B) Sistema adotado para fortalecer o bloqueio continental que Napoleão impôs à Europa.
(C) Sistema cuja adoção derivou da vontade do rei da França que gostava de trabalhos manuais e precisava
de padrões modernos de medida.
(D) Sistema típico da mentalidade científica do século XVIII, pois vincula as medidas de todas as coisas às
dimensões objetivas da natureza.
(E) Sistema resultante da inovação do regime do Terror durante a Revolução Francesa.

8. UFF – 2010 - Immanuel Kant, além da Filosofia, dedicou-se também às questões científicas, tendo sido pioneiro na afirmação de que as “nebulosas” não são apenas gases, mas conglomerados de estrelas. Sua tese de 1755 sobre a formação do Sistema Solar antecipou ideias semelhantes às do francês Laplace. A chamada “hipótese de Kant-Laplace” explica o surgimento do Sol e dos planetas a partir de uma “nebulosa primitiva”, em movimento de rotação constante e cujos gases aos poucos se acumulam no centro, adensando-se e gerando o Sol, enquanto ao redor desse criam-se núcleos de matéria concentrada, dando nascimento aos planetas. Embora essa concepção já tenha sido superada, ela foi importante para o desenvolvimento das teorias cosmogônicas contemporâneas, inclusive a mais famosa, a do big-bang.
Marque a opção que melhor exprime a relevância das teorias cosmogônicas de Kant e de Laplace.
(A) É possível conceber a origem e a evolução do Universo por meio da razão e dos conhecimentos científicos.
(B) A busca do conhecimento é uma tarefa inglória, pois há sempre uma teoria nova se sobrepondo à atual.
(C) Como o ser humano não estava presente na origem do mundo, ele não pode ter qualquer conhecimento
do que então aconteceu.
(D) O conhecimento sobre a origem do Universo e as causas dos fenômenos naturais de nada serve para o
ser humano e é pura vaidade.
(E) Só podemos conhecer aquilo que experimentamos diretamente.

9. O escritor e filósofo francês Voltaire, que viveu no século XVIII, é considerado um dos grandes pensadores do Iluminismo ou Século das Luzes. Ele afirma o seguinte sobre a importância de manter acesa a chama da razão:
“Vejo que hoje, neste século que é a aurora da razão, ainda renascem algumas cabeças da hidra do fanatismo. Parece que seu veneno é menos mortífero e que suas goelas são menos devoradoras. Mas o monstro ainda subsiste e todo aquele que buscar a verdade arriscar-se-á a ser perseguido. Deve-se permanecer ocioso nas trevas? Ou deve-se acender um archote onde a inveja e a calúnia reacenderão suas tochas? No que me tange, acredito que a verdade não deve mais se esconder diante dos monstros e que não devemos abster-nos do alimento com medo de sermos envenenados”.
Identifique a opção que melhor expressa esse pensamento de Voltaire.
(A) Aquele que se pauta pela razão e pela verdade não é um sábio, pois corre um risco desnecessário.
(B) A razão é impotente diante do fanatismo, pois esse sempre se impõe sobre os seres humanos.
(C) Aquele que se orienta pela razão e pela verdade deve munir-se da coragem para enfrentar o obscurantismo e o fanatismo.
(D) O fanatismo e o obscurantismo são coisas do passado e por isso a razão não precisa mais estar alerta.
(E) A razão envenena o espírito humano com o fanatismo.

10. Descartes escreve, na sexta parte do Discurso do Método:
“Jamais notei (...) que, por meio das disputas que se praticam nas escolas, alguém descobrisse alguma verdade até então ignorada, pois enquanto cada qual se empenha em vencer, exercita-se bem mais em fazer valer a verossimilhança do que em pesar as razões de uma parte e de outra parte; e aqueles que foram por muito tempo bons advogados nem por isso são, em seguida, melhores juízes (...)”
Com base nesse texto, responda:
a) Descartes avalia as disputas praticadas nas escolas segundo a capacidade dessas disputas de conduzir a um certo
resultado. Qual? Como Descartes avalia a capacidade dessas disputas de conduzir ao resultado em questão?
b) O texto compara duas atividades. Identifique-as, comentando a relação entre elas.


RESPOSTAS
1. Solução:O bom senso ou razão é o que os homens têm em comum. Ele é o poder de distinguir o verdadeiro do falso e é o que define a espécie humana por oposição aos animais. Todos os homens o possuem igualmente: todos os homens são igualmente racionais. Comentário: A boa pontuação é obtida por aquela resposta que identifica a faculdade da razão sob suas duas denominações em forma de frase e apresenta a caracterização dessa faculdade feita por Descartes. A pontuação varia conforme o grau de completude de informações, fidelidade ao pensamento de Descartes e qualidade argumentativa da resposta do candidato.
2. Solução: Posto que a razão está igualmente presente entre os homens e as opiniões humanas são diferentes, a causa desse tipo de diversidade se explica, no texto, pelo modo como os homens “conduzem seus pensamentos por vias diversas” e “não consideram as mesmas coisas”. Comentário: A boa pontuação é obtida por aquela resposta que identifica as duas causas da diversidade de opiniões em forma de frase. A pontuação varia conforme o grau de completude de informações, fidelidade ao pensamento de Descartes e qualidade argumentativa da resposta do candidato.
3. Solução: O texto opõe a razão, igualmente presente em todos os homens, àquilo que é variável – imaginação, memória, rapidez de pensamento. Estas características são chamadas “acidentes”, pois podem casualmente variar, apesar da identidade racional humana; elas não definiriam o que há de comum entre os homens. Comentário: A boa pontuação é obtida por aquela resposta que identifica os três acidentes e classifica-os como “acidentes”. A pontuação varia conforme o grau de completude de informações, fidelidade ao pensamento de Descartes e qualidade argumentativa da resposta do candidato.
4. Solução: A quarta questão avalia a capacidade de reflexão crítica do candidato sem perder de vista a especificidade filosófica dessa reflexão. Dois elementos do enunciado deveriam merecer especial atenção. Primeiramente, a solicitação do “ponto de vista” não pode ser suficientemente satisfeita mediante uma opinião ou o relato de uma crença, mas exige uma resposta argumentada. O risco aqui é o de a resposta limitar-se ao lugar comum, ao chavão e à visão supersticiosa sobre o papel da ciência ou sobre a morte. A avaliação qualitativa desse aspecto da resposta, assim, considera tanto a pertinência da argumentação, a capacidade de examinar razões favoráveis e contrárias, quanto a capacidade de refletir sobre os próprios termos com que a questão se formula, buscando esclarecer os pressupostos conceituais de que dependeria a resposta (o que abrange os dois conceitos explícitos na formulação da questão — morte e ciência). Em segundo lugar, o enunciado pede que o candidato considere “o projeto cartesiano” — o que exige, para além da mera paráfrase do fragmento citado do Discurso do Método, uma contextualização, tanto no que se refere à sua dimensão histórica quanto ao seu significado em vista de uma compreensão de outros aspectos da filosofia de Descartes. Uma boa resposta deve ser capaz não apenas de abordar de forma pertinente esses dois aspectos da questão, mas também de articulá-los sem confundir os horizontes da reflexão pessoal e da perspectiva histórica, extraindo daí elementos para refletir sobre o problema nos termos em que ele pode ser pertinente hoje.
5. Solução: a) o rio impetuoso é uma metáfora da fortuna, isto é, do destino, do curso dos acontecimentos. Ela designa a parte dos acontecimentos que não é governada pelo nosso livre arbítrio e que, de acordo com a metáfora, pode pôr em risco a estabilidade do governo.
b) as barragens são as ações que dependem da vontade ou do arbítrio do homem e que podem, até certo ponto, controlar o seu destino. Elas metaforizam a capacidade de ação do príncipe e a resistência que ele pode fazer à fortuna – o que corresponde à virtù do príncipe. Comentário: A boa pontuação é obtida por aquela resposta que explica a metáfora e vincula-a às questões da política maquiaveliana.
6. Solução:Porque, segundo Frederico II, Maquiavel apresenta ações criminosas como se fossem virtuosas, não compreende que os reis devam cultivar a virtude de modo exemplar e não associa a reputação dos reis à sua capacidade de proporcionar felicidade ao gênero humano. Assim, ele embaralha o modo tradicional de se fazer a partilha entre o bom e o mau governo: o bom governo não é aquele que realiza uma finalidade ética, mas aquele que realiza uma finalidade propriamente política, que consiste na estabilidade do governo. Frederico II critica essas inovações em nome da tradição, defendendo que o bom governo é aquele que se coloca a serviço da moral. Comentário: A boa pontuação é obtida por aquela resposta que não apenas enumera as objeções de Frederico II, mas também confronta a posição do rei da Prússia à de Maquiavel, segundo o viés contido na citação: a relação entre ética e política.
7. Solução:D
8. Solução: A
9. Solução: C
10. Solução: a) Receberam pontuação integral respostas nas quais o candidato identifica a descoberta da verdade como o resultado com base no qual Descartes avalia as disputas. O candidato afirma que Descartes avalia as disputas como incapazes de conduzir a esse resultado. Além disso, o candidato explica porque Descartes considera que as disputas não são meios adequados à obtenção da verdade: nelas prioriza-se a persuasão e o apelo à verossimilhança. Foram avaliadas como boas respostas em que o candidato: identifica a descoberta da verdade como o resultado com base no qual Descartes avalia as disputas; afirma que Descartes avalia as disputas como incapazes de conduzir a esse resultado; apresenta com alguma correção a razão pela qual Descartes avalia as disputas como pouco adequadas para conduzir à verdade. Apresenta uma resposta regular à questão o candidato que identifica a descoberta da verdade como o resultado com base no qual Descartes avalia as disputas e que afirma que Descartes avalia as disputas como incapazes de conduzir a tal resultado. Foram avaliadas como insuficientes casos em que, em uma resposta imprecisa, mal redigida ou que demonstra alguma incompetência linguística, o candidato identifica a descoberta da verdade como o resultado com base no qual Descartes avalia as disputas. Ou o candidato identifica incorretamente o resultado e, mesmo assim, reconhece de forma explícita que Descartes avalia as disputas como incapazes de conduzir à descoberta da verdade. Não foram pontuadas as respostas que contêm afirmações falsas, afirmações irrelevantes, afirmações contraditórias entre si, afirmações que contradizem o texto sob discussão.

            b) Foram avaliadas como muito boas e receberam a pontuação integral respostas nas quais o candidato identifica a atividade de ser advogado e a atividade de ser juiz. Demonstra compreender que a atividade de ser advogado é a atividade de defender uma posição em certa disputa e a atividade de ser juiz é a atividade de julgar imparcialmente as posições em disputa. Verossimilhança e parcialidade são os elementos que caracterizam a atividade de advogar segundo a passagem. Verdade e imparcialidade são os elementos que caracterizam o juiz. A conexão precisa entre os dois pares de noções é que aquele que busca a verdade deve ser imparcial em seu julgamento para obtê-la e aquele que busca fazer sua posição vencedora na disputa deve torná-la verossímil. Foram consideradas boas as respostas em que o candidato identifica a atividade de ser advogado e a atividade de ser juiz e demonstra compreender que a atividade de ser advogado é a atividade de defender uma posição em certa disputa e a atividade de ser juiz é a atividade de julgar imparcialmente as posições em disputa. Verossimilhança e parcialidade são os elementos que caracterizam a atividade de advogar segundo a passagem. Verdade e imparcialidade são os elementos que caracterizam o juiz. Foram avaliadas como regulares respostas em que o candidato identifica as duas atividades e conceitua-as corretamente. Além disso, faz uso competente das noções de verdade e verossimilhança ou das noções de parcialidade e imparcialidade. São respostas insuficientes os casos em que o candidato identifica apenas uma das atividades e conceitua-a corretamente; ou identifica as duas atividades sem conceituá-las; ou ainda erra na identificação e caracterização das atividades; ou não compreende o uso metafórico feito por Descartes das atividades de ser advogado e de ser juiz. Não foram pontuadas as respostas que contêm afirmações falsas, afirmações irrelevantes, afirmações contraditórias entre si, afirmações que contradizem o texto sob discussão.


Fábio Souza Lima

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